Quem acompanha as notícias sobre o mercado sucroenergético está sempre ouvindo que produzir etanol hoje no Brasil está dando prejuízo. Será mesmo?Os pedidos por uma política de longo prazo para o etanol são comumente acompanhados de argumentos sobre a falta de rentabilidade no setor.
Para explorar o assunto, o portal NovaCana foi atrás dos renomados pesquisadores do Pecege, verificou a evolução dos preços das últimas safras do Cepea e ainda ouviu a Orplana com os últimos dados dos custos de produção de cana.
E ainda:
· O prejuízo médio de todo o setor sucroalcooleiro
· As perspectivas de custo de produção de cana e de etanol para a safra 2013/14
· Os custos de mecanização aumentaram quase 100% em cinco anos, veja as explicações
· Tabela com o preço médio do etanol anidro e hidratado nas últimas 13 safras
· Custo X preço da tonelada de cana nas últimas cinco safras
Quem acompanha as notícias sobre o mercado sucroenergético está sempre ouvindo que produzir etanol e plantar cana hoje no Brasil está dando prejuízo. Será mesmo?
O gestor de projetos do Programa de Educação Continuada em Economia e Gestão de Empresas (Pecege), da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), Carlos Xavier, é categórico na resposta: "O rendimento médio apresentou mais de 10% de prejuízo".
A afirmação é feita com base nos dados do custo agroindustrial da produção de etanol e do preço do etanol produzido com uma tonelada de cana. Segundo o Pecege, em 2012/2013, o custo agroindustrial ficou em R$ 113. Enquanto isso, o preço de 85 litros de etanol, numa média entre anidro e hidratado, foi de R$ 102,85.
O resultado vai ao encontro daquilo que afirmam representantes do setor: há um descompasso entre os custos de produção e o preço do etanol. O fato é corroborado por pesquisas do Pecege, as quais indicam que o valor de alguns dos fatores que compõem o custo agroindustrial, como mecanização, subiu mais de 60%. "O custo de mecanização na última safra foi de R$22,43 por tonelada de cana produzida. Há cinco anos, ele era de R$ 13,75", conta Xavier.
A explicação para isso não está apenas no cumprimento de normas ambientais e trabalhistas. "No caso da mecanização, que inclui maquinário, manutenção, serviços de reparo e custos da própria indústria, o que aconteceu ano passado foi um aumento no preço do diesel. Além disso, a produtividade foi baixa, o que faz com que o rendimento por máquina seja menor com o mesmo custo por hora, ou seja, o custo de produção aumenta muito", explica o representante do Pecege.
Outro aumento significativo foi no preço da produção de cana pela própria usina de etanol, que, segundo dados do Pecege, passou de R$ 45,91, em 2007/2008, para R$ 74,76 na safra passada. No caso da mão de obra e insumos (fertilizantes, produtos químicos usados no processo, etc.), o acréscimo no valor foi de 12,25% e 6,25%, respectivamente.
Enquanto isso, as médias de preço do etanol hidratado e anidro ficaram, na safra 2012/2013, igual a e abaixo da média dos últimos 13 anos, respectivamente, de acordo com análise divulgada pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Avançada (Cepea), também ligado à Esalq/USP, no início de março.
Numa análise das médias anuais, os preços da safra passada ficam abaixo da anterior, porém, acima dos de 2007/2008, mesmo ano dos dados apresentados pelo Pecege. Este aumento, contudo, não acompanha o crescimento dos custos. O etanol anidro, que naquela safra custava R$ 1,10 por litro, passou a custar R$ 1,28 em 2012/2013, ou seja, ficou 16% mais caro. Já o hidratado, foi de R$0,95 para R$ 1,14, um aumento de 20% (veja tabelas abaixo).
A justificativa para isso está, em partes, no chamado "teto da gasolina". "Os preços [do hidratado] conseguem subir até um limite, o "teto da gasolina". Depois disso, não faz mais sentido subir, porque ninguém vai comprar", afirma Xavier. Em outras palavras, não é apenas uma diminuição nos custos que pode balancear esta relação, mas também o aumento do preço da gasolina.
