“Às vésperas da safra 2019/20 no Centro-Sul, a trajetória de preço do petróleo virou peça-chave na estratégia comercial [das usinas]. E, com a volta recente do preço brent para US$ 60 por barril, o ano novo começou bem”, afirma Andy Duff
O mercado internacional de açúcar está se preparando para uma virada na relação internacional entre produção e consumo – que pode passar do superávit para o déficit já nessa safra. Segundo especialistas, um elemento que fará bastante diferença nessa balança é a estratégia que será adotada pelas usinas brasileiras, ou seja, o mix de produção.
Em 2018, os baixos preços do adoçante no mercado internacional e a competitividade do etanol no mercado doméstico levaram as companhias a maximizar a produção do biocombustível. Mas os altos estoques de etanol na entressafra, a possibilidade de uma gasolina mais barata nos postos do país e a chance de queda na produção indiana de açúcar podem estimular uma mudança nesse quadro para a safra 2019/20, que começa em abril.
“Até a subida do preço mundial de açúcar, em outubro, era dado que 2019/20 deveria ser mais uma safra de maximização da produção de etanol”, comenta o especialista setorial do Rabobank, Andy Duff. De acordo com ele, em um contexto com um balanço mundial de açúcar mais apertado, a expectativa é que o Brasil aumente suas exportações da commodity: “Mas, para catalisar essa resposta, o preço de açúcar teria que estar suficientemente alto em comparação ao preço de etanol”.
A seguir, entenda os fatores que podem tornar a exportação de açúcar mais vantajosa para as usinas brasileiras – e as faixas de preço que tornariam essa competitividade possível.
O mercado internacional de açúcar está se preparando para uma virada na relação internacional entre produção e consumo – que pode passar do superávit para o déficit já nessa safra. Segundo especialistas, um elemento que fará bastante diferença nessa balança é a estratégia que será adotada pelas usinas brasileiras, ou seja, o mix de produção.
Em 2018, os baixos preços do adoçante no mercado internacional e a competitividade do etanol no mercado doméstico levaram as companhias a maximizar a produção do biocombustível. Mas os altos estoques de etanol na entressafra, a possibilidade de uma gasolina mais barata nos postos do país e a chance de queda na produção indiana de açúcar podem estimular uma mudança nesse quadro para a safra 2019/20, que começa em abril.
“Até a subida do preço mundial de açúcar, em outubro, era dado que 2019/20 deveria ser mais uma safra de maximização da produção de etanol”, comenta o especialista setorial do Rabobank, Andy Duff. De acordo com ele, em um contexto com um balanço mundial de açúcar mais apertado, a expectativa é que o Brasil aumente suas exportações da commodity: “Mas, para catalisar essa resposta, o preço de açúcar teria que estar suficientemente alto em comparação ao preço de etanol”.

A estimativa atual do banco, divulgada em dezembro, é que haja um excedente de 0,5 milhões de toneladas na safra global 2018/19 (outubro a setembro).
O petróleo é o teto
Segundo cálculos do Rabobank, apresentados por Duff em podcast do próprio banco, com o petróleo brent a US$ 60/barril e o câmbio em torno de R$ 3,80, seria necessário um preço do açúcar bruto, base Nova York, ao redor de 14 centavos de dólar por libra-peso para convencer as usinas do Centro-Sul a aumentarem a destinação de matéria-prima a favor do açúcar.
“Em contraste, com o preço brent em US$ 45/barril, Nova York teria que ser 12 centavos por libra-peso para favorecer a produção de açúcar”, complementa.
Isso acontece porque o preço internacional do petróleo afeta diretamente o valor cobrado pela Petrobras nas refinarias do país. Assim, o valor mais alto resulta em uma gasolina também mais cara, aumentando a competitividade do etanol e a margem de negociação das usinas com as distribuidoras de combustíveis. Com o etanol mais lucrativo, as usinas são desestimuladas a fabricar açúcar.

