Representantes da cadeia da cana-de-açúcar estiveram reunidos por três horas e meia com parlamentares em Brasília. O debate foi dominado pelos problemas das usinas de açúcar e etanol do Centro-SulPersonalidades conhecidas do setor sucroenergético estiveram reunidos nesta semana em Brasília para discutir a atual situação do mercado.
O encontro aconteceu na Câmara dos Deputados nesta terça-feira e abaixo você confere um resumo completo dos argumentos desenvolvidos por cada representante.
- Os componentes da crise
- O fechamento das usinas do Nordeste chega a São Paulo
- Como a mecanização afetou os pequenos e médios produtores
- Ministério da Agricultura elenca os três principais problemas
- Os custos mais significativos que aumentaram
- Tombos do setor
- Vídeos e fotos do encontro
- O consenso
"São três eventos nos últimos cinco anos que acabaram afetando este setor produtivo da economia brasileira", explicou o diretor do Departamento de Cana-de-Açúcar e Agroenergia da Secretaria de Produção e Agroenergia do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Cid Jorge Caldas. O diretor setorial abriu as explanações na audiência pública que debateu a situação da indústria canavieira na região Centro-Sul. A discussão aconteceu na tarde de terça-feira (26) na Câmara dos Deputados, promovida pela Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural.
Cid Caldas elencou o que, na opinião dele, foram os três problemas que mais afetaram a produção de cana e derivados nos últimos anos: a crise econômica de 2008 que reduziu a capacidade de investimentos, o excesso de chuvas na safra 2009/2010, impedindo que aproximadamente 50 toneladas de cana não pudessem ser colhidas e, no ciclo seguinte, uma seca acentuada que acabou por reduzir a produção dos canaviais.
Mesmo representando o governo, o representante do Mapa aproveitou o argumento largamente utilizado pelo setor produtivo para explicar como a situação se agravou: o conhecido controle no preço da gasolina tornou restrita a rentabilidade do etanol, enquanto nos mesmos cinco anos, os custos de produção cresceram entre 62% e 70%. Ao mesmo tempo, a importância da cadeia do álcool e etanol para a economia brasileira se ampliou e atualmente movimenta quase R$ 100 bilhões. "Este setor tem uma importância muito grande para a economia brasileira e só perde para o complexo de soja. Em 2002 participava com 16% na cadeia do agronegócio e hoje representa um quinto de todas as transações do agronegócio", ilustrou Caldas.
Já o presidente da Organização de Plantadores de Cana da Região Centro-Sul do Brasil (Orplana), Ismael Perina Junior, citou a desregulamentação do setor ao final da década de 90 como o primeiro tombo da indústria. "Até então, tanto o setor produtivo quanto o setor industrial tinham suas regras determinadas pelo governo federal, inclusive com a determinação de preço de cada um dos produtos", relembrou. Sem os preços tabelados de acordo com os custos de produção, o livre mercado estreitou a remuneração dos produtores, chegando até a gerar prejuízos, com um custo final menor do que o de produção. "Os produtores sentiram um grande golpe", disse Perina Junior.
A mudança da política de precificação dos combustíveis foi avaliada como ineficiente e predatória pelo diretor-técnico da Unica, Antonio de Pádua Rodrigues. "Nem o preço da Petrobras, nem o preço da gasolina foram resolvidos. Foi uma política que não trouxe solução para o país e carregou junto o etanol, uma vez que o mercado de etanol só existe se o consumidor achar que o etanol é competitivo e para isso se precisa de uma relação de bomba de 70% no limite (de relação com a gasolina)".
Para amenizar os impactos dos últimos anos, o BNDES abriu linhas de financiamento para o setor investir desde a renovação da lavoura até pesquisa e desenvolvimento. "De 2007 para cá, o investimento passou de R$ 1,9 bilhão para R$ 2,8 bilhões (no canavial)", informou Caldas. Porém, os recursos para estocagem acabaram não tendo demanda e devem ser reabertos segundo o representante do Mapa. "No ano passado retomamos um programa de financiamento de estoque de etanol, entretanto estes recursos não foram tomados devido aos baixos estoques do produto; o setor acabou não demandando estes recursos e estamos neste momento conversando para que esta linha de crédito seja renovada", anunciou.
Enquanto a remuneração encolheu, os custos de produção, segundo Perina Júnior, aumentaram mais que a avaliação do Mapa: 72%. Entre os fatores de maior impacto, ele citou os problemas logísticos que tornaram o frete interno mais oneroso e também a ampliação do custo da mão-de-obra. "Além dos aumentos normais de recomposição de inflação tivemos também uma competição por mão de obra que levou a uma elevação um pouco mais bruta". Os salários para os trabalhadores que atuam no campo chegaram a subir até 120% nos últimos seis anos.
