NovaCana

Rabobank: “Trajetória dos preços de etanol em 2018 está longe de ser previsível”

tanques etanol 011217Açúcar ou etanol? O mix de produção das usinas brasileiras foi definido pelo banco holandês Rabobank como uma variável-chave para o mercado durante a safra 2018/19

NovaCana 7 min de leitura

O banco holandês fez suas apostas para a safra 2018/19 de cana-de-açúcar no Brasil.

As previsões e premissas apresentadas na reportagem abaixo mostram a visão dos analistas do banco considerando os fatores:

- Clima da entressafra (e o que esperar se o clima for normal)
- Renovação do canavial
- Margens de lucro — “Muitas usinas conseguiram amenizar parcialmente a queda na receita e na margem por terem travado antecipadamente parte das vendas de açúcar da safra 2017/18 em 2016, quando os preços ainda estavam altos”.
- Mix de produção
- Área total de cana
- Preço do etanol — Ao mesmo tempo em que a queda nos preços do açúcar já é consumada, a trajetória dos preços de etanol em 2018 está longe de ser previsível segundo o Rabobank.
- Preço do petróleo e as demais variáveis
- Setor concentrado e queda na receita dos produtores — Na atual situação do mercado de açúcar e etanol, a polarização do setor sucroenergético fica evidente.

Açúcar ou etanol? O mix de produção das usinas brasileiras foi definido pelo banco holandês Rabobank como uma variável-chave para o mercado durante a safra 2018/19. Mesmo assim, a instituição acredita já ter uma resposta: “A baixa chance de uma recuperação dos preços internacionais de açúcar em 2018 sugere que a nova safra seja mais alcooleira”.

Contudo, o cenário ainda merece atenção devido à perspectiva de uma queda na moagem e pelo fato de que, mesmo com os preços baixos do açúcar, a safra 2017/18 manteve um perfil açucareiro. Conforme os números levantados, aproximadamente 47% da cana moída foi utilizada para produzir açúcar.

A princípio, dentro de uma premissa de clima normal, a expectativa do Rabobank é de que a safra 2018/19 no Centro-Sul seja parecida com a atual, moendo entre 580 e 590 milhões de toneladas. Entretanto, o volume produzido pode cair devido a um aumento na idade média dos canaviais e à influência do clima.

“Parece difícil a safra 2018/19 no Centro-Sul ser maior que a safra 2017/18. O canavial estará mais velho e, considerando o impacto da seca em 2017, o clima durante a entressafra será fundamental para os resultados” (Rabobank)

O banco afirma que as condições secas durante a safra 2017/18 contribuíram para um ATR maior do que esperado inicialmente. Esse mesmo fator, no entanto, pode trazer consequências para a qualidade média da cana em 2018/19, que poderá ficar levemente abaixo do nível atingido na atual temporada.

Canavial (ainda mais) envelhecido

Uma das premissas adotadas pelo Rabobank é que a área de cana-de-açúcar colhida na região Centro-Sul em 2018/19 não deve mudar muito em comparação com 2017/18. “Primeiramente, a área total de cana praticamente parou de crescer. E, em segundo lugar, o aperto das margens em 2017/18 para muitos players sugere que a taxa de renovação não seja muito diferente dos 13% registrados no ano anterior”, justifica.

Com isso, a expectativa é que a cana a ser colhida na próxima safra tenha uma idade média superior a vista nos canaviais em 2017/18. Consequentemente, o banco também espera que a cana-de-açúcar fique mais vulnerável a condições climáticas desafiadoras, doenças e pragas. E, mesmo com um clima normal, a projeção é que a produtividade em 2018/19 dificilmente superará o desempenho de 2017/18.

“Como sempre, o clima terá um papel fundamental na determinação do tamanho e da qualidade da safra 2018/19”, afirma o banco, que complementa: “Condições secas em 2017 já geraram preocupações a respeito da produtividade em 2018/19, mas isso ainda dependerá muito do clima entre outubro 2017 e fevereiro 2018, período em que 80% do crescimento da cana normalmente acontece”.

