O tempo em que as usinas produziam apenas açúcar, etanol e eletricidade já se foi. Atualmente, além de algumas sucroenergéticas entrarem no mercado de biocombustíveis a partir do milho, há quem busque mais produtos para incrementar a receita, aumentar a descarbonização e fortalecer a economia circular.
Neste sentido, o biogás e o biometano estão na lista de novos negócios das usinas. Apesar disso, mais do que pensar no investimento financeiro, é preciso considerar o escoamento destes produtos ou formas de aplicação deles na própria planta.
Para falar um pouco mais sobre os desafios e as oportunidades do biogás e do biometano, a Conferência NovaCana 2024 convidou a presidente executiva da Associação Brasileira do Biogás (Abiogás), Renata Isfer. O evento acontece em São Paulo (SP) nos dias 9 e 10 de setembro.
Ela será uma das palestrantes do painel “Biogás, biometano e novos mercados”, ao lado do diretor comercial e de novos produtos da Cocal, André Gustavo Alves da Silva.
Isfer foi secretária de petróleo, gás e biocombustíveis do Ministério de Minas e Energia (MME). Ela também é mestre em direito, políticas públicas e desenvolvimento econômico, com participação em curso de extensão na Harvard Kennedy School sobre liderança feminina.
A programação completa da Conferência NovaCana 2024 está disponível. Clique aqui para se inscrever.
Notícias recentes mostram o aumento do interesse dos produtores e do governo brasileiro em biogás; no caso dos produtores de etanol, BP, Atvos, Cocal, Jalles e Raízen são alguns dos exemplos recentes. Como você enxerga essa expansão? Ela será acompanhada por um aumento de demanda nos curto e/ou médio prazos?
Houve um aumento de interesse dos investidores, em parte por uma conscientização maior da oportunidade de negócios para eles devido à demanda referente à descarbonização. A COP 28 foi um marco muito grande para o setor produtivo, que esteve bastante presente, mostrando que este é um caminho que o Brasil e o mundo precisam trilhar – o caminho da descarbonização. Como este mercado vai crescer, isso acabou abrindo os olhos dos investidores. Temos que ter os pioneiros. Primeiro vieram Geo, Cocal e Raízen no mercado sucroenergético. Aos poucos, como estes negócios estão se provando vantajosos, outras empresas olham também. Na Abiogás, vemos grandes produtores de etanol entrando na associação por conta desse interesse. Neste ano, filiaram-se São Martinho, Tereos, Atvos e Copersucar. Isso mostra que todo mundo está interessado. Com relação à demanda, ela vem principalmente da Europa, que começou a ter interesse em descarbonizar e em combustíveis renováveis. Inicialmente, eles não olhavam para os produtos da cana e etanol, mas esse cenário mudou e essas discussões internacionais – com o G20 também focando muito na descarbonização dos biocombustíveis – mostram que a demanda vai crescer mais.
Tem crescimento de demanda, mas todo investimento possui desafios e riscos relacionados. Quais seriam eles no caso do biogás?
Os principais desafios, hoje, começam com a parte de desenvolvimento da regulação, por ser um mercado novo. Temos conversado bastante com a ANP [Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis], que tem se mostrado aberta a vencer esses obstáculos. A regulação foi feita pensando no gás natural, então, é preciso adaptar ao biometano e isso está sendo superado. Temos muitos projetos e estou ansiosa para que essas autorizações finalmente saiam. O segundo fator é a infraestrutura. A malha de gasodutos foi feita pensando no gás natural, está na costa e vem da Bolívia, enquanto o biometano e o biogás estão no Brasil inteiro. É um desafio, mas acredito que podemos superar, tanto por questões de alternativas – como transportes por caminhões e sem a necessidade de um duto para viabilizar – quanto pela entrada de polos logísticos e locais que têm este potencial, sem necessidade de integração com a malha existente. Afinal, o consumo também está no Brasil inteiro. Não tem o desafio do gás natural, em que a oferta estava longe da demanda; no caso do biometano, está perto. É mais uma questão de preço, pois tem um atributo ambiental de descarbonização embutido, pelo fato de ser uma energia limpa, ser algo novo e que não teve ganho de escala.
“Muitas vezes, o biogás acaba sendo mais caro do que o gás natural. Mas essa é uma competição que não deveria existir, pois são produtos diferentes em termo do que oferecem ambientalmente”, Renata Isfer (Abiogás)
Quais as soluções para esta questão do valor adicional embutido do biocombustível?
Nessa linha, acreditamos que o Combustível do Futuro vai trazer um ponto chave, que é o certificado de garantia de origem; isso vai permitir que o atributo ambiental seja vendido separado do atributo energético. Assim, será possível vender um certificado para alguém da Europa que já tem meta de descarbonização ou para uma grande empresa que quer descarbonizar, ou vender o metano em si para alguém que não queria pagar mais caro pelo fato de ser renovável por não ter condições financeiras. Serão fatores que destravarão as questões de infraestrutura e de demanda.
Você mencionou as rotas de envio do produto, mas também tem a questão dos produtores precisarem analisar se irão investir no biogás para produção de energia ou no biometano para o abastecimento da frota. Como você enxerga essa dualidade e quais critérios a usina pode usar para definir a melhor estratégia?
O biogás e o biometano são exemplos de economia circular. A vinhaça e a torta de filtro são problemas para as empresas, já que são resíduos e têm que ser descartadas de uma forma que não prejudique o meio ambiente. Na hora que as empresas investem em biometano, portanto, estão transformando um problema em uma solução. Isso está alinhado com a questão de logística, que é pensar “por que vou produzir se estou longe da infraestrutura?”. Só que não é bem assim porque tem muito uso dentro [da usina], seja com geração de energia elétrica ou com a substituição do diesel nas frotas, o que é uma grande alternativa. Com muito uso de diesel, a usina perde na questão ambiental do etanol, transportando um produto renovável com um combustível fóssil e que não é bom para o meio ambiente, além de ignorar que o biometano é mais barato do que o diesel. Trocando na frota, dentro de dois ou três anos, é possível ter um payback a partir do biometano próprio. Essa fronteira é muito importante para o agro. E ainda tem os biofertilizantes, que são um subproduto da produção de biogás e biometano. Eles são feitos com o que sobra e são usados na plantação. Vários problemas são resolvidos com um único mecanismo, além de economizar e trazer mais eficiência para a operação.
Além do uso do biometano dentro da usina, há espaço e compradores no mercado externo que valorizem este produto?
Existe mercado. Falamos com a Ultragaz, que está investindo fortemente. Eles dizem que têm demanda e que estão atrás de qualquer pessoa querendo vender biometano. Existe mais interesse no Brasil do que temos produção. Essa demanda nacional tende a crescer. A partir do momento em que tivermos o mercado de carbono e outras questões ligadas a esta forma de descarbonizar, vamos aumentar ainda mais o mercado.
Como você visualiza as vendas deste produto?
Dependendo do estado, tem a alternativa de gasodutos em que é possível negociar para conseguir comercializar. Em outros locais, a ideia é estudar e saber quais regiões precisam dessa conexão. A demanda existe e, às vezes, não se conhece as oportunidades do biogás e do biometano. Portanto, outro grande desafio é que esses dois polos se conversem e a Abiogás tem tentado fazer isso. Buscamos associar não apenas a oferta, mas também os consumidores e tentar alinhar para que eles fechem negócios. Trabalhamos também com a conscientização, de levar a mensagem da importância dos usos do biometano para fora. Além disso, tem o transporte por caminhão, que pode ser usado para chegar a outros consumidores ou fazer a busca por empresas que estão querendo comprar para comercializar. A Cocal, por exemplo, foi atrás do próprio consumidor e encontrou tanto via gasoduto quanto via caminhão. A Urca também está fazendo um trabalho de venda por meio de caminhões para indústrias que querem substituir sua frota de diesel pelo biometano. As alternativas existem e serão cada vez mais lucrativas, pois o mundo vai ter que se comprometer cada vez mais com a necessidade de descarbonizar.
Você mencionou o Combustível do Futuro e até uma relação com a ANP para facilitar a evolução do biogás e do biometano no país. Quais políticas públicas também valorizam a produção de renováveis, como o biogás?
Do que temos estabelecido hoje, alguns estados possuem medidas bastante relevantes para isso, sejam financiamentos facilitados, como no Paraná, ou licenças ambientais facilitadas, como em São Paulo, ou redução de impostos, presente em vários estados. Em aspecto nacional, tem a possibilidade de obter benefícios fiscais, emitir debêntures incentivadas e de infraestrutura, além do RenovaBio e os CBios. Ainda temos a discussão do Combustível do Futuro no Congresso Nacional, o que será uma virada de chave tanto pela questão de certificados quanto pela demanda obrigatória, que trará segurança aos investidores de que vai ter demanda e de que vale a pena ir para esse mercado. Também tem o mercado de carbono, que está tramitando e que deve avançar; e mercado de hidrogênio. Tem bastante coisa acontecendo. Existe, ainda, o PL 4861/2023, que está olhando para parte de gás veicular.
Qual é o papel da Abiogás neste cenário?
A Abiogás vem trabalhando intensamente para fazer essa comunicação com o setor público. Participamos de mais de dez audiências públicas este ano porque o tema está interessando aos parlamentares; toda a vez que batemos lá, começamos a criar esta consciência de que este tema é importante. O próprio Combustível do Futuro, quando começou, não tinha biogás e biometano. Nós fomos conversar com o ministério e com o Arnaldo Jardim [Cidadania-SP], a quem somos gratos. Então, ajudamos a desenhar uma regulamentação que fizesse sentido e que não prejudicasse ninguém. Temos atuado fortemente tanto nos estados quanto em âmbito federal.
Para as usinas que ainda não produzem o biogás, quais dicas você daria para investir neste produto e para onde olhar?
A primeira dica que eu tenho é vir para a Abiogás. Temos feito um trabalho de aproximar players de todos os setores. É preciso fazer um projeto bem elaborado, contratar uma consultoria capacitada para um planejamento que leve em conta todas as questões relativas aos insumos e mercado local. É preciso buscar este mercado, porque ele existe, pois muitas vezes ele sabe que quer, mas acha que é muito caro e não percebe que pode não ser bem assim. Para quem não quer gastar tanto tempo, pode olhar para as empresas que estão querendo comercializar e vender para estes terceiros.
Como a questão de investimentos pode ser resolvida quando o assunto é infraestrutura de envio do biocombustível?
Depende muito de onde a empresa está localizada. Caso não esteja perto da infraestrutura, é importante não olhar as usinas próximas como concorrentes. Muitas vezes, o negócio vai ser viabilizado se elas juntarem forças para dividir os custos de infraestrutura e de movimentação. É importante criar um grupo e conversar com quem está na mesma região, pois a dificuldade pode ser de pagar uma infraestrutura e é possível fazer um hub. Além disso, muitas transportadoras de gás natural estão olhando para viabilizar uma malha de transporte que pode ser uma alternativa para além da rede de distribuição, para buscar mercados que estão longe e que não têm nada de biometano, mas querem descarbonizar e estão passando na região de gasoduto.
A Abiogás tem alguma estimativa do número de plantas de biogás, a partir da produção de sucroenergéticas, que devem iniciar as operações em breve?
Dentre as plantas que estão autorizadas pela ANP para comercializar, somente a Cocal é do setor sucroenergético, mas existem outras 25 que estão aguardando autorização. Dentre elas, cerca da metade é do setor sucroenergético.
Estas e outras análises a respeito do mercado de biogás e biometano serão apresentadas durante a Conferência NovaCana 2024. A programação completa está disponível no site do evento.
Gabrielle Rumor Koster – NovaCana