“Em combinação com o câmbio, o preço de petróleo em 2019 acabará estabelecendo um teto para o preço mundial de açúcar”, relata Duff. Assim, em um cenário com queda no valor do barril de petróleo, o açúcar volta para o radar das usinas brasileiras: “Ao contrário do ano passado, o Brasil poderia aumentar a produção de açúcar em até 10 milhões de toneladas caso a arbitragem entre o açúcar e o etanol favoreça o açúcar”.
Dificuldades brasileiras
Mas a definição das estratégias das usinas brasileiras em 2019 também deve levar em consideração outros pontos, como o próprio tamanho da safra. Segundo Duff, o volume e a qualidade da cana na safra 2019/20 do Centro-Sul dependerão muito do clima neste primeiro trimestre de 2019.
Ainda de acordo com ele, as chuvas atípicas do inverno passado já asseguraram um bom começo ao ciclo de crescimento do canavial. Entretanto, as chuvas de dezembro e da primeira parte de janeiro ficaram abaixo do normal na maioria das regiões de cana, o que tem gerado preocupações.
“Por enquanto, a expectativa preliminar para a disponibilidade de cana não deve ser muito diferente da moagem de 2018/19, ou seja, em torno de 560 milhões de toneladas”, afirma.
Mas as dificuldades das usinas do país vão além da influência do clima – e a capacidade de investir, tanto no campo quanto na indústria, traz suas consequências. “Para empresas com uma alta robustez financeira não há falta de oferta de crédito a taxas competitivas. E, assim, elas conseguem aproveitar oportunidades como, por exemplo, as geradas pela sazonalidade do preço de etanol”, relata.
Em contrapartida, as empresas com uma saúde financeira mais debilitada devem permanecer em risco de cair em um ciclo vicioso de margens apertadas e investimentos insuficientes.
Dilema indiano
Globalmente, embora o Rabobank ainda aposte em um excedente de 0,5 milhões de toneladas para a safra 2018/19, Duff classifica esse valor como “irrisório” e aponta que, para as safras seguintes, há um sentimento geral crescente de virada do ciclo mundial, com déficit previsto para 2020.
De acordo com o especialista, produtores de cana e de beterraba ao redor do mundo foram afetados financeiramente em 2018, um ano de preços baixos de açúcar, ao mesmo tempo em que os preços de vários outros cultivos subiram fortemente, entre eles o trigo e a mandioca. “Sob tais condições seria natural ver menos investimentos nas lavouras, junto com perda de área para cultivos mais rentáveis”, alega.
Ao mesmo tempo, com uma menor produção, surge também a visão de que o pior do ciclo de baixa já passou. Conforme Duff, o mercado mundial de açúcar está entrando em uma fase de mais equilíbrio entre oferta e demanda e, portanto, dá sinais positivos para os preços em 2019 e 2020.
Esses indicativos, contudo, não representam uma certeza. Um dos principais pontos de atenção é a situação na Índia, que ainda precisa lidar com estoques elevados. O especialista relata que nem mesmo os subsídios do governo conseguiram encorajar as exportações, sugerindo que há pouco interesse dos usineiros do país em exportar a preços abaixo de 12 centavos de dólar por libra-peso.
“Isso coloca o governo indiano em uma saia justa. A ideia de incentivar as exportações foi para aumentar o fluxo de caixa das usinas, garantindo que os fornecedores de cana receberiam seus pagamentos antes da eleição no primeiro semestre”, relata e continua: “De fato, o assunto do pagamento já está virando polêmico, com fornecedores no estado de Maharashtra fazendo manifestações e bloqueios de estradas”.
Na Índia, tanto o preço de compra da cana-de-açúcar quanto o valor de venda do adoçante no mercado doméstico são controlados pelo governo. Assim, com os altos estoques e o baixo volume de exportações, Duff conta que o governo estaria analisando elevar o preço doméstico do açúcar, o que aliviaria o mercado internacional.
Ouça o podcast Foco no Agronegócio
Renata Bossle – NovaCana