A Raízen anunciou na terça-feira, 15, a venda de canaviais que abasteciam a usina Santa Elisa, de Sertãozinho (SP), por um múltiplo abaixo do esperado inicialmente. Também anunciou a paralisação, por tempo indeterminado, da indústria, o que já era esperado por parte do mercado.
A joint venture entre Cosan e Shell vendeu 3,6 milhões de toneladas de cana a seis usinas por R$ 1,045 bilhão, o que resulta em um múltiplo de US$ 53 por tonelada. A transação envolveu cana própria (que pode ser plantada em terras próprias ou arrendadas) e a cessão de contratos com fornecedores da matéria-prima que atenderiam a Santa Elisa ao menos nesta safra.
Inicialmente, a Raízen buscava acertar vendas por múltiplos entre US$ 60 e US$ 70 a tonelada, independentemente de a transação incluir ou não a usina, apurou o Globo Rural. Apesar de o indicador ter ficado abaixo do pretendido, foi próximo aos US$ 50 a tonelada da venda da usina Leme e seus canaviais à Usina Ferrari e à Agromen.
Os compradores da cana da Santa Elisa foram as usinas Alta Mogiana, Bazan, Batatais, São Martinho, Pitangueiras e Viralcool. Com exceção da Pitangueiras, que tem porte menor, as outras contarão agora com canaviais de mais de 10 mil hectares cada, apurou o Globo Rural.
A São Martinho informou que prevê que essa área resulte em 600 mil tonelada de cana nesta safra, subindo para 800 mil toneladas a partir da safra 2028/29.
Um dos principais motivos para a venda dos canaviais da Santa Elisa era sua distância da unidade. Em seu histórico de expansões nas décadas de 1970 e 1980, as lavouras começaram a ficar em distâncias muito além do “padrão ouro”, de até 30 quilômetros da usina.
Acima disso, o custo de transporte e carregamento da cana começa a ficar muito oneroso e pouco eficiente. Para a São Martinho, os novos canaviais estarão em um raio de 25 quilômetros de sua usina em Pradópolis (SP).
Na visão de um usineiro envolvido nas tratativas, a distância dos canaviais e a “inflação da cana” na região vinham inviabilizando a Santa Elisa. Segundo ele, nos últimos anos, o valor dos arrendamentos e dos contratos de cana na região dispararam. Estima-se que um contrato de arrendamento em Ribeirão Preto esteja em mais de R$ 30 mil o hectare, mais que o dobro do sul ou do oeste do estado.
Outro fator que pressionava a Santa Elisa era sua alta dependência de cana no mercado físico (spot). A unidade tinha capacidade de moer até 7 milhões de toneladas de cana por safra, e vendeu metade disso, o que indica que a unidade se abastecia, em grande parte, com “cana spot”.
Segundo Ricardo Pinto, da consultoria RPA, em um raio de 60 quilômetros de Ribeirão Preto, há mais de 20 usinas em atividade, que processam entre 40% a 60% da cana de fornecedores do mercado à vista. Na média do Centro-Sul, essa dependência é de 30% a 35%.
Camila Souza Ramos