NovaCana

Relatório mostra que o fim do túnel para o setor de açúcar e etanol está longe

fitch ratings 241014Agência prevê ano difícil para as usinas, com alto risco de financiamento, alavancagem elevada e lenta recuperação dos preços internacionais do açúcar

NovaCana 6 min de leitura

A agência de classificação de riscos Fitch Ratings divulgou nesta quarta-feira (26) um alerta nada otimista de que 2015 será um ano difícil para as usinas, com um alto risco de financiamento, alavancagem elevada e lenta recuperação dos preços internacionais do açúcar.

O documento traça um panorama completo da situação financeira das usinas latino-americanas, e prevê que o rebaixamento da nota de crédito das sucroalcooleiras será muito maior que o número de afirmações.

O portal NovaCana conversou com os analistas da Fitch e apresenta a seguir o panorama estabelecido pela empresa.

A agência de classificação de riscos Fitch Ratings divulgou nesta quarta-feira (26) um alerta nada otimista de que 2015 será um ano difícil para as usinas, com um alto risco de financiamento, alavancagem elevada e lenta recuperação dos preços internacionais do açúcar.

O documento traça um panorama completo da situação financeira das usinas latino-americanas, e prevê que o rebaixamento da nota de crédito das sucroalcooleiras será muito maior que o número de afirmações.

1perspectiva-negativa

A análise confirma a expectativa de usinas e consultorias especializadas, que preveem uma recuperação lenta do setor nos próximos anos. 

“A quantidade de rebaixamentos de empresas de açúcar e etanol da América Latina deve superar a de afirmações, em 2015. Não são esperadas elevações”, afirma o relatório.

Citando, mais uma vez, o “risco sistêmico” do setor, o qual deve crescer, a agência prevê uma redução da disponibilidade de financiamento de capital de giro “em consequência do enfraquecimento financeiro de importantes players domésticos”.

Também faz previsões quanto a recuperação dos preços internacionais do açúcar. Para a agência, a retomada dos preços da commodity “deve afetar negativamente todas as empresas latino-americanas”.

Alavancagem deve crescer

Num relatório recente, a agência de classificação de riscos já havia sinalizado uma forte alavancagem (relação entre dívida e Ebtida) entre três importantes grupos do setor.

Para o setor como um todo, a Fitch observa uma alavancagem já elevada, com a projeção de um cenário “desafiador”, que deve pressionar ainda mais os indicadores das empresas.

“A mediana do índice de alavancagem líquida ajustada das companhias do setor classificadas pela Fitch era de 4,2 vezes em 30 de junho de 2014 e deve subir para mais de 4,5 vezes no ano fiscal de 2015. O volume moído de cana será menor, devido ao clima seco da maior região produtora do Brasil, em 2014. Os investimentos necessários nos canaviais e em ativos industriais continuarão pressionando o fluxo de caixa livre (FCF)”, analisa.

O relatório considera também que o limitado espaço para uma apreciação mais acentuada do real será importante, “uma vez que a dívida denominada em dólar representa significativa parte da dívida do setor”.

Outra previsão da Fitch é de uma “pressão contínua” sobre o FCF e a alavancagem das usinas nos próximos doze meses.

“Os volumes moídos se reduzirão no ano fiscal de 2015, com possível impacto sobre a colheita de 2015/2016 devido às más condições climáticas da maior região produtora de cana do Brasil. A prolongada entressafra deste ano será um desafio para as companhias menos capitalizadas, e os custos devem crescer em 2015, principalmente em decorrência de salários e custos de logística e transportes mais elevados. Isso afetará a diluição de custos fixos e aumentará o nível dos preços de breakeven. As empresas têm pouco espaço para cortar investimentos, o que pressionará ainda mais o FCF e os indicadores de crédito”, avalia.

Eficiência operacional menor

Para a Fitch, a geração de fluxo de caixa de boa parte das empresas latino-americanas de açúcar e etanol deve diminuir à medida que os reduzidos volumes e a “lenta recuperação” dos preços afetarem os fluxos de caixa operacional.

Segundo a agência, em função de uma moagem de cana menor em 2015, estimada pela Datagro entre 520 e 560 milhões de toneladas, os custos devem subir no próximo ano. Maiores salários e custos operacionais crescentes também deverão pressionar para cima o custo das usinas.

Fraca liquidez

Em 2014, o fluxo de caixa livre foi bastante negativo, erodindo as posições de liquidez, “com poucas exceções”. Já para o próximo ano as projeções quanto a melhoria de liquidez das usinas “são limitadas”.

“Acesso a liquidez será fundamental em 2015. Patamares de caixa baixos quando comparados à divida de curto prazo, FCF fortemente negativo e ausência de fontes alternativas de liquidez (como vendas de terras) aumentam os riscos de refinanciamento gerais da indústria”, contextualiza a agência. Ela lembrou o pedido de recuperação judicial do grupo Virgolino de Oliveira, que reduziu o apetite dos investidores.

Lenta recuperação de preços

A recuperação dos preços interacionais do açúcar será lenta e está demorando mais do que o previsto, diz a agência. “Os elevados níveis de estoque e a desvalorização das moedas dos países exportadores estão forçando os preços para baixo”, explica.

Embora lenta, espera-se, ao menos, “uma recuperação gradual dos preços do açúcar em 2015”, avalia a agência. “Os preços do etanol no Brasil devem se beneficiar modestamente do aumento de 3% do preço da gasolina anunciado pela Petróleo Brasileiro S.A”, acrescenta.

“Qualquer recuperação substancial de preços depende de projeções de um déficit muito maior em 2015/2016 e da força das moedas dos maiores exportadores. A libra de açúcar está sendo negociada a USD0,16, ante USD0,18 no início de 2014. Os preços médios da safra 2014/2015 estão 4% abaixo dos níveis de 2013/2014”, detalha.

2contratos-futuros-acucar

Viés conservador

A Fitch ressalta que medidas governamentais que aumentem a demanda por etanol no Brasil ou mais crédito bancário ao setor “seriam vistos positivamente”.

“Uma política de reajuste de combustíveis transparente pela Petrobras provavelmente também melhorará a confiança dos credores no setor e levaria a ações positivas de rating no longo prazo”, considera.

Em conversa por telefone com o portal NovaCana, analistas da agência de classificação de riscos lembraram que o relatório não considera eventuais mudanças na política econômica da presidente reeleita, Dilma Rousseff, ou medidas emergenciais como a volta do Cide sobre a gasolina ou o aumento da mistura.

Segundo o analista Claudio Miori, em se tratando do setor sucroalcooleiro, a Fitch tem adotado um “viés conservador, justamente em função do caráter político e incerto destas decisões”.

“Nosso viés negativo se dá mais em função dos elevados estoques do açúcar lá fora, e da falta de espaço para a commodity no mercado internacional. A Cide e o aumento da mistura ajudariam, mas não seriam suficientes. Sobre o aumento do preço da gasolina, o espaço de reajuste ainda é pequeno. Não há mais aquela margem de 15 a 20%, quando os preços internacionais do petróleo estavam mais elevados”, complementou o analista Alexandre Garcia.

Contrariando as expectativas negativas do setor, a Cosan disse hoje que existem dois potenciais fatores “favoráveis” à indústria do etanol: a volta da Cide e o aumento do teto máximo da mistura da gasolina de 25 para 27,5%.

Leonardo Siqueira – NovaCana

Compartilhar: