A São Martinho apresentou resultados “abaixo do esperado” no quarto trimestre de 2024, com lucro líquido de R$ 105 milhões, uma queda de 83% em relação ao mesmo período do ano anterior. Analistas atribuem o desempenho fraco à maior exposição ao etanol no mix de produção e aos efeitos remanescentes de incêndios florestais, que afetaram a produtividade da cana-de-açúcar.
De acordo com o Itaú BBA, o resultado foi pressionado pela queda nos preços do açúcar, pela desvalorização cambial e por volumes de etanol abaixo do projetado, tanto nas operações com cana quanto com milho. O banco também destacou que os custos de produção se mantiveram elevados.
O BTG Pactual observou que os custos do etanol subiram 12% na comparação anual, atingindo R$ 2,73 por litro, o que igualou o preço médio de venda e resultou em margens de equilíbrio. Segundo o banco, o mix de produção mais voltado ao etanol contribuiu para limitar a rentabilidade no trimestre. As margens do açúcar apresentaram leve recuo, mas ainda foram consideradas saudáveis.
Na estratégia de comercialização, a São Martinho adotou uma abordagem mais linear para as vendas de etanol ao longo do trimestre, diferentemente de outras empresas do setor. Segundo o BTG, isso reduziu o risco comercial, mas também limitou os ganhos com a valorização do etanol. Já a operação de etanol de milho teve margem positiva de R$ 1,33 por litro, o que ajudou a compensar o desempenho mais fraco da operação com cana-de-açúcar.
Para o ciclo 2025/26, cerca de 73% da produção de açúcar da cana própria já foi contratada, com preços próximos das projeções, destacou o Itaú BBA. O banco aponta que esse fator contribui para manter as expectativas estáveis no curto prazo.
Ainda não foram divulgadas orientações sobre o mix de produção, mas a projeção do BTG é de uma divisão equilibrada entre açúcar e etanol na próxima safra, o que poderia favorecer a rentabilidade. A expectativa também é de redução nos custos de produção, considerando a ausência de eventos climáticos extremos, como os incêndios do último ano.
“As ações da São Martinho têm ficado atrás tanto do índice quanto das commodities que comercializa — mas acreditamos que isso cria uma oportunidade”, diz o relatório do banco.
O BTG mantém visão positiva para as ações da São Martinho, “vendo a São Martinho como uma empresa de alta qualidade com potencial atrativo de valorização”. Segundo a instituição financeira, o mix de produção deve se normalizar na safra, o que deve beneficiar as margens.
O banco ainda destaca que a sucroenergética fixou a venda de açúcar da cana própria a um preço médio de, aproximadamente, 19,6 centavos de dólar por libra-peso, o que oferece proteção contra oscilações de mercado no curto prazo. O BTG projeta um rendimento de fluxo de caixa livre de 15% para o exercício de 2026.
Já o Itaú BBA observa que os investidores estão cautelosos em relação ao setor, diante da volatilidade na moagem de cana no Brasil e da produção asiática de açúcar. Para 2025/26, o banco projeta um rendimento de fluxo de caixa livre ao acionista em dois dígitos, mas avalia que uma retomada do interesse dos investidores dependerá de sinais mais claros de valorização nos preços do açúcar.
Para o próximo ciclo, a companhia estima uma produção de tonelada de açúcar recuperável por hectare 1,5% abaixo da projeção do Itaú BBA, o que deve impactar as estimativas de lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda, na sigla em inglês). Considerando também os investimentos em expansão previstos, o banco calcula uma redução de cerca de 4% no rendimento de fluxo de caixa livre ao acionista, mantendo-se, no entanto, em patamar de dois dígitos.
Ambos os bancos mantêm recomendação de compra para as ações da São Martinho. O Itaú BBA estabelece preço-alvo de R$ 31 por ação até o final de 2026, enquanto o BTG projeta R$ 40 para os próximos doze meses.
Em relatório divulgado ao mercado, o Banco do Brasil avaliou como negativos os resultados da São Martinho no quarto trimestre da safra 2024/25, apontando queda acentuada nos volumes de vendas e nos preços do açúcar, cenário que foi parcialmente compensado pela alta no preço do etanol.
A instituição financeira destacou ainda que, ao longo da safra, a companhia sofreu com menor diluição de custos fixos e aumento da necessidade de capital de giro, o que reduziu a rentabilidade. Além disso, o banco atribui grande parte das dificuldades enfrentadas pela empresa a fatores conjunturais, como o cenário adverso no setor sucroenergético.
De acordo com o relatório, os preços do açúcar atingiram “mínimas dos últimos quatro anos”, enquanto a elevação das taxas de juros e o aumento dos investimentos necessários para mitigar impactos climáticos agravaram o quadro. A safra foi prejudicada por condições climáticas atípicas, como queimadas e chuvas fora do esperado.
Apesar disso, o Banco do Brasil afirma que o desempenho fraco não indica necessariamente um problema estrutural na companhia. “O resultado adverso tem mais elementos conjunturais do que estruturais, sinalizando que investidores parecem estar projetando uma perpetuação das condições adversas, o que não nos parece o cenário base”, apontou o banco.
Entre os destaques positivos, a instituição ressaltou o desempenho da operação de etanol de milho, que completou seu primeiro ano com produção de 212,6 milhões de litros de etanol, um crescimento de 36,3% em relação ao ano anterior.
Sobre o desempenho das ações, o Banco do Brasil observou que os papéis da São Martinho acumulam queda de 43% em 12 meses, desempenho menos negativo do que o de outras empresas do setor, como Raízen (-59%) e Jalles (-42%). Para o banco, o movimento reflete a combinação entre aumento de custos, maior endividamento e elevação das despesas de capital, exigidas pela necessidade de renovação dos canaviais e pela resposta aos desafios climáticos.
Na avaliação, o pessimismo do mercado pode estar exagerado. “Os atuais patamares de preços das ações parecem indicar um pessimismo excessivamente prolongado, ignorando potenciais gatilhos de alta como a maior demanda por etanol no mercado doméstico e o retorno dos preços de açúcar a um patamar mais normalizado”, diz o relatório.
Ainda assim, a instituição reconhece que o tempo de recuperação do setor pode ser maior do que o antecipado pelo mercado.
Gabriella Weiss