Esse desempenho fraco chamou atenção da PricewaterhouseCoopers (PWC), auditoria independente que analisou as contas da empresa. A PWC apontou para a existência de “incerteza relevante relacionada com a continuidade operacional”. A posição da PWC não é por escassez de motivos
Nem mesmo a alta nos preços do açúcar do ano passado e o ânimo renovado do setor de açúcar e etanol foram capazes de elevar os resultados do Grupo Clealco. A companhia, que possui três usinas em São Paulo, registrou um prejuízo de R$ 237,27 milhões em 2016/17. O valor é equivalente ao triplo do registrado na safra anterior, quando a companhia teve perdas de R$ 78,56 milhões.
Esse desempenho desvantajoso chamou atenção da PricewaterhouseCoopers (PWC), auditoria independente que analisou as contas da empresa.
A posição da PWC não é por escassez de motivos. A própria Clealco admite a falta de capital, alegando que o quadro foi agravado na safra 2016/17.
Os auditores apontaram a existência de “incerteza relevante relacionada com a continuidade operacional”.
Saiba mais:
- Posicionamento da auditoria independente
- Acompanhamento dos indicadores de resultado financeiro
- Justificativas da Clealco para falta de capital em 2016/17
- Outros fatores que pesaram contra a volta da companhia ao azul
- Perfil da dívida da companhia
- Andamento das negociações com credores e propostas da empresa
- 180 dias de folga: compromisso de inação (standstill)
Nem mesmo a alta nos preços do açúcar do ano passado e o ânimo renovado do setor de açúcar e etanol foram capazes de elevar os resultados do Grupo Clealco. A companhia, que possui três usinas em São Paulo, registrou um prejuízo de R$ 237,27 milhões em 2016/17. O valor é equivalente ao triplo do registrado na safra anterior, quando a companhia teve perdas de R$ 78,56 milhões.

Esse desempenho desvantajoso chamou atenção da PricewaterhouseCoopers Auditores Independentes. No relatório que acompanha as demonstrações financeiras da Clealco, os auditores apontaram a existência de “incerteza relevante relacionada com a continuidade operacional”.
Conforme a PricewaterhouseCoopers, o grupo sucroenergético tem apurado prejuízos repetidos em suas operações, tendo registrado em 31 de março de 2017 um passivo a descoberto – ou seja, superior ao ativo – no montante de R$ 320,46 milhões e excesso de passivos sobre ativos circulantes no montante de R$ 632,84 milhões.
“Essa situação, entre outras descritas, suscita dúvida substancial sobre a continuidade operacional da companhia e suas controladas”, afirma a PricewaterhouseCoopers, que continua: “As demonstrações financeiras não incluem quaisquer ajustes em virtude dessas incertezas”.
A própria Clealco admite a falta de capital, alegando que o quadro foi agravado na safra 2016/17 pelo atraso no início da moagem, que prejudicou a geração de caixa. Além disso, a companhia também afirma que não conseguiu finalizar as negociações em andamento para o alongamento do prazo de pagamento de suas dívidas.
Justificando os números
Segundo a Clealco, o balancete da companhia foi impactado negativamente por diversos fatores. Entre eles estão as contingências passivas – valores reservados pela companhia para pagamentos que ainda são incertos como, por exemplo, indenizações de processos trabalhistas. No balanço patrimonial, a provisão registrada em 2016/17 foi de R$ 214,6 milhões, ante os R$ 206,7 milhões vistos no período anterior.
Além disso, o grupo relata que o planejamento econômico-financeiro da safra 2016/17 projetava moagem de 10,5 milhões de toneladas, com uma produção de 790,5 milhões de toneladas de açúcar, 219 milhões de litros de etanol hidratado e 92,1 milhões de litros de etanol anidro. Contudo, essa estimativa não se realizou.
“A programação de produção da companhia foi prejudicada por fatores climáticos e operacionais, que resultaram no atraso da moagem e, consequentemente, em todo o processo industrial”, afirma. Segundo a Clealco, o impacto na receita, calculado com base nos preços reais praticados na safra, foi de R$ 226,83 milhões.
“Dessa forma, se considerarmos que a perda estimada de receita não tivesse ocorrido, o prejuízo final estimado seria de R$ 10,44 milhões e não de R$ 237,27 milhões”, aponta a companhia. Esse cálculo, no entanto, é bastante simplista, pois desconsidera custos extras gerados por uma produção superior.
Indicadores de resultado
Apesar do resultado geral negativo, o Grupo Clealco registrou um aumento de 14,16% em sua receita líquida consolidada, que foi de R$ 1,14 bilhão em 2015/16 para R$ 1,30 bilhão em 2016/17. Segundo a companhia, esse resultado se deve principalmente ao preço médio obtido nas vendas de açúcar VHP, que subiu 21,7% no período.
Entretanto, os custos para a fabricação desses produtos também cresceram, indo de R$ 842,84 milhões para R$ 1,11 bilhão no período de um ano. Do ponto de vista estritamente operacional, o resultado piorou. Analisando apenas receita e custos, para cada R$ 1 recebido na safra 2016/17, a Clealco gastou R$ 0,853. Na temporada anterior, a empresa havia gastado R$ 0,739 para cada R$ 1 de receita.

