Empresário capitaneou operação milionária para salvar o Estadão e ganhou espaço no jornal centenário
Nas mensagens trocadas entre Daniel Vorcaro e o empresário Flávio Carneiro, que era sócio do banqueiro em operações de mídia, sobre a relação do Banco Master com o Estadão, um nome aparece diversas vezes: Rubens Ometto.
Em um dos casos, no diálogo, Flávio Carneiro chama Ometto de “o velho”. Em todas as mensagens, o empresário aparece como um interlocutor com influência sobre as decisões editoriais do Estadão.
Ometto passou a ter lugar de destaque no jornal paulista após capitanear uma emissão milionária de debêntures. Ao todo, o jornal captou R$ 142,5 milhões junto a bancos e empresas.
A soma possibilitou uma sobrevida ao grupo de comunicação, que acumulava uma dívida de R$ 159 milhões e esteve a ponto de quebrar, com rumores de que pediria recuperação judicial.
Fundador e presidente do conselho do grupo Cosan, Ometto é um nome conhecido na Faria Lima. Além disso, ele é o maior doador de campanhas eleitorais desde 2018, como revelou o Metrópoles.
Em 2018, Rubens Ometto declarou publicamente voto em Jair Bolsonaro. Quatro anos depois, na eleição de Lula, ele se declarou para o presidente de turno.
No passado, o empresário enfrentou acusações de insider trading na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), citações na Operação Lava Jato, sanções por infrações trabalhistas e rigorosas restrições antitruste do Conselho Administrativo do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).
Mais recentemente, a alavancagem da Raízen – Joint venture entre a Cosan e a Shell – resultou em uma recuperação extrajudicial bilionária e na exigência dos credores e acionistas pela saída de Ometto do comando do conselho de administração da companhia.
“Em casa”
Como mostrou o Metrópoles, em conversa com Daniel Vorcaro, o empresário Flávio Carneiro diz que o banqueiro está “em casa” no Estadão. Ele ainda afirma que Rubens Ometto estaria no “comando” do jornal.
Vorcaro enviou para Flávio Carneiro um link que trata da operação de emissão de debêntures promovida pelo Estadão e questiona: “Como ficamos fora disso”.
O empresário responde: “Você está sabendo disso desde o dia 1 desse projeto. O Rubens Ometto que está por trás de tudo isso. Vi acontecer na sala da casa do Geraldo [Samor, fundador do Brazil Journal]. Eles iam quebrar e o Rubens é inimigo declarado do Frias”.
Frias é sobrenome da família que controla a Folha de São Paulo.
O diálogo segue. Vorcaro reafirma que não sabia e lamenta: “Agora já foi. Oportunidade ímpar. De blindar lá”. Flávio Carneiro responde: “Não tem o que entrar. Ele fez tudo sozinho. Está há seis meses montando isso para mascarar, mas é tudo Ometto”.
Flávio Carneiro continua: “E você entra na hora que você quiser. Quem coordena isso tudo é o Geraldo e o Marcelo [executivo do grupo Cosan]”. E completa: “Você está mais em casa do que você imagina ali”.
Nos meses de março e maio de 2024, o Estadão promoveu uma emissão de debêntures. A operação transformou bancos e grandes empresários — como Ometto — em credores do grupo de comunicação. Os novos investidores ganharam assentos no conselho de administração do jornal e passaram a ter influência editorial no veículo.
A operação das debêntures teve uma primeira emissão de R$ 45 milhões (em março de 2024) e outra de R$ 97,5 milhões (em maio de 2024). Na primeira rodada, Itaú, Bradesco e Santander investiram R$ 15 milhões cada.
O Estadão só precisa começar a pagar esses empréstimos em 2034, prazo que pode ser prorrogado até 2044.
A segunda rodada foi capitaneada, como o Metrópoles revelou em março deste ano, por Rubens Ometto, que colocou R$ 15 milhões no jornal. Outras oito empresas participaram da operação.
São elas: Cosan (R$ 15 mi), Hapvida (R$ 15 mi), Votorantim (R$ 15 mi), Santalice Administração (R$ 15 mi), Ultra (R$ 7,5 mi), Unipar (R$ 7,5 mi), Pátria Investimentos (R$ 7,5 mi), JHSF (R$ 7,5 mi) e Galápagos Capital (R$ 7,5 mi).