A Procuradoria-Geral de Justiça de São Paulo deve rejeitar formalmente a proposta de delação premiada de Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Louco, um dos principais alvos da Operação Carbono Oculto. O empresário tentava firmar uma colaboração junto ao Ministério Público paulista, mas sua proposta foi rechaçada pelos promotores envolvidos nas investigações.
Foragido desde então após fugir para a Líbia, como mostrou O globo, Beto Louco primeiro tentou fechar um acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República (PGR) em que supostamente entregaria informações sobre senadores e lideranças políticas, mas as negociações não avançaram em Brasília.
A partir daí, tentou fechar um acordo com o Ministério Público de São Paulo, que encabeçou as investigações ao lado da Receita Federal e com o suporte da Polícia Federal (PF), mas essa proposta também deve ser rechaçada.
A decisão cabe ao chefe do MP-SP, o procurador-geral de Justiça, Paulo Sérgio de Oliveira e Costa, que acaba de ser reconduzido ao cargo pelo governador do estado, Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Em sua proposta, o empresário se dizia disposto a devolver R$ 1 bilhão aos cofres públicos, mas assumiria apenas crimes de sonegação fiscal. Ele também disse que confessaria ter pago propina a um magistrado e funcionários da Secretaria da Fazenda. Mas afirmou que não reconheceria vínculos com o PCC e nem confessaria participação em crimes como a adulteração de combustível e lavagem de dinheiro.
Ao longo das tratativas com o MP, a defesa do empresário negou veementemente qualquer elo com o PCC, que classificou como “falso e fantasioso”, e rejeitou a tese apresentada pelos investigadores. A Carbono Oculto foi coordenada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público e é considerada a maior operação contra o crime organizado no Brasil.
Em resposta à consulta do PGJ sobre os termos da proposta, os promotores de todas as regiões envolvidas nas investigações – da capital, de Guarulhos, Piracicaba e São José do Rio Preto – produziram pareceres recomendando a rejeição de um acordo com Beto Louco.
Para o MP, diante do volume de evidências de conexões entre o empresário e o PCC obtidas pela investigação, seria incabível firmar a colaboração premiada sem a admissão do vínculo com a facção e o crime organizado.
Por isso, na avaliação de promotores, a recusa de Beto Louco em admitir e, principalmente, esclarecer a relação com a facção contraria princípios fundamentais para a homologação de uma delação premiada e o interesse público deste tipo de colaboração.
Procurada, a defesa de Beto Louco não se manifestou.
Além disso, poderia esclarecer o envolvimento de fintechs e fundos da Faria Lima no esquema, incluindo a Reag, que foi liquidada pelo Banco Central (BC) em janeiro deste ano e tinha ligações estreitas com o Banco Master e seu ecossistema.
Beto Louco, por sua vez, seria o responsável por administrar as empresas que operavam a sonegação fiscal e a ocultação de recursos.
O empresário e Mourad, o “Primo”, estão foragidos desde a deflagração da Carbono Oculto em 28 de agosto. As tratativas de delação foram negociadas diretamente do exterior, em localização desconhecida, até a PF localizar a dupla na Líbia, no norte da África.