A Raízen, gigante na produção de açúcar e etanol e uma das maiores distribuidoras de combustíveis do Brasil, avalia que há oportunidades para ganhar participação de mercado na distribuição, à medida que o combate às ilegalidades no segmento vive seu melhor momento, com a cassação de empresas irregulares.
Em declarações nesta quarta-feira, 14, o CEO da Raízen, Ricardo Mussa, disse que o setor e a sociedade, juntamente com governos, têm feito um combate “muito forte” contra práticas ilegais na distribuição de combustíveis e algumas distribuidoras com suspeitas de ilegalidades, que operavam com “preços muito descontados”, estão saindo do mercado.
Isso melhora as perspectivas de mercado e as margens daquelas que respeitam as leis e pagam tributos, segundo ele. “Reduziu bastante (a ilegalidade) com algumas distribuidoras também saindo do mercado, que tinha muita ilegalidade. Vemos um cenário muito positivo. Já foi muito positivo em julho, ainda melhor em agosto”, declarou ele, durante teleconferência para comentar os resultados da empresa.
Segundo Mussa, tem “muita gente combatendo o crime organizado” no setor, no qual criminosos participam com o objetivo de lavar dinheiro. “Vejo uma mobilização muito grande, como há tempos não via, é um cenário positivo”, disse ele, lembrando que recentes mudanças tributárias também estão auxiliando no combate à sonegação.
A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) suspendeu cautelarmente a licença de empresas suspeitas de atuar na ilegalidade, revelou o presidente do Instituto Combustível Legal (ICL), Emerson Kapaz, ao ser procurado pela Reuters. A ANP não comentou imediatamente quantas empresas foram suspensas.
“Tem uma discussão até de antecipar a monofasia do etanol hidratado, que é a única que está faltando para completar a questão tributária, mas estou otimista”, disse Mussa, citando ações para combater sonegadores.
Segundo ele, o aumento do “market share bom, bandeirado, saudável, com boas margens”, está conectado com a redução da ilegalidade. “Tem espaço sim para melhorar margem e market share bom”, afirmou.
Questionado, Mussa disse que a empresa “não perdeu market share” na rede bandeirada. Mas ele admitiu uma redução de fatia em bandeira branca, que, se a empresa quisesse recuperar rápido, poderia fazer com a redução no preço, algo que não faz parte da estratégia.
Outro ponto citado por Mussa como favorável para maior obtenção de margens no segmento de distribuição de combustíveis é a redução da importação de diesel importado pelo Brasil – o mercado vinha sendo inundado pelo diesel russo, de menor preço, enquanto a Rússia tenta achar mercados para seu produto em função da guerra na Ucrânia.
“Estamos em uma situação de volume total de importação de diesel que é um dos menores, se não me engano, em quase dois anos. Temos um produto no porto hoje, que era um produto vendido a PPI (paridade de importação), ele está sendo vendido a PPI+”, afirmou. “Então você começa a ter o produto importado com oferta menor, isso implica em mercado mais apertado e melhores margens, é um cenário positivo em relação ao primeiro trimestre”.
Mussa também defendeu melhorias no programa RenovaBio, que regula o mercado de CBios. As distribuidoras são obrigadas a comprar os créditos de descarbonização, mas muitas empresas estão entrando com ações que, na prática, permitem que elas não cumpram suas metas.
O CEO da Raízen – que também é emissora de CBios, por ser produtora de etanol – defendeu a cassação das licenças daqueles que não recolhem os valores referentes aos créditos. Ele opinou que as empresas que desrespeitam o RenovaBio deveriam ser enquadrados pela prática de crime ambiental e defendeu uma mudança na legislação no Congresso nessa direção.
Roberto Samora
Com reportagem adicional de Marta Nogueira