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Riscos no trading ameaçam sucroenergéticas; gerenciamento bem-feito pode ser a saída

Diretores da Archer e da Cargill Risk Management defendem ampla divulgação de cases de gerenciamento bem-sucedidos, como o da Raízen

NovaCana 13 min de leitura

A forma de administrar uma usina e comercializar os produtos derivados da cana-de-açúcar vem mudando muito na última década. A importância da rapidez na flexibilização do mix de produção e a proteção em momentos de preços baixos, ou de desvalorização do real, são preocupações atuais de todo e qualquer gestor.

“No começo, a gente só precisava saber de poucas coisas, como supply e demand [fornecimento e demanda]. Como está o estoque? Se sobrar a gente vende, se faltar a gente guarda. Mas hoje está bem diferente”. As palavras de Arnaldo Corrêa, diretor da Archer Consulting, no 15º F.O. Licht's Sugar & Ethanol Brazil Anual, concretizam a visão de que o usineiro precisa lidar com diferentes variáveis para proteger seus ativos e garantir resultados positivos.

A entrada dos derivativos do açúcar – mercados com operação de liquidação futura –, especialmente desde o fim da década de 1990, permitiu que as empresas façam o hedge, uma das principais estratégias de gestão de risco. As usinas passaram a garantir suas vendas a partir de uma posição do mercado futuro, minimizando a chance de perdas de um mercado à vista. Com isso, elas passaram a comercializar mais e a participar mais ativamente do mercado, o que também passou a representar novos riscos.

As flutuações do mercado já são um conglomerado de riscos por si só. Atualmente, questões como as variações do dólar e do preço do açúcar e do petróleo, o excedente do adoçante a nível mundial, a moagem de cana-de-açúcar – que está estagnada há anos –, a situação de endividamento das usinas, dentre muitas outras, representam preocupações para os produtores, de acordo com o diretor da Archer.

O diretor para o Mercosul da Cargill Risk Management, Francisco Gomes, concorda. Durante o mesmo evento da F.O. Licht, ele comenta que o ambiente atual das negociações dos produtos da cana-de-açúcar é muito diverso, especialmente na comparação com 15 anos atrás. “Havia apenas duas regras. A primeira era ganhar dinheiro e a segunda era não esquecer da primeira regra”, brinca, afirmando que o trade era mais simples: “Não envolvia tantos riscos, tanta incerteza”.

Nestes anos, a área de gerenciamento de risco também mudou muito, graças ao uso de tecnologias, ao impacto de fatores geopolíticos e econômicos diretamente relacionados ao desenvolvimento de preços e à rotatividade dos mercados, entre outros aspectos. Com tantas incertezas, é preciso diminuir as ameaças aos negócios das empresas.

Confira, na versão completa, as sugestões de estratégias de gerenciamento de risco sugeridas por Francisco Gomes e Arnaldo Corrêa, além do case de sucesso da Raízen.

A forma de administrar uma usina e comercializar os produtos derivados da cana-de-açúcar vem mudando muito na última década. A importância da rapidez na flexibilização do mix de produção e a proteção em momentos de preços baixos, ou de desvalorização do real, são preocupações atuais de todo e qualquer gestor.

“No começo, a gente só precisava saber de poucas coisas, como supply e demand [fornecimento e demanda]. Como está o estoque? Se sobrar a gente vende, se faltar a gente guarda. Mas hoje está bem diferente”. As palavras de Arnaldo Corrêa, diretor da Archer Consulting, no 15º F.O. Licht's Sugar & Ethanol Brazil Anual, concretizam a visão de que o usineiro precisa lidar com diferentes variáveis para proteger seus ativos e garantir resultados positivos.

A entrada dos derivativos do açúcar – mercados com operação de liquidação futura –, especialmente desde o fim da década de 1990, permitiu que as empresas façam o hedge, uma das principais estratégias de gestão de risco. As usinas passaram a garantir suas vendas a partir de uma posição do mercado futuro, minimizando a chance de perdas de um mercado à vista. Com isso, elas passaram a comercializar mais e a participar mais ativamente do mercado, o que também passou a representar novos riscos.

As flutuações do mercado já são um conglomerado de riscos por si só. Atualmente, questões como as variações do dólar e do preço do açúcar e do petróleo, o excedente do adoçante a nível mundial, a moagem de cana-de-açúcar – que está estagnada há anos –, a situação de endividamento das usinas, dentre muitas outras, representam preocupações para os produtores, de acordo com o diretor da Archer.

O diretor para o Mercosul da Cargill Risk Management, Francisco Gomes, concorda. Durante o mesmo evento da F.O. Licht, ele comenta que o ambiente atual das negociações dos produtos da cana-de-açúcar é muito diverso, especialmente na comparação com 15 anos atrás. “Havia apenas duas regras. A primeira era ganhar dinheiro e a segunda era não esquecer da primeira regra”, brinca, afirmando que o trade era mais simples: “Não envolvia tantos riscos, tanta incerteza”.

Nestes anos, a área de gerenciamento de risco também mudou muito, graças ao uso de tecnologias, ao impacto de fatores geopolíticos e econômicos diretamente relacionados ao desenvolvimento de preços e à rotatividade dos mercados, entre outros aspectos. Com tantas incertezas, é preciso diminuir as ameaças aos negócios das empresas.

Diversificação, disciplina e controle

No caso da Cargill, Gomes explica que esse gerenciamento é feito focado em três estratégias: diversificação, disciplina e controle. De acordo com ele, no trato com um cliente, procura-se verificar se há um portfólio diversificado de produtos; disciplina para a tomada de decisões – questionando a influência de diferentes vieses –; e controles adequados, como relatórios, análise de cenários negativos e medição de resultados.

Essa “filosofia de gerenciamento de riscos” é aplicada com empresas que têm dúvidas sobre sua capacidade de governança e se suas estratégias de gestão são adequadas, podendo servir como um guia.

Um exemplo que a empresa usa é a comercialização de etanol, cujo preço está à mercê de oferta e consumo, do mercado de gasolina e do câmbio, dentre outros fatores. Assim, na hora de decidir o momento de vender o produto, a usina precisa considerar que existem impactos dentro da expectativa de como seriam as curvas futuras de preço.

Para os clientes que levam esses fatores em consideração, o diretor propôs duas estratégias específicas relacionadas ao carrego do etanol. A primeira seria a compra de proteção em caso de uma eventual queda nos preços da gasolina – que teria um impacto baixista nos preços do renovável –, com o produtor estocando na entressafra. Já a segunda seria a compra de participação em uma eventual alta nos preços do correspondente fóssil, o que teria um impacto altista, com o produtor vendendo o biocombustível na entressafra. O segundo caso é especialmente recomendado para produtores que precisam de um pouco mais de caixa no final da safra.

Em relação ao açúcar, para sugerir estratégias de proteção em relação aos preços – especialmente considerando que as usinas utilizam o mercado como balizador do direcionamento do mix –, Fernando Gomes estimou o custo de produção em R$ 1,2 mil por tonelada da commodity nos últimos dez anos.

Para gerar lucro, as usinas precisam fixar o preço acima deste valor – o que só ocorreu em 18% do tempo nos últimos dez anos. “[Isso] aconteceu especialmente de março de 2016 a maio de 2017, com um movimento grande de usinas fixando o açúcar, em reais; o que pagava e dava uma marca positiva” explica e completa: “A ideia foi boa e o mecanismo funcionou bem para as usinas que fizeram o hedge neste período, mas a regra sofre exceções, mostrando que nem sempre há a oportunidade de fixar o preço acima daquele valor, historicamente”.

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Por isso, Gomes indica duas estratégias que tentam impedir o prejuízo pelas flutuações do preço do açúcar, uma de curto prazo e uma de longo. A primeira sugere uma precificação dividida entre o hedge do câmbio e o hedge do açúcar de Nova Iorque. “Assim, a matriz fica dinâmica para ser utilizada no dia a dia das usinas, pois dificilmente o açúcar vai reagir em reais acima do custo de produção estimado no curto prazo”, explica.

Já a estratégia de longo prazo sugere fazer a precificação em reais, com foco em proteção de margem e não apenas em direcional de mercado. “Desta forma, é possível trabalhar, travar uma margem acima desse valor e ter uma atuação ativa em eventuais recompras”, afirma o diretor da Cargill.

Arnaldo Corrêa, diretor da Archer Consulting, também comenta a fixação de preços do açúcar em relação a um valor médio de produção, com base no histórico dos últimos cinco anos – no caso, chegando a R$ 1,3 mil. “Este preço é excelente para se fixar; a gente não consegue isso para essa safra, mas consegue para as seguintes. Olhando a curva de NDF [contrato negociado fora da bolsa de valores], do dólar, com Nova York. Hoje existem muitas oportunidades para se proteger”, explica.

Na opinião dele, o hedge para as usinas é positivo. “Se eu tenho 100 milhões de dólares de receita com exportação de açúcar, eu pego 15% a 20% desse valor e faço um NDF nesses spikes [cotações que se desviam do preço de mercado] em que o dólar eventualmente vai funcionar. O hedge de açúcar agrega valor, mas o risco é maior, vai depender do entendimento do trader”, exemplifica o diretor, que completa: “Derivativos são complicados”.

Mas, para ele, conhecimento é fundamental. Ele conta que os casos de fracasso que ocorreram no mercado derivativo foram, em grande parte, porque “faltou um gestor de risco”. Esse profissional poderia, por exemplo, avisar que a alavancagem estava um pouco maior do que deveria, fazendo hedge de compra. “São decisões tomadas equivocadamente. A culpa não é necessariamente dos derivativos”, conclui Corrêa.

