A Raízen, primeira produtora de etanol do mundo a obter selo de certificação internacional para a produção do combustível de aviação sustentável (SAF, na sigla em inglês), está negociando com várias empresas a fabricação do combustível no Brasil para atender os mandatos de descarbonização de Europa, Japão e Estados Unidos.
“Como a produção de um litro de SAF demanda 1,8 litro de etanol, então o lugar mais eficiente para produzir o combustível é o Brasil. Em vez de você exportar dois litros de etanol, você produz no país que tem a energia mais barata do mundo, que é o Brasil, e exporta o produto industrializado”, disse o vice-presidente executivo de etanol, açúcar e energia da Raízen, Francis Queen, em evento promovido nesta quinta-feira, 5, pelo Citi, em Ribeirão Preto (SP), com empresários do setor sucroenergético.
A certificação ISCC/Corsia (Carbon Offsetting and Reduction Scheme for International Aviation) comprova que o etanol cumpre os requisitos internacionais para a produção de SAF, que é capaz de reduzir em até 80% o volume total de emissões de gases de efeito estufa em comparação ao combustível fóssil de aviação.
O ISCC (International Sustainability & Carbon Certification) garante que os biocombustíveis são produzidos de forma sustentável, respeitando os critérios sociais, ambientais e econômicos.
Queen diz que as discussões estão avançadas, mas não revela o nome das empresas com as quais a Raízen está negociando. embora sinalize que podem ser multinacionais. Segundo ele, o SAF de etanol é o único combustível viável para implantação imediata com escala para atender os compromissos de descarbonização já fixados no mundo.
O mercado mundial hoje, diz o executivo, está focado no óleo vegetal hidrotratado (HVO), primeira tecnologia de combustível sustentável de aviação, que gera 300 milhões de litros por ano. O problema é que esse combustível produzido com óleos vegetais, óleo de cozinha e sebo bovino não tem escala para atender a necessidade já estimada para 2025, de 20 bilhões de litros, e muito menos a demanda global projetada de 450 bilhões de litros em 2050.
“O SAF de etanol brasileiro é a bola da vez para ir além do HVO. Estamos jogando sozinhos hoje porque o etanol de milho dos americanos emite três vezes mais que o nosso etanol, mas temos que achar um caminho para viabilizar rápido a produção porque eles estão se movendo para resolver isso e, nos Estados Unidos, as indústrias têm incentivos do governo de até US$ 0,50 por litro para produzir SAF”, completa.
Questionado se a produção do combustível sustentável pode ser feita dentro das próprias usinas, Queen diz que seria muito difícil porque o modelo financeiro desta produção exige uma escala grande, de 500 milhões de litros ou 1 bilhão de litros para ser economicamente eficiente. “A solução mais eficiente é ter uma indústria que vai receber o nosso etanol para a transformação”, relata.
A gerente de sustentabilidade Latam Airlines, Lígia Sato, disse que a empresa tem o compromisso de usar 5% de SAF até 2030 para incentivar a produção desse combustível, embora ele atualmente seja cinco vezes mais caro que o querosene de aviação, que já representa 40% dos custos da Latam. “A aviação mais sustentável tem que ser acessível para dar seguimento à democratização do transporte aéreo e o SAF tem que ser desenvolvido usando critérios internacionais”, completa.
Uma empresa que já tem acordo com a Raízen é a Embraer. Segundo o vice-presidente global de suprimentos da empresa aérea, Roberto Chaves, a parceria criou em 2022 um grupo de trabalho para viabilizar o fomento do SAF no país. “Estamos também acelerando as discussões com outros players do ecossistema, como o governo, para achar as melhores soluções”, disse.
O CEO da consultoria Datagro, Plinio Nastari, disse que o etanol caminha na direção da emissão zero ou até negativa. Para isso, o setor precisa acelerar a substituição do diesel pelo biometano, mudar a estruturação do solo com mais aplicação de torta de filtro e vinhaça, entre outras medidas.
A produção do SAF no Brasil teria grande incentivo do sistema financeiro, segundo André Cury, chefe de commercial bank do Citi para a América Latina. No médio e longo prazo, o executivo avalia que os investimentos em SAF e outros projetos sustentáveis podem fazer a diferença para o setor sucroenergético.
“A produção hoje não é suficiente para atender às demandas por conta dos compromissos do setor de aviação. As usinas brasileiras precisam se estruturar para aproveitar o potencial que têm de ser um grande fornecedor de combustível sustentável de aviação para o mundo", afirma Cury.
Recursos não devem faltar, segundo o executivo. O banco anunciou um compromisso de financiar US$ 1 trilhão até 2030 em todo o mundo em projetos ambientais que contribuam para a economia de baixo carbono ou gerem impacto na sociedade. Parte desse dinheiro pode vir para o Brasil.
“O montante vai depender da nossa capacidade de originar projetos de transição energética. Se a gente conseguir mostrar que os projetos do Brasil são sustentáveis, têm as práticas que o banco espera, estão ajudando na descarbonização ou na questão social, então os clientes brasileiros vão ter acesso a essas linhas”, afirma Cury.
O presidente do banco, Marcelo Marangon, reforçou no encontro que o Brasil é a quinta maior franquia do banco que atua em mais de 160 países e que a busca de soluções para a descarbonização mundial passa necessariamente pelo agro brasileiro.
Eliane Silva