A aceleração da transição da queima para a mecanização afetou pesadamente pequenos e médios agricultores. "Faz parte do nosso cotidiano a substituição da queima por colheita mecanizada, só que algumas regiões do país, como a de Piracicaba, têm muita área de pequeno produtor com grande dificuldade de adaptação". Sem condições de adquirir máquinas e impossibilitados de efetuar a queima, o dirigente da Orplana afirma que alguns produtores estão fazendo o corte da cana crua. O procedimento dificulta a colheita e aumenta os custos. "Alguns produtores estão cortando cana sem queima, prejudicando violentamente o cortador de cana e o próprio produtor que tem um aumento de dez a doze reais".
O presidente da Associação de Produtores de Bioenergia do Estado do Paraná (ALCOPAR), Miguel Rubens Tranin, apresentou a situação do setor sucroalcooleiro no estado sulista. Assim como os pequenos agricultores paulistas, as diversas usinas paranaenses que operam no sistema de cooperativas também são mais vulneráveis aos problemas enfrentados pela indústria canavieira. Prova disso é que o Paraná sofre com uma das menores produtividades do Brasil, devido às questões climáticas desfavoráveis nos últimos ciclos e reduzido investimento, o que levou a uma queda de 20% da capacidade industrial no Paraná.
Para o representante sindical, a possível desoneração sobre PIS/Cofins deve ser feita com muita cautela. "O PIS é o que financia o fundo de amparo ao trabalhador, que paga o Seguro Desemprego. À medida que vamos retirar a receita do PIS, certamente vai diminuir a receita do Fundo de Amparo ao Trabalhador". Leite defendeu uma correspondência do setor, garantindo condições de empregabilidade para responder ao benefício. "Tirando este tributo precisamos também ter uma contrapartida e um compromisso de ter um mercado de trabalho mais estável", pediu.
"A primeira sinalização positiva do governo federal depois de um longo prazo é trazer alguma política para o etanol parecida com o que ele fez com a gasolina", disse. Neste sentido é aguardada a retirada do PIS/Cofins do etanol hidratado. Segundo Rodrigues, hoje a carga tributária é de 12 centavos de real por litro e a sinalização no curto prazo indica a retirada deste custo. Assim, é possível que a competitividade do etanol em relação à gasolina aumente em torno de 5%. Mas Rodrigues deixa claro que a medida é pontual. "O governo não deve esperar o retorno dos investimentos. Isso não é suficiente. Precisa de algo muito mais transparente", finalizou.
O vídeo completo do encontro na Câmara dos Deputados pode ser acessado aqui.
Amanda SchArr - NovaCana
O encontro aconteceu na Câmara dos Deputados nesta terça-feira e abaixo você confere um resumo completo dos argumentos desenvolvidos por cada representante.
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| Veja também: A crise no setor sucroenergético na visão da presidente da Unica |
- O fechamento das usinas do Nordeste chega a São Paulo
- Como a mecanização afetou os pequenos e médios produtores
- Ministério da Agricultura elenca os três principais problemas
- Os custos mais significativos que aumentaram
- Tombos do setor
- Vídeos e fotos do encontro
- O consenso
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| Veja também: A crise no setor sucroenergético na visão da presidente da Unica |
Cid Caldas elencou o que, na opinião dele, foram os três problemas que mais afetaram a produção de cana e derivados nos últimos anos: a crise econômica de 2008 que reduziu a capacidade de investimentos, o excesso de chuvas na safra 2009/2010, impedindo que aproximadamente 50 toneladas de cana não pudessem ser colhidas e, no ciclo seguinte, uma seca acentuada que acabou por reduzir a produção dos canaviais.
Mesmo representando o governo, o representante do Mapa aproveitou o argumento largamente utilizado pelo setor produtivo para explicar como a situação se agravou: o conhecido controle no preço da gasolina tornou restrita a rentabilidade do etanol, enquanto nos mesmos cinco anos, os custos de produção cresceram entre 62% e 70%. Ao mesmo tempo, a importância da cadeia do álcool e etanol para a economia brasileira se ampliou e atualmente movimenta quase R$ 100 bilhões. "Este setor tem uma importância muito grande para a economia brasileira e só perde para o complexo de soja. Em 2002 participava com 16% na cadeia do agronegócio e hoje representa um quinto de todas as transações do agronegócio", ilustrou Caldas.
Os tombos do setor
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A mudança da política de precificação dos combustíveis foi avaliada como ineficiente e predatória pelo diretor-técnico da Unica, Antonio de Pádua Rodrigues. "Nem o preço da Petrobras, nem o preço da gasolina foram resolvidos. Foi uma política que não trouxe solução para o país e carregou junto o etanol, uma vez que o mercado de etanol só existe se o consumidor achar que o etanol é competitivo e para isso se precisa de uma relação de bomba de 70% no limite (de relação com a gasolina)".