Excedente de açúcar – com queda na produção nacional

O relatório do Rabobank ainda relembra que, durante o primeiro semestre de 2017, o preço internacional de açúcar despencou devido à expectativa do mercado de um excedente de oferta em relação à produção. Até então, as cotações estavam sendo sustentadas por uma perspectiva de déficit mundial.

rabobank 1 balanco 2018 19

Ainda assim, ao menos por enquanto, nem todo o mercado foi afetado: “Muitas usinas conseguiram amenizar parcialmente a queda na receita e na margem por terem travado antecipadamente parte das vendas de açúcar da safra 2017/18 em 2016, quando os preços ainda estavam altos”.

rabobank 2 preco internacional 2018 19

Para a próxima safra, contudo, os preços mais baixos do açúcar e o menor ATR devem afetar a produção nacional do adoçante. “Contando com uma moagem em 2018/19 similar àquela de 2017/18, a produção de mais etanol significaria uma queda na produção de açúcar em comparação com as 36 milhões de toneladas estimadas para 2017/18”, relata.

Clique na imagem para abrir o infográfico:
acucar conteiner

De acordo com os cálculos do banco, se o mix chegar a 44% em 2018/19, a produção de açúcar seria reduzida, em comparação com 2017/18, em 2,25 milhões de toneladas. “[Esse é] um volume nada desprezível no contexto do balanço global de açúcar”, aponta o relatório.

Imprevisibilidade de preços para o etanol

Ao mesmo tempo em que a queda nos preços do açúcar já é consumada, a trajetória dos preços de etanol em 2018 está longe de ser previsível segundo o Rabobank. O principal motivo seria a política de preços da Petrobras para a gasolina, que inclui a possibilidade de mudanças diárias nos valores cobrados nas refinarias, acompanhando as cotações internacionais.

Além disso, de acordo com o banco, a receita líquida gerada pelo etanol em 2017 sofreu com o resultado da volta do PIS/Cofins para os produtores do combustível. “A dificuldade de repassar mesmo que parte deste custo ao longo da cadeia, acabou por gerar impactos negativos no resultado da safra 2017/18, via preços e margens diminuídas”, afirma o documento.

Ainda assim, o etanol hidratado manteria competitividade devido à “estrutura de impostos”, ou seja, à tarifa mais baixa de PIS/Cofins em relação à gasolina, ao ICMS diferenciado em alguns estados e à taxação do etanol importado que ultrapassar a cota estabelecida pelo governo. “Com o estabelecimento da tarifa de importação de etanol, ficou mais difícil das importações derrubarem o preço doméstico”, completa.

rabobank 3 preco nacional 2018 19

Somando essa questão ao preço de petróleo Brent – projetado pelo banco em uma faixa entre US$ 55 a 60/barril –, as perspectivas para o consumo de hidratado seriam promissoras.

Setor concentrado e queda na receita dos produtores

Para o Rabobank, na atual situação do mercado de açúcar e etanol, a polarização do setor sucroenergético fica evidente. Conforme o relatório, as empresas que já entraram no ano de 2017 em boas condições alcançaram uma alta robustez financeira, reduziram o endividamento e mantiveram uma boa liquidez. Elas não só estavam com boa parte do açúcar já fixado como puderam aproveitar oportunidades, inclusive estocando etanol para venda na entressafra.

“Em contraste, as empresas em condições mais críticas são reféns do mercado “spot”, sendo incapazes de fazer replantio e manutenção da soca adequada, engatilhando um ciclo vicioso de margens apertadas e investimentos insuficientes”, complementa o Rabobank.

Além disso, as flutuações nos preços afetam toda a cadeia, a começar pelo campo. “Para os fornecedores de cana, os quais a receita depende do vaivém das cotações spot de açúcar e etanol, a queda do preço recebido tem sido realmente forte na safra 2017/18, quando comparado ao valor médio espetacular do ATR realizado em 2016/17”, comenta o banco.

Renata Bossle – NovaCana

Compartilhar: