Uma queda dos preços do milho no Brasil para os menores níveis em quase três anos finalmente deverá dar respiro em 2023 para as indústrias de carnes de aves e suínos, que contam ainda com uma recuperação no consumo brasileiro no segundo semestre e exportações recordes do setor de frango neste ano, avaliou o presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA).
O milho – principal matéria-prima da ração que, juntamente com a soja, responde por cerca de 70% do custo de produção do frango – acumula redução de aproximadamente um terço nos preços nas principais praças do Brasil, à medida que o país espera colher uma nova safra recorde neste ano.
Isso deve aliviar empresas de alimentos como a BRF, que registrou prejuízos consecutivos em 2022, muito por conta da disparada nos custos das matérias-primas para ração.
Com este cenário, a indústria brasileira de carnes deve manter seus preços sob controle e está confortável para esperar a entrada da maior safra do cereal do Brasil a partir em junho, enquanto agricultores podem ser obrigados a vender, já que lidam com um déficit de capacidade de armazenagem de grãos agravado neste ano por uma histórica colheita de soja.
“A indústria está sem pressa de comprar milho. A produção e a exportação (de carnes) vão aumentar este ano, mas não tem ninguém desesperado. Hoje está melhor para o comprador de grãos, finalmente estamos recuperando um pouco do que se perdeu no passado”, disse Ricardo Santin, presidente da ABPA, associação que reúne as maiores produtoras de carnes do país, como BRF, Seara, da JBS, e Aurora.
Os preços do milho estão próximos de romper a barreira dos R$ 60 a saca na praça de Campinas (SP), segundo indicador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq-USP, registrando recuo de mais de 28% no acumulado de 2023. Em 2022, as agroindústrias viram picos de mais de R$ 100 por saca em março, após o início da guerra na Ucrânia.
Santin lembrou que nos piores momentos da oferta, a indústria de carnes chegou a pagar prêmios sobre o milho contratado para exportação para reter o grão no mercado brasileiro. Afinal, além de ser o maior exportador de carne de frango, o Brasil também é um dos líderes na exportação global do cereal.
O presidente da ABPA disse que o setor agora vê preços do milho abaixo de R$ 60 por saca no Centro-Oeste, principal produtor nacional, mas também não acredita em reduções mais acentuadas. “Sabemos que o milho não deve retroceder em patamares muito maiores, o que é bom para toda a cadeia, mantém o produtor com apetite também de plantar, e para nós conseguirmos ter um pouquinho de equilíbrio no custo”, diz.
De acordo com consultorias privadas, com a confirmação de uma safra recorde perto de 130 milhões de toneladas, o Brasil ainda poderá exportar volumes também históricos em 2023, superiores a 45 milhões de toneladas.
Também colaborou com a situação atual do mercado o fato de empresas de carnes terem feito mais estoques de milho. “Em função de especulações do passado, as empresas tiveram uma compra um pouco mais adiantada”, explica.
Esta “adequação do custo”, destacou Santin, repõe o equilíbrio no setor, permitindo que exista uma estabilidade de preços de carne de aves e suínos no produtor, que ainda não conseguiu repassar para o varejo todo o aumento de despesas do passado, que incluiu maiores gastos com embalagens e energia.
“Quando tem redução no custo de produção, o setor consegue manter preços estáveis para atender o que a população precisa. A boa notícia da inflação é que não vai subir, pelo menos da nossa parte”, disse Santin.
Roberto Samora