Os números da Orplana indicam ainda que o aumento no custo de produção foi de 56%, de 2007/2008 para cá. "Basicamente, você tem incorporação do aumento na mão de obra, em alguns itens tributários, em custos para seguir normativas ambientais e trabalhistas, na mecanização e no frete", enumera o diretor-presidente da Orplana, Ismael Perina Júnior.
Ele diz ainda que, destes, os fatores que mais influenciaram os custos foram mão de obra e frete. "Não houve só aumento no salário. Como a economia teve reflexos de crescimento, começou a ter competição por mão de obra em algumas obras, principalmente com a construção civil", esclarece. No caso do transporte da cana, houve um reajuste acima de 20% devido a novas regulamentações sobre o tempo de trabalho dos motoristas e ao aumento no preço do diesel.
"O que pesou bastante também foi a queda na produtividade. Quando cai a produtividade, automaticamente o custo sobe", afirma. "Hoje, infelizmente, o custo está maior do que a gente recebe. Para reverter isso [a curto prazo], só se diminuirmos a produção. Mas acredito que o país perde mais com isso", diz Perina Júnior, que ainda lamenta que as ações do governo que podem beneficiar o setor sejam tão lentas.
Segundo ele, a expectativa é que os preços do etanol subam, devido ao aumento no preço da gasolina e aos benefícios do governo, enquanto os do açúcar devem cair ainda mais.
Para os plantadores de cana, porém, isso não é certeza de uma melhora. "Os preços apontados para a próxima safra não vão trazer remuneração e os agricultores não têm jeito de fugir disso, porque têm canaviais plantados, já com quatro ou cinco anos de produção", conclui Perina Júnior.
Vivian Faria - NovaCana
Para explorar o assunto, o portal NovaCana foi atrás dos renomados pesquisadores do Pecege, verificou a evolução dos preços das últimas safras do Cepea e ainda ouviu a Orplana com os últimos dados dos custos de produção de cana.
E ainda:
· O prejuízo médio de todo o setor sucroalcooleiro
· As perspectivas de custo de produção de cana e de etanol para a safra 2013/14
· Os custos de mecanização aumentaram quase 100% em cinco anos, veja as explicações
· Tabela com o preço médio do etanol anidro e hidratado nas últimas 13 safras
· Custo X preço da tonelada de cana nas últimas cinco safras
Quem acompanha as notícias sobre o mercado sucroenergético está sempre ouvindo que produzir etanol e plantar cana hoje no Brasil está dando prejuízo. Será mesmo?
O gestor de projetos do Programa de Educação Continuada em Economia e Gestão de Empresas (Pecege), da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), Carlos Xavier, é categórico na resposta: "O rendimento médio apresentou mais de 10% de prejuízo".
A afirmação é feita com base nos dados do custo agroindustrial da produção de etanol e do preço do etanol produzido com uma tonelada de cana. Segundo o Pecege, em 2012/2013, o custo agroindustrial ficou em R$ 113. Enquanto isso, o preço de 85 litros de etanol, numa média entre anidro e hidratado, foi de R$ 102,85.
O resultado vai ao encontro daquilo que afirmam representantes do setor: há um descompasso entre os custos de produção e o preço do etanol. O fato é corroborado por pesquisas do Pecege, as quais indicam que o valor de alguns dos fatores que compõem o custo agroindustrial, como mecanização, subiu mais de 60%. "O custo de mecanização na última safra foi de R$22,43 por tonelada de cana produzida. Há cinco anos, ele era de R$ 13,75", conta Xavier.
A explicação para isso não está apenas no cumprimento de normas ambientais e trabalhistas. "No caso da mecanização, que inclui maquinário, manutenção, serviços de reparo e custos da própria indústria, o que aconteceu ano passado foi um aumento no preço do diesel. Além disso, a produtividade foi baixa, o que faz com que o rendimento por máquina seja menor com o mesmo custo por hora, ou seja, o custo de produção aumenta muito", explica o representante do Pecege.
Outro aumento significativo foi no preço da produção de cana pela própria usina de etanol, que, segundo dados do Pecege, passou de R$ 45,91, em 2007/2008, para R$ 74,76 na safra passada. No caso da mão de obra e insumos (fertilizantes, produtos químicos usados no processo, etc.), o acréscimo no valor foi de 12,25% e 6,25%, respectivamente.
Enquanto isso, as médias de preço do etanol hidratado e anidro ficaram, na safra 2012/2013, igual a e abaixo da média dos últimos 13 anos, respectivamente, de acordo com análise divulgada pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Avançada (Cepea), também ligado à Esalq/USP, no início de março.
Numa análise das médias anuais, os preços da safra passada ficam abaixo da anterior, porém, acima dos de 2007/2008, mesmo ano dos dados apresentados pelo Pecege. Este aumento, contudo, não acompanha o crescimento dos custos. O etanol anidro, que naquela safra custava R$ 1,10 por litro, passou a custar R$ 1,28 em 2012/2013, ou seja, ficou 16% mais caro. Já o hidratado, foi de R$0,95 para R$ 1,14, um aumento de 20% (veja tabelas abaixo).
A justificativa para isso está, em partes, no chamado "teto da gasolina". "Os preços [do hidratado] conseguem subir até um limite, o "teto da gasolina". Depois disso, não faz mais sentido subir, porque ninguém vai comprar", afirma Xavier. Em outras palavras, não é apenas uma diminuição nos custos que pode balancear esta relação, mas também o aumento do preço da gasolina.
Prejuízo também para os produtores de cana
Os agricultores que vendem cana para as usinas de etanol também tiveram prejuízo na safra passada, mas numa escala um pouco menor: 3,5%. Segundo dados da Organização de Plantadores de Cana da Região Centro-Sul do Brasil (Orplana), o custo de produção de uma tonelada de cana foi de R$ 67,79 e o preço de venda foi de R$ 65,42.Os números da Orplana indicam ainda que o aumento no custo de produção foi de 56%, de 2007/2008 para cá. "Basicamente, você tem incorporação do aumento na mão de obra, em alguns itens tributários, em custos para seguir normativas ambientais e trabalhistas, na mecanização e no frete", enumera o diretor-presidente da Orplana, Ismael Perina Júnior.
Ele diz ainda que, destes, os fatores que mais influenciaram os custos foram mão de obra e frete. "Não houve só aumento no salário. Como a economia teve reflexos de crescimento, começou a ter competição por mão de obra em algumas obras, principalmente com a construção civil", esclarece. No caso do transporte da cana, houve um reajuste acima de 20% devido a novas regulamentações sobre o tempo de trabalho dos motoristas e ao aumento no preço do diesel.
"O que pesou bastante também foi a queda na produtividade. Quando cai a produtividade, automaticamente o custo sobe", afirma. "Hoje, infelizmente, o custo está maior do que a gente recebe. Para reverter isso [a curto prazo], só se diminuirmos a produção. Mas acredito que o país perde mais com isso", diz Perina Júnior, que ainda lamenta que as ações do governo que podem beneficiar o setor sejam tão lentas.
Perspectivas para 2013/2014
Levando em conta a perspectiva de uma boa produtividade agrícola para a safra que se inicia, os custos de produção do etanol devem se manter os mesmos ou cair levemente. "Vamos realizar esta pesquisa de forma rigorosa em maio, mas, antecipando as expectativas, os custos de maquinário devem cair, assim como o de compra de cana. A mão de obra vai, provavelmente, subir um pouco", avalia Carlos Xavier.Segundo ele, a expectativa é que os preços do etanol subam, devido ao aumento no preço da gasolina e aos benefícios do governo, enquanto os do açúcar devem cair ainda mais.
Para os plantadores de cana, porém, isso não é certeza de uma melhora. "Os preços apontados para a próxima safra não vão trazer remuneração e os agricultores não têm jeito de fugir disso, porque têm canaviais plantados, já com quatro ou cinco anos de produção", conclui Perina Júnior.
Vivian Faria - NovaCana