Dessa maneira, o lucro bruto da Clealco registrou uma queda de 35,7%. Esse indicador foi de R$ 297,95 milhões no consolidado de 2015/16 para R$ 191,45 milhões na safra mais recente. Esse é o valor mais baixo registrado pela companhia nos últimos cinco anos.

Consequentemente, o indicador Ebitda (lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização), que diagnostica o desempenho operacional da companhia, também caiu. Ele totalizou R$ 300,5 milhões em 2016/17, ante R$ 309,8 milhões em 2015/16. Já a margem Ebitda passou de 27,15% para 23,08%.
Perfil da dívida e andamento das negociações
No total, o endividamento líquido da Clealco teve uma queda de 7,3% em comparação com o final do exercício anterior, indo de R$ 1,24 bilhão em março de 2016, para R$ 1,15 bilhão em março de 2017. De acordo com a companhia, essa redução foi influenciada principalmente pela variação cambial do período, com a valorização do real frente ao dólar.
Considerando apenas empréstimos e financiamentos, a dívida do grupo sucroenergético teve um decréscimo de 7,8% na comparação anual, indo de R$ 1,16 bilhão em 31 de março de 2016 para R$ 1,07 bilhão em 31 de março de 2017.

Entretanto, boa parte desse valor está agora contabilizado no curto prazo. Com isso, a Clealco viu um aumento de 69,5% em suas dívidas com vencimento em até 12 meses, que foram de R$ 285,04 milhões para R$ 483,02 milhões no período de um ano.

Consciente dessa situação, a Clealco afirma que já deu início ao plano de renegociação de suas dívidas bancárias, buscando alongamento nos prazos e adequação ao fluxo de geração de caixa da companhia.
Em fevereiro de 2017, inclusive, a empresa obteve junto aos seus principais credores bancários um compromisso de inação (standstill) válido por 180 dias. Isso significa que, durante esse período, esses credores não poderão exigir qualquer pagamento. “As operações abrangidas nesse instrumento totalizam a R$ 884,1 milhões, as quais representam 81,3% do endividamento bancário total da companhia em 31 de março de 2017”, garante a Clealco.
Posteriormente, em junho, a empresa apresentou a seus principais credores um plano de alongamento de suas dívidas, com a previsão de renegociação dos vencimentos. Desconsiderando os juros, o pagamento da dívida de 1,07 bilhão ficaria dividido da seguinte forma: 10% em 2020 (R$ 107,1 mi); 15% em 2021 (R$ 160,7 mi); e 25% em 2022, 2023 e 2024 (R$ 267,8 mi por ano).
“Esse plano, que está devidamente aprovado pelo Conselho de Administração, contempla também as atividades de venda de determinadas terras de propriedade da companhia, com o compromisso de destinação de 60% do produto dessas vendas para pagamento dos juros da dívida em renegociação”, completa. Os 40% restantes serão utilizados na recomposição do capital de giro da empresa.
Além disso, a Clealco afirma que está renegociando prazos de pagamento junto a fornecedores de cana e materiais.
“Amparada em seu plano de negócios e considerando o estágio atual das renegociações junto às instituições financeiras, a administração da companhia reafirma sua convicção na capacidade de equalizar seu fluxo de caixa de curto prazo para sustentar a expectativa de alongamento do prazo de pagamento da dívida bancária acima mencionada, sobretudo com o caixa gerado nas atividades operacionais da safra 17/18, já em andamento”, acredita a empresa.
Ainda assim, a Clealco ainda se apoia na expectativa de valorização do câmbio, o que geraria um impacto positivo na caixa. Isso acontece porque apenas parte dos custos é indexada ao dólar norte-americano, enquanto praticamente a totalidade da receita é direta ou indiretamente precificada em dólar. Ou seja, uma flutuação desfavorável no câmbio poderia prejudicar ainda mais a companhia.
A companhia também afirmou que depende de uma melhora nos preços nacionais e internacionais de seus produtos, da geração de recursos financeiros adicionais originados na venda de cana-de-açúcar excedente e da antecipação de recebíveis de exportação, da venda rápida das terras que já estão em negociação e da redução dos seus custos fixos, com o redimensionamento da estrutura operacional.
“Caso a administração da companhia, por algum motivo não esperado, não concretize com êxito os seus planos de equalização de fluxo de caixa, terá que contar com recursos financeiros de seus acionistas ou receber aporte de capital de terceiros para suprir suas necessidades de caixa e manutenção de suas atividades”, alerta.
Renata Bossle – NovaCana