Açúcar: Mercado

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Retorno de El Niño ameaça produção de commodities e já eleva preços


Wall Street Journal - Publicado: 09 Jul 2015 - 11:52 | Atualizado: 09 Jul 2015 - 15:15

Temores de que o fenômeno climático chamado El Niño cause estragos no setor de commodities agrícolas nos próximos meses já elevaram os preços do trigo, milho e soja nas últimas semanas, com os investidores de commodities, produtores e operadores se preparando para uma queda na produtividade.

Nas últimas semanas, os serviços meteorológicos dos governos dos Estados Unidos, Austrália e Japão confirmaram o retorno do El Niño pela primeira vez desde a safra de 2009/2010, graças a um aumento de 4% na temperatura abaixo da superfície da água do Oceano Pacífico.

Depois de um longo período de estabilidade, os preços das commodities agrícolas subiram nas duas últimas semanas, em parte graças aos temores que o El Niño cause uma seca excessiva em regiões importantes de cultivo. A produtividade do trigo australiano — que responde por 14% das exportações mundiais do grão — poderia recuar até 50%, segundo analistas do Banco Nacional da Austrália.

O El Niño ocorre quando os ventos na área equatorial do Pacífico perdem velocidade ou mudam de direção. Isso aquece a água ao longo de uma vasta extensão do mar, o que, por sua vez, pode provocar mudanças nas condições meteorológicas ao redor do mundo — geralmente reduzindo as chuvas na Austrália e em partes do sudeste e sul da Ásia. No passado, os preços das commodities que não são usadas como combustível subiram, em média, 5,3% durante os 12 meses que se seguiram ao anúncio da ocorrência do El Niño, segundo o Fundo Monetário Internacional.

Em alguns anos, o efeito foi mais drástico. O El Niño fez os preços do óleo de palma saltarem até 150% durante um período de nove meses entre 1996 e 1997, diz Nicholas Teo, analista da CMC Capital Markets.

Mesmo assim, não há uma maneira de prever a severidade do fenômeno. Das 26 ocorrências do El Niño observadas desde 1900, apenas 17 resultaram em secas generalizadas na Austrália, segundo a Agência de Meteorologia do país.

“Todo El Niño é diferente, inclusive a sua duração e intensidade, da mesma forma que o seu impacto na produção agrícola”, disseram analistas do Rabobank numa nota a clientes. A nota acrescentou que o efeito poderia ser maior sobre os preços do café robusta — usado nos cafés instantâneos —, do açúcar e do trigo, que são cultivados em países como Vietnã, Indonésia, Austrália e Brasil, mais propensos a serem afetados pelo El Niño.

O fazendeiro Garry Hansen, que planta trigo e possui rebanhos bovino e de ovelhas numa fazenda de 8 mil hectares em Coomandook, no sul da Austrália, já está preocupado com a seca da região, que viu pouca chuva nos últimos dois anos.

“Não temos muita umidade [...] e estamos um pouco preocupados com as previsões. Seria bom se chovesse”, diz Hansen, acrescentando que o nível de chuva em junho foi apenas 20% do normal. Ele diz que garantir que ervas daninhas não roubem água da lavoura de trigo é uma das poucas coisas que ele pode fazer para combater o El Niño.

“Você tem que gerenciar o negócio como se fosse chover, mas também maximizar a eficiência da água”, diz ele.

O trigo exportado de Brisbane, na costa leste da Austrália, próxima às áreas cultivadas que podem ser mais afetadas pelo El Niño, já está sendo negociado com um prêmio de 10% acima do preço do trigo despachado de Adelaide, no sul do país, diz Rob Imray, diretor administrativo da Farmarco Australia, uma firma de comércio de commodities.

Pode levar alguns meses para que outras commodities agrícolas sintam o efeito do El Niño. A produção de óleo de palma será prejudicada pela seca, mas a dimensão dos danos não será visível até seis meses depois da ocorrência do El Niño, afirmou num e-mail a Golden Agri-Resources, segunda maior produtora da commodity do mundo.

“Como o El Niño acabou de começar, ainda é muito cedo para estimar a produção de 2016”, afirmou a empresa, que é sediada em Cingapura. Ela informou ainda que os produtores de óleo de palma podem aplicar fertilizantes mais cedo do que o normal para ajudar a compensar a piora das condições climáticas.

O El Niño poderia beneficiar as firmas de comércio que atuam como intermediárias entre compradores e vendedores de alimentos. Essas empresas tendem a lucrar mais com as oscilações dos preços das commodities — desde que prevejam corretamente as condições climáticas e de mercado.

“Estamos observando [a situação] com olhos de lince para ver o que acontece”, disse em junho Sunny Verghese, diretor-presidente da Olan, uma negociadora de commodities sediada em Cingapura. Ele acrescentou que o El Niño poderia causar escassez de trigo, milho e açúcar em alguns países do hemisfério sul, embora chuvas mais intensas possam ajudar as lavouras de outras regiões.

De fato, os temores dos mercados em relação ao El Niño foram atenuados pelo bom começo da época das monções na Índia e em Bangladesh, diz Aurelia Britsch, analista sênior de commodities da firma de consultoria Business Monitor International Research. A estação das monções já registrou mais chuvas que o normal, apesar das previsões iniciais de que o volume de chuvas na Índia iria recuar 12%. O nível das chuvas nas regiões mais ao norte da Ásia, por sua vez, tem ficado em linha com suas médias históricas.

Uma pressão de alta exercida pelo El Niño sobre os preços dos alimentos poderia, também, ser anulada pelos abundantes estoques existentes de arroz, óleo de palma e açúcar, dizem analistas. E embora a seca possa pesar sobre as safras da Ásia, o aumento das chuvas causado pelo El Niño na América do Sul poderia ajudar as safras de soja, milho e açúcar da região.

Por LUCY CRAYMER, de Wellington, Nova Zelândia