Por Lívea Coda*
Apesar de uma entrega robusta para o contrato de julho, os preços do açúcar registraram uma recuperação surpreendente, mantendo seus ganhos e permanecendo acima do nível de 20 centavos de dólar por libra-peso durante a semana passada. O período teve menos dias de negociação devido ao feriado de 4 de julho nos Estados Unidos.
A força do açúcar se deveu, principalmente, ao seu próprio mercado – impulsionado por fatores técnicos e por uma recuperação de preços no setor de energia –, que superou a recuperação do dólar americano.
O movimento recente é atribuído em grande parte às preocupações com os números da produção do Centro-Sul. A falta de chuva aumentou o pessimismo com relação à capacidade do país de atingir o mix de açúcar previsto anteriormente.
Embora o último relatório da União da Indústria de Cana-de-açúcar e Bioenergia (Unica) estivesse de certa forma alinhado com as expectativas do mercado, muitos analistas se sentiram compelidos a revisar suas projeções depois de mais uma quinzena com números inferiores a 50%.
Revisamos nossos números no início de junho para 51,2% e acreditamos que esse valor ainda pode ser alcançado se, na segunda quinzena de junho, a região ultrapassar o nível de 50% de mix de açúcar. Isso torna o monitoramento do relatório da Unica essencial para entender os movimentos dos preços.

Embora haja outras notícias a serem monitoradas, como o desenvolvimento das monções na Índia e o clima na Tailândia, o Brasil é atualmente a principal força de alta e as revisões de sua produção esperada podem desencadear movimentos de preços mais radicais.
No entanto, para que a produção de açúcar caia para um valor abaixo de 41 milhões de toneladas, aumentando a pressão sobre os fluxos comerciais, o mix de açúcar do Centro Sul precisa ser menor que 50,4% em 2024/25. Para retirar 1 milhões de toneladas – o que poderia, de fato, levar a uma escassez mais relevante e sustentar os preços do açúcar –, o mix de açúcar precisa cair para 50%.


Entretanto, os preços continuam favoráveis para o adoçante mesmo com a maior demanda por etanol hidratado e com as vendas domésticas das usinas atingindo os níveis de 2020.
Atualmente, os preços do açúcar (20,15 centavos de dólar por libra-peso) oferecem um prêmio de 540 pontos sobre o contrato B3 do biocombustível (14,7 centavos de dólar por libra-peso). Esse prêmio aumenta para 600 pontos quando a polarização e os prêmios do físico são considerados (21 centavos de dólar por libra-peso versus 15,1 centavos de dólar por libra-peso para o contrato B3, incluindo CBios).
Consequentemente, não há previsão de mudança na priorização das usinas. Assim, a qualidade da cana-de-açúcar é o único risco para o mix açucareiro no momento.
A falta de chuva e o desenvolvimento mais fraco da cana foram citados como os principais motivos para o mix mais baixo até o momento. Muitos no mercado também estão preocupados com os resultados do final da temporada, no entanto, a produtividade da cana não tem sido tão ruim quanto se temia, com os resultados de abril e maio representando os segundos melhores valores acumulados já registrados.

Assim, o próximo relatório da Unica será crucial para fornecer informações sobre o que esperar do restante da temporada. Se o mix de açúcar permanecer abaixo de 50%, será um desafio atingir um nível acumulado acima de 51%. Isso não implica em uma mudança nas decisões das usinas, conforme discutido anteriormente, mas pode aumentar a apreensão do mercado.
Atualmente, consideramos altamente improvável que o mix de açúcar no final da temporada caia para 50%, o que significa que o caso de estresse seria o pior cenário. Portanto, embora o início de 2025 possa ser apertado, ele não se compara ao mercado deficitário que era esperado para o ano passado, no início da safra 2023/24. Também não se espera que os preços retornem aos níveis anteriores.
Além disso, enquanto aguardamos novos desenvolvimentos na região Centro-Sul, é importante monitorarmos os principais fatores que influenciam os contratos de 2025: as monções estão progredindo bem; a intensidade do La Niña foi revisada para baixo; espera-se que as condições climáticas na Tailândia melhorem; a agência Mars continua otimista em relação a produtividade da EU; e espera-se que a China tenha maior disponibilidade.
Nesse contexto, as preocupações com a produção brasileira devido à redução das chuvas parecem ser o único fator que sustenta os preços em um mercado que, de outra forma, estaria em baixa.
* Lívea Coda é coordenadora de inteligência de mercado na Hedgepoint Global Markets e será uma das palestrantes da Conferência NovaCana 2024. Clique aqui para acessar a programação completa do evento.
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