A problemática dos cases não divulgados

Para ambos os diretores, a falta de divulgação dos casos de gerenciamento de risco são uma problemática do setor. De acordo com Francisco Gomes, só é possível acessar a política de gerenciamento de risco das empresas de capital aberto, que, de acordo com ele, são bem atuantes com estes instrumentos e os utilizam bem.

“Sabemos que grande parte do sucesso [dessas empresas] – diminuindo o endividamento, por exemplo –, vem de uma boa venda, comercialização e geração de caixa. Esses são os casos que são divulgados, então, conseguimos ver que [as empresas de capital aberto] são bem ativas e têm uma governança, uma estratégia, uma disciplina e os controles adequados para fazer esse tipo de posicionamento”, discorre.

Tirando estas empresas, os casos bem-sucedidos de gestão de risco não são divulgados – mas os que deram errado ficam conhecidos. “Falta à indústria que trabalha com esses derivativos e faz essa análise ter essa consciência de dividir as melhores práticas, trazer casos de instrumentos que realmente protegeram o cliente, com essa troca de ideias”, defende e complementa: “Precisamos de uma troca que fomente essa utilização da maneira correta”.

Arnaldo Corrêa concorda. “As empresas não têm a menor intenção de divulgar seus cases de sucesso. Por que vou dizer para o meu concorrente que a operação que eu fiz do input de petróleo deu certo? Mas isso devia acontecer mais, pois é bom para a saúde da indústria”, afirma.

O case da Raízen

A Raízen é uma empresa que, por ter capital aberto, divulga suas demonstrações financeiras anualmente, trazendo informações sobre seus métodos de gerenciamento de riscos.

No relatório referente à safra 2018/19, por exemplo, é explicado que a mensuração dos valores dos derivativos, bem como a determinação de uma relação de hedge e sua efetividade, em um cenário de flutuações de preços das commodities, da moeda e dos juros, é muito relevante, e foi um assunto tratado com atenção.

Para determinar como seria a atuação da empresa, os profissionais da Raízen utilizaram informações de transações recentes de mercado, análise de fluxo de caixa descontado e risco de crédito da companhia e das contrapartes, além dos próprios controles internos.

Os riscos identificados pela companhia, de acordo com suas operações, são de preço, de taxa de câmbio, de taxa de juros, de crédito e de liquidez. Para lidar com eles, a Raízen afirma que “possui políticas específicas de tesouraria e trading”, e divide sua administração em três comitês.

O primeiro é o de riscos, que se reúne semanalmente para analisar o comportamento dos mercados de commodities e de câmbio, deliberando sobre as posições de cobertura e estratégia de fixação de preços. O segundo comitê é o do etanol, que tem reuniões mensais para avaliar os riscos ligados à sua comercialização, assim como monitorar os riscos de liquidez e de contraparte. Por fim, o comitê de energia elétrica, em reuniões semanais, avalia os riscos ligados à comercialização de energia e a adequação aos limites definidos nas políticas de riscos.

Para se proteger contra o risco de variação das taxas de câmbio e dos preços das commodities, por exemplo, a companhia relata a utilização de instrumentos financeiros derivativos, como contratos a termo de moeda, contratos a termo de commodities e swaps. Além disso, monitora permanentemente o mercado, buscando estar sempre à frente de mudanças nos preços.

Como forma de mitigar riscos, a Raízen também trabalha com hedge accounting e com uma análise de crédito, dentre outros critérios, dos grupos de contrapartes para quem vende seus produtos. Inclusive, na hora de definir com que clientes vai trabalhar, a companhia possui normas específicas de aceitação, estabelece limites de exposição para cada um e, eventualmente, exige carta de crédito de bancos e captação de garantias reais sobre créditos concedidos.

Já em relação ao risco de liquidez, a administração da companhia relata que prepara planos de negócios e monitora sua execução, “discutindo os riscos positivos e negativos de fluxo de caixa e avaliando a disponibilidade de recursos financeiros para suportar suas operações, investimentos e necessidades de refinamento”, afirma em relatório.

O documento ainda declara que o objetivo da companhia ao administrar todos os possíveis riscos “é assegurar a continuidade de suas operações e financiar oportunidades de investimento, mantendo um perfil de crédito saudável e oferecendo retorno adequado a seus acionistas”. Em resumo, uma definição da gestão de risco.

Como Francisco Gomes, da Cargill, disse, são poucos os exemplos de qualidade, como o da Raízen, que são disseminados. “É mais fácil divulgar o que deu errado, sem entender a fundo o que aconteceu, o que estava por trás, e aprender com as medidas ruins. Então, esse trabalho é árduo e as empresas que olham a longo prazo não podem negligenciar isso” defendeu, ainda durante o evento da F.O. Licht.

Arnaldo Corrêa, da Archer, concorda e reitera: “Eu acredito que esse mercado vá crescer muito, pois hoje vemos muito mais empresas olhando a gestão de risco do que antes. Antes, era só um enfeite na parede; hoje, sabemos que é o nome do jogo”.

Rafaella Coury – NovaCana

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