A moagem de cana no Centro-Sul poderá alcançar 650,2 milhões de toneladas na safra 2027/28, crescimento de 2,7% em relação às 633,3 milhões de toneladas estimadas para o ciclo atual. A projeção foi apresentada pelo diretor da Bioagência, Tarcilo Rodrigues, durante a segunda reunião da Canaplan, realizada em Ribeirão Preto (SP).
Segundo a Bioagência, a produção de açúcar poderá atingir 42,9 milhões de toneladas, aumento de 13,5% sobre as 37,8 milhões previstas para 2026/27. A estimativa considera uma maior destinação de cana ao adoçante, diante da perspectiva de déficit no mercado internacional e de condições comerciais mais favoráveis à produção.
Rodrigues ressaltou que a definição do mix dependerá da evolução dos preços do açúcar e do etanol. “Se o mundo precisar de 5 milhões, está aqui, a gente entrega”, afirmou, ao comentar a possibilidade de ampliar a oferta brasileira.
O executivo ponderou que uma produção próxima de 43 milhões de toneladas também colocaria o setor perto do limite da capacidade industrial instalada.
Chuvas reduzem ritmo da colheita no Centro-Sul
As condições climáticas têm imposto dificuldades à safra 2026/27. As chuvas registradas durante o período de colheita interromperam operações agrícolas e reduziram o número de dias disponíveis para o processamento da cana, aumentando a possibilidade de transferência de parte da produção para o próximo ciclo.
No cenário de referência da Bioagência, a área total de corte é estimada em 8,27 milhões de hectares, dos quais 7,77 milhões deverão ser efetivamente colhidos. A diferença corresponde a aproximadamente 500 mil hectares de cana bisada, que permaneceriam no campo para processamento posterior.
Apesar do envelhecimento dos canaviais, a produtividade média está projetada em 81,5 toneladas por hectare, acima das 74,4 toneladas registradas na temporada anterior. O volume de chuvas favoreceu o desenvolvimento das lavouras, mas também dificultou o acesso das máquinas às áreas agrícolas, comprometendo o aproveitamento da matéria-prima disponível.
A Bioagência trabalha com cenários de moagem entre 610 milhões e 640 milhões de toneladas em 2026/27, conforme as condições operacionais até o encerramento da temporada. Para o ciclo seguinte, a estimativa considera redução da cana bisada para 170 mil hectares e produtividade média de 80,28 toneladas por hectare.
Etanol altera estratégia de produção das usinas
A recuperação da competitividade do etanol em relação ao açúcar também influenciou as decisões industriais durante a safra atual. Segundo Rodrigues, o mercado internacional apostava na manutenção de uma elevada participação do adoçante no mix brasileiro, mas a evolução dos preços do biocombustível levou as usinas a rever essa estratégia.
“O mercado apostou contra o Brasil e perdeu”, afirmou o diretor da Bioagência, ao comentar a resposta do setor às condições de remuneração dos dois produtos.
Para 2026/27, a participação do açúcar no mix está estimada em 46,62%, abaixo dos 50,38% registrados na temporada anterior. A produção de etanol de cana deverá alcançar 26,7 bilhões de litros, enquanto a fabricação a partir do milho está projetada em 10,5 bilhões de litros. Com isso, a oferta do biocombustível chegaria a 37,2 bilhões de litros, crescimento de 10,3%.
Na temporada 2027/28, a expectativa é de que o mix açucareiro suba para 50,75%, acompanhado de uma redução de 3,8% na fabricação de etanol de cana, para 25,7 bilhões de litros. O movimento dependerá da manutenção de preços internacionais capazes de sustentar a maior produção de açúcar.
Em contrapartida, o etanol de milho deverá avançar 30,5%, alcançando 13,7 bilhões de litros. O acréscimo de 3,2 bilhões de litros permitirá elevar a produção total de etanol no Centro-Sul para 39,4 bilhões de litros, mesmo com a menor participação da cana na fabricação do combustível.
Espaço para ampliar consumo de etanol
A demanda doméstica foi apontada por Rodrigues como uma das principais oportunidades para o setor. Embora os veículos flex representem quase 80% da frota nacional, a participação média do etanol hidratado no consumo brasileiro do ciclo Otto ficou em 22,9% nos últimos 12 anos, indicando espaço para uma maior utilização do biocombustível.
O executivo observou que a escolha do motorista não depende exclusivamente da diferença de preços nas bombas. A percepção sobre qualidade, a confiança no abastecimento e os hábitos de consumo também influenciam a decisão, exigindo maior esforço de comunicação por parte do setor sucroenergético.
Na avaliação apresentada, os controles realizados pelas usinas e ao longo da distribuição são fatores que poderiam ser mais explorados junto aos consumidores. Rodrigues destacou que eventuais problemas mecânicos nem sempre estão relacionados ao combustível utilizado, embora frequentemente sejam associados ao etanol.
No Centro-Sul, a participação do hidratado no consumo do ciclo Otto poderá passar de 31,5% em 2026/27 para 33,1% em 2027/28. A Bioagência projeta demanda regional de 23,1 bilhões de litros, crescimento de 6,95%. Considerando também o etanol anidro, o consumo total na região deverá atingir 33,9 bilhões de litros, alta de 5,24%.
Petróleo e gasolina influenciam perspectivas
Além do comportamento do consumidor, a competitividade do etanol dependerá das cotações internacionais do petróleo, da taxa de câmbio e da política de preços dos combustíveis no Brasil. Rodrigues apresentou simulações que consideram esses fatores e seus possíveis efeitos sobre a remuneração do biocombustível.
Um dos cenários da Bioagência utiliza petróleo WTI a US$ 77,50 por barril e considera a recomposição das margens de refino. Nessas condições, o preço da gasolina poderia alcançar R$ 6,89 por litro nas bombas, enquanto o etanol hidratado seria comercializado a R$ 4,24.
A relação entre os preços ficaria em 61,5%, abaixo do patamar de referência de 70% tradicionalmente utilizado pelos consumidores para comparar a competitividade dos dois combustíveis, embora a vantagem efetiva varie conforme a eficiência de cada veículo.
A simulação também considera câmbio de R$ 5,22 por dólar e prêmio de refino de US$ 30 por barril. Com esses parâmetros, a Bioagência estima o etanol hidratado em R$ 3,32 por litro na usina, em valor bruto, e R$ 2,73 por litro em termos líquidos.