Etanol

Etanol

ProÁlcool: 40 anos de improviso


Agência Estado - Publicado: 12 Nov 2015 - 09:10

O ano era 1979. O empresário paulista Cícero Junqueira Franco encheu com etanol o tanque do recém-lançado – e adquirido – Fiat 147 antes de se dirigir a Pereira Barreto (SP), onde visitaria a obra de construção da usina Pioneiros. O veículo, movido exclusivamente com o biocombustível, era à época a grande novidade do setor automotivo e ele soube pelos jornais que em Pereira Barreto, a 350 quilômetros de Morro Agudo (SP), onde morava, havia um posto que abastecia com álcool. A viagem poderia ser feita sem risco de ficar sem combustível, que na época não era facilmente encontrado. Ao chegar ao posto soube pelo proprietário que apenas a bomba tinha sido instalada. De etanol, nada havia. A opção do empresário para não ficar na estrada foi ir às farmácias e aos supermercados da cidade e comprar o que pudesse de álcool nas prateleiras, encher o tanque e voltar com o Fiat 147 até Morro Agudo.

A aventura do Sr. Cícero, um dos idealizadores do Programa Nacional do Álcool (ProÁlcool), já sinalizava como o combustível renovável seria tratado desde que passou a ser produzido em larga escala para abastecer veículos no País: com improviso e sempre sob um cenário conjuntural, sem qualquer planejamento estrutural.

Criado em novembro de 1975, o ProÁlcool só saiu do papel por causa da crise do petróleo, iniciada em 1973. Como 80% da gasolina brasileira era importada, o governo precisou de uma alternativa urgente à alta dos preços internacionais do petróleo. Por sorte, as usinas capazes de produzir também etanol tinham sido modernizadas, em um investimento do setor privado logo após uma disparada dos preços do açúcar.

À época, o governo controlava o setor e resolveu o problema conjuntural. Todos os veículos passariam a ter 15% de álcool anidro na gasolina, uma economia grande de divisas em dólares. A crise do petróleo voltou em 1979 e, como nenhuma medida estruturante fora tomada, o socorro veio de novo do álcool. A mistura à gasolina subiu para 20% e surgiram os carros movidos exclusivamente a álcool. O primeiro modelo foi o Fiat 147, igual ao do Sr. Cícero.

Outra medida foi obrigar todos os postos do País a terem ao menos um tanque e uma bomba com álcool. Logo a situação se normalizou e a desconfiança do consumidor com os motores que custavam a pegar no inverno foi superada pelo preço do etanol, à época metade do da gasolina. Até que em 1985, quando 95% dos veículos novos de passeio eram movidos a álcool, o preço do petróleo iniciou uma trajetória de queda.

A gasolina passou a ser mais competitiva e o etanol sofreu com uma crise de preços e de demanda. À época não havia os carros flex e o consumidor não tinha opção. Filas eram comuns nos postos para abastecimento com um combustível caro e escasso. Tudo isso, com o setor ainda controlado pelo governo e com a iniciativa privada lavando as mãos, pois o preço do açúcar no mercado internacional, em alta, garantia a receita de usineiros.

Desqualificado, o etanol foi praticamente abandonado até 2002, apesar de o setor sucroalcooleiro ter sido desregulamentado a partir de 1998. Em 2003 surgiram os primeiros carros flex fuel, ou bicombustíveis. Nesse caso o modelo pioneiro foi um Volkswagen Gol movido à gasolina, a álcool, ou a partir de qualquer mistura de ambos.

Mais uma vez sem qualquer plano para definir qual seria a demanda e como seria o crescimento da produção do combustível no futuro, a euforia contagiou setor privado e governo. Surgiu quase uma centena de novas usinas, gigantes mundiais compraram companhias no Brasil. Mas a conta precisava ser paga.

A crise mundial de liquidez, problemas pontuais do próprio setor e ainda impactos nas lavouras de cana-de-açúcar de longos períodos de chuva ou seca criaram uma tempestade perfeita para o setor de etanol entre 2008 e 2015. Para completar, a partir de 2011 o governo passou a controlar artificialmente o preço da gasolina, reduzindo a zero a Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) no combustível de petróleo para evitar impacto na inflação das altas dos preços nas distribuidoras.

Com o custo do etanol em alta, o preço limitado pela gasolina e sem a opção de migrar a produção mais para o açúcar, já que a commodity também enfrentava uma crise de preços, cerca de 80 usinas ou quebraram e fecharam, ou optaram pela recuperação judicial.

Mas, em 2015, quando completa 40 anos de uso maciço no País - com uma produção anual saindo de 600 milhões de litros para quase 30 bilhões de litros - o etanol ganhou um presente de aniversário. Como sempre, para resolver um problema conjuntural, o governo abriu mão do controle dos preços da gasolina, para socorrer a Petrobras e ainda ampliou a tributação do combustível de petróleo, para socorrer o próprio caixa. O mercado se recuperou, as vendas do etanol hidratado em outubro atingiram um recorde histórico mensal de 1,7 bilhão de litros na região Centro-Sul e o combustível bateu, semana passada, o recorde de preços nas usinas.

Seria a hora perfeita para governo e setor privado se reunirem e, enfim, discutirem medidas estruturantes que garantam um crescimento sustentável do setor que economizou cerca de US$ 350 bilhões só com as importações evitadas de petróleo nesses 40 anos de improviso.

José Roberto Gomes