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A visão das tradings: Preço, fixação e déficit, o futuro do mercado de açúcar

acucr colher 011116O bom momento nos preços internacionais do açúcar e as perspectivas positivas não estão, necessariamente, fazendo os usineiros brasileiros sorrirem. Um dos problemas está na capacidade das usinas investirem. Contudo, a dinâmica nacional e as mudanças no mercado já estão determinando o futuro do setor no curto prazo e trazem impactos que exigem atenção imediata dos usineiros

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O bom momento nos preços internacionais do açúcar e as perspectivas positivas não estão, necessariamente, fazendo os usineiros brasileiros sorrirem. Um dos problemas está na capacidade das usinas investirem.

Contudo, a dinâmica nacional e as mudanças no mercado já estão determinando o futuro do setor no curto prazo e trazem impactos que exigem atenção imediata dos usineiros.

Saiba mais sobre o que pensam os negociadores:

- Panorama de investimentos e perspectivas

- Impactos do déficit global de açúcar

- Estimativas de preço e cenários de fixação

- Mercado mundial de açúcar branco

- Perspectivas do fim das cotas europeias

- Como fica o etanol hidratado nesse contexto

O bom momento nos preços internacionais do açúcar e as perspectivas positivas não estão, necessariamente, fazendo os usineiros brasileiros sorrirem. Ao menos essa é a avaliação do diretor geral da Sucden, Jeremy Austin. Ele esteve presente com outros representantes de tradings e consultorias na Conferência Datagro.

“Mesmo com preços a 23 centavos de dólar [por libra-peso], não vejo muita gente sorrindo. Eu gostaria de ver mais, mas ninguém terá esse impacto no balanço deste ano”, relata. Ele explica que o resultado da alta nos preços só poderá ser sentido no mercado com os balanços de companhias brasileiras em março de 2018 e que, até lá, o setor precisará da ajuda de parceiros financeiros para que novos investimentos aconteçam. “Isso [março de 2018] é um pouco tarde para os investimentos. E qualquer coisa na produção precisa de investimento”.

Mas a ‘ajuda’ conta com um grande inimigo, o alto endividamento de muitas companhias. Conforme aponta o CEO da VA&E Trading, Clóvis Junqueira, mesmo dentro de um cenário positivo é difícil fazer apostas no setor sucroenergético. “Hoje, o setor deve uma safra. Você tem esse cenário de preços maravilhoso, mas você trabalha para pagar o serviço da dívida”, aponta.

“Se você perguntar para mim se eu quero