A Raízen, joint venture entre a Shell e a Cosan, protocolou na madrugada desta quarta-feira, 11, um pedido de recuperação extrajudicial para renegociar cerca de R$ 65 bilhões em dívidas não operacionais. O pedido já conta com adesão de credores detentores de cerca de 40% da dívida. Para a homologação do acordo, é necessário o apoio de 50% mais um dos credores.
O plano abrange obrigações financeiras e não constitui compromissos correntes ou operacionais da companhia, como dívidas com fornecedores.
Segundo pessoas a par da negociação, os maiores bancos credores, que incluem Itaú, Santander e Bradesco, e os donos de títulos de dívida da empresa já aceitaram a proposta. O que falta são credores diversos, com valores bastante diluídos dentro do endividamento total, o que dar mais complexidade para as tratativas.
A Raízen detinha R$ 17,3 bilhões em caixa no final de dezembro. A empresa tem US$ 5 bilhões em dívidas com detentores de bonds no exterior, outros US$ 5 bilhões com bancos e US$ 3 bilhões com títulos no mercado local.
Segundo fato relevante divulgado pela Raízen em 4 de março, a proposta dos acionistas controladores em análise prevê, além de R$ 3,5 bilhões da Shell, R$ 500 milhões vindos do sócio fundador da Cosan, Rubens Ometto, por meio da holding Aguassanta.
Com o plano, a Raízen passa a ficar protegida para buscar um acordo com os credores pelos próximos 90 dias, preservando o seu caixa.
Trata-se de um dos maiores processos de reestruturação de dívidas do Brasil, ao lado das propostas pela Oi e pela antiga Odebrecht, atual Novonor.
A Raízen é representada pelos escritórios E.Munhoz Advogados e Pinheiro Neto e tem assessoria financeira de Rothschild & Co.
Nas últimas semanas, representantes de Shell, Cosan, Raízen e BTG Pactual (acionista da Cosan) fizeram uma série de reuniões, buscando chegar a um acordo sobre quanto dinheiro deveriam aportar na empresa, que não evoluiu além dos R$ 4 bilhões decididos. As conversas incluíram um encontro, em Brasília, com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
As negociações com os credores devem envolver um pedido de conversão de dívidas em ações de em torno de R$ 16 bilhões. Dessa forma, na prática, a Cosan teria a sua participação no negócio diluída, e a Shell passaria a controlar a Raízen. Devido a dívidas, a Cosan não tem recursos para acompanhar o aporte total da Shell de R$ 3,5 bilhões.
Por isso, buscou uma solução de capital com recursos junto ao BTG Pactual, que se tornou sócio da Cosan no ano passado, após coordenar uma injeção de capital que alcançou R$ 10 bilhões.
No início da terça-feira, repercutiu no mercado o balanço da Cosan, que reportou prejuízo líquido corporativo de R$ 5,803 bilhões no quarto trimestre de 2025, uma queda de 38% sobre o resultado também negativo do mesmo período de 2024. A dívida líquida expandida da Cosan somou R$ 9,76 bilhões, no quarto trimestre de 2025, com queda de 58% frente ao visto no mesmo período de 2024.
Em sua divulgação de resultados, a administração da companhia avalia que o ano de 2025 foi encerrado ainda em um ambiente macroeconômico desafiador no Brasil.
“Mesmo diante desse cenário, conseguimos dar passos fundamentais para o aprimoramento da estrutura de capital da Cosan e redução do endividamento. Concluímos a capitalização e entrada dos novos sócios estratégicos, reforçando nossa governança e aportando estabilidade de capital para o longo prazo”, destaca a gestão.
Carlos Eduardo Valim
Com colaboração de Talita Nascimento