Novo crédito para estocagem
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Aumento nos custos e queda na rentabilidade
O presidente da Orplana apontou que há quatro safras o preço de venda do etanol apresenta uma defasagem em relação aos custos de produção. "O hidratado tem um problema seríssimo de formação de preço. Desde a safra 2008/2009 em nenhum momento houve rentabilidade com o hidratado. Houve um desajuste muito grande pela política adotada para a gasolina", relatou.Enquanto a remuneração encolheu, os custos de produção, segundo Perina Júnior, aumentaram mais que a avaliação do Mapa: 72%. Entre os fatores de maior impacto, ele citou os problemas logísticos que tornaram o frete interno mais oneroso e também a ampliação do custo da mão-de-obra. "Além dos aumentos normais de recomposição de inflação tivemos também uma competição por mão de obra que levou a uma elevação um pouco mais bruta". Os salários para os trabalhadores que atuam no campo chegaram a subir até 120% nos últimos seis anos.
Mecanização e os produtores independentes
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O presidente da Associação de Produtores de Bioenergia do Estado do Paraná (ALCOPAR), Miguel Rubens Tranin, apresentou a situação do setor sucroalcooleiro no estado sulista. Assim como os pequenos agricultores paulistas, as diversas usinas paranaenses que operam no sistema de cooperativas também são mais vulneráveis aos problemas enfrentados pela indústria canavieira. Prova disso é que o Paraná sofre com uma das menores produtividades do Brasil, devido às questões climáticas desfavoráveis nos últimos ciclos e reduzido investimento, o que levou a uma queda de 20% da capacidade industrial no Paraná.
Crise e endividamento em SP
O diretor-técnico da Unica mostrou que muitas usinas foram incapazes de suportar o rendimento deficiente e todas as incertezas vividas pela cadeia, o que levou 42 unidades a encerrarem suas atividades nos últimos anos. "Se no passado assistimos ao fechamos de indústria no Nordeste, hoje estamos assistindo ao fechamento de indústrias em Araçatuba, na região de Presidente Prudente, de Piracicaba e se vê claramente que, neste ano, 11 unidades deixarão de operar". Rodrigues afirmou ainda que existem outras 60 unidades com futuro incerto para os próximos anos.O lado do trabalhador
O presidente da Federação dos Trabalhadores nas Indústrias Químicas e Farmacêuticas do Estado de São Paulo, Sérgio Luiz Leite, apresentou números que demonstram o crescente de desemprego no setor. "De outubro de 2012 até agora, contando trabalhadores rurais, da indústria e do setor de transporte, cerca de sete mil trabalhadores foram dispensados, e o pior, sem receber seus direitos trabalhistas". Os números fazem referência somente ao período de entressafra no estado de São Paulo. Leite frisou que no interior paulista existem municípios pequenos, extremamente dependentes da indústria canavieira que, por vezes, emprega quase toda a população adulta destes locais.Para o representante sindical, a possível desoneração sobre PIS/Cofins deve ser feita com muita cautela. "O PIS é o que financia o fundo de amparo ao trabalhador, que paga o Seguro Desemprego. À medida que vamos retirar a receita do PIS, certamente vai diminuir a receita do Fundo de Amparo ao Trabalhador". Leite defendeu uma correspondência do setor, garantindo condições de empregabilidade para responder ao benefício. "Tirando este tributo precisamos também ter uma contrapartida e um compromisso de ter um mercado de trabalho mais estável", pediu.
Consenso
"O governo tem que ter uma regra clara, uma política clara de longo prazo que dê segurança aos investidores", pediu Rodrigues. O apelo do diretor-técnico da Unica aos deputados é consenso entre os atores envolvidos. Ele defendeu a estabilidade: quem investe um bilhão de reais em uma nova unidade produtora precisa saber quais serão as regras pelos próximos 10 ou 20 anos. "O que não pode ter é uma quebra de regra, uma quebra de contrato, porque isso vai trazer uma insegurança enorme a todos investidores", argumentou."A primeira sinalização positiva do governo federal depois de um longo prazo é trazer alguma política para o etanol parecida com o que ele fez com a gasolina", disse. Neste sentido é aguardada a retirada do PIS/Cofins do etanol hidratado. Segundo Rodrigues, hoje a carga tributária é de 12 centavos de real por litro e a sinalização no curto prazo indica a retirada deste custo. Assim, é possível que a competitividade do etanol em relação à gasolina aumente em torno de 5%. Mas Rodrigues deixa claro que a medida é pontual. "O governo não deve esperar o retorno dos investimentos. Isso não é suficiente. Precisa de algo muito mais transparente", finalizou.
O vídeo completo do encontro na Câmara dos Deputados pode ser acessado aqui.
Amanda SchArr - NovaCana


