O preço do milho tende a cair ainda mais até o fim do ano. A avaliação é do consultor Paulo Molinari, da Safras & Mercado. Ele afirmou que as cotações internacionais não têm espaço para subir diante da entrada de grandes volumes e projetou que o contrato para dezembro na Bolsa de Chicago, hoje próximo dos US$ 4,70 por bushel, pode chegar à casa dos US$ 4,30 nos próximos meses.
Em evento transmitido via internet pela consultoria, Molinari destacou que, apesar dos efeitos do clima mais quente e seco no Meio-Oeste, a situação dos Estados Unidos é confortável. A produção estimada pelo Departamento de Agricultura do país (USDA), de 384,4 milhões de toneladas, está entre as maiores da história.
“Mesmo com aumento de demanda interna e de exportação, o estoque americano sobe. Precisaria ter alguma coisa nova, que não estamos precificando hoje. Não tem nada projetado para mudar essa trajetória. Chicago, no milho, continua sendo de baixa”, afirmou o consultor.
Com a entrada da safra americana, ressaltou Molinari, a China passará a ter outra opção de fornecedor, além do Brasil, para atender sua demanda. Para completar, há a própria safra interna, que deve começar a ser colhida em outubro.
O consultor lembrou que a chegada da chuva no Meio-Oeste estadunidense tende a melhorar o calado do Rio Mississippi e, consequentemente, a capacidade de transporte dos navios, colocando o grão dos Estados Unidos à disposição. De outro lado, a desvalorização da moeda chinesa, o Yuan, limita a capacidade de importação do país asiático.
“Isso acaba impedindo as commodities de subir de preço. Se a moeda está muito desvalorizada, os preços em dólar têm que cair para manter as vendas dentro do mercado chinês. As commodities não conseguem subir por causa dessa limitação de importações”, explicou.
Puxadas pela China, as exportações brasileiras de milho têm registrado recordes neste ano. De janeiro a agosto, foram 25,22 milhões de toneladas, com receita de US$ 6,6 bilhões. Os chineses compraram 4,6 milhões de toneladas no período, o equivalente a US$ 1,12 bilhão.
Na avaliação da Safras & Mercado, o Brasil deve exportar neste ano até 53 milhões de toneladas de milho. Para Paulo Molinari, o país tem produto para ofertar e há demanda. Nas estimativas da consultoria, a comercialização da safrinha 2022/23 está em 48,6%, para uma média de 60,8% para esta época nos últimos cinco anos. Ainda há um grande volume a ser vendido nos próximos meses.
“A exportação de outubro a janeiro será importantíssima para determinar se teremos mais ou menos pressão de venda”, disse ele. “sem subir preço no porto nem uma super exportação, o mercado não tem fôlego para subir no Brasil, a não ser que haja alguma coisa nova no ambiente internacional”, pontuou.
Para a safra brasileira de milho 2023/24, a Safras & Mercado projeta uma colheita de verão de 26,91 milhões de toneladas. A área plantada está projetada em 4,08 milhões de hectares, mas deve ser revisada para baixo. Segundo Molinari, em São Paulo, Paraná, Goiás e Mato Grosso, o produtor está mais propenso a voltar a plantar uma área maior de soja, o que tende a tirar espaço do cereal.
“O estoque, mais a safra de verão, atende à demanda interna no primeiro semestre. Pode ter altas no primeiro semestre? Pode. O mercado é sempre mais justado e mais apertado”, disse ele, estimando reservas de passagem de 10 milhões de toneladas do cereal.
Para a segunda safra, a projeção é de 96,45 milhões de toneladas (em 2022/23, foram 100,16 milhões). Paulo Molinari avaliou que os preços atuais do grão estão levando o produtor a “atrasar” a decisão de plantio. A tendência é de uma área plantada próxima da anterior, de pouco mais de 15 milhões de hectares, mas com um nível de tecnologia menor.
“O produtor, possivelmente, vai voltar a plantar um milho de 70, 80 sacas, e não de 150 sacas por hectare, como plantou neste ano. Isso pode dar uma nivelada para baixo nas produtividades. Se o clima for bom, não tem muito problema”, disse.
Raphael Salomão