Programas convergem em energia limpa, mas divergem sobre metas e execução
Por Pedro Côrtes*
A leitura de cinco programas de governo disponíveis no Tribunal Superior Eleitoral mostra que a agenda climática entrou definitivamente no debate econômico da eleição. Lula, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Renan Santos e Romeu Zema convergem na valorização da energia limpa, mas divergem sobre metas, instrumentos e formas de execução.
A diferença mais objetiva está nas emissões. Lula é o único dos cinco a incorporar ao programa uma meta nacional quantitativa: reduzir entre 59% e 67% as emissões líquidas até 2035, em relação a 2005.
Flávio Bolsonaro, Caiado, Renan e Zema não apresentam meta nacional equivalente nos documentos analisados, concentrando-se em mercado de carbono, soluções setoriais de baixo carbono ou remoção de carbono.
Na eletricidade, a distância diminui. Lula combina renováveis, armazenamento e transmissão. Flávio Bolsonaro também propõe expandir renováveis e armazenamento e modernizar a transmissão. Caiado associa renováveis e armazenamento à modernização das hidrelétricas.
Renan quer destravar a transmissão, retomar Angra 3, explorar o hidrogênio verde e acompanhar o desenvolvimento da fusão nuclear (embora as pesquisas indiquem uma viabilidade econômica para essa tecnologia em 20 ou 30 anos).
Zema enfatiza reduzir o desperdício da geração solar e eólica já instalada e usar energia renovável para eletrificar a economia.
Os biocombustíveis revelam estratégias distintas. Lula pretende ampliar etanol, biodiesel, biometano e combustível sustentável de aviação (SAF), além de fortalecer o RenovaBio. Flávio quer transformar o Brasil em potência do setor e internacionalizar o programa.
Caiado propõe um Plano Decenal de Bioenergia, integrando etanol, biodiesel, biometano e bioeletricidade. Zema concentra-se na abertura de mercados internacionais para biocombustíveis avançados, embora não especifique quais seriam eles. No resumo executivo de Renan, não há política específica para o setor.
No desmatamento, as próprias métricas diferem. Lula reafirma o objetivo de desmatamento líquido zero até 2030. Flávio estabelece desmatamento ilegal zero até 2029, apoiado por inteligência artificial, dados em tempo real e satélites.
Caiado combina fiscalização e inteligência financeira para atingir também financiadores e compradores de produtos ilegais. Zema propõe integrar segurança, órgãos ambientais e Justiça, com monitoramento por satélite.
O resumo de Renan reconhece a relação entre rodovias e desmatamento na Amazônia, mas não detalha estratégia específica de combate.
Para empresas e investidores, o divisor mais relevante talvez esteja menos no reconhecimento da agenda climática do que na arquitetura de execução.
Expandir renováveis exige redes e armazenamento; biocombustíveis dependem de regulação, certificação e mercado; controlar o desmatamento requer fiscalização, inteligência fundiária e capacidade institucional.
Essa diferença também impede que metas sejam comparadas apenas pelo prazo. Uma meta quantitativa facilita a cobrança de resultados, mas precisa de instrumentos para sair do papel. Propostas baseadas em mercado ou fiscalização, por sua vez, dependem de regras estáveis, recursos e capacidade de implementação.
A comparação exige ainda uma ressalva: o documento de Renan analisado é um resumo executivo, mais sintético que os demais. Ausência de detalhamento nesse material não significa necessariamente ausência no programa completo.
Nessa análise, foram considerados somente os textos oficiais cadastrados no TSE; não é o caso do programa completo de Renan Santos.
A eleição mostra, portanto, que o debate já não é simplesmente aceitar ou rejeitar a transição. A disputa está em como executá-la, financiá-la e distribuir seus custos e oportunidades. É nessa passagem da promessa para a implementação que os programas enfrentarão seu teste mais importante.
* Pedro Côrtes é professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e especialista em clima e meio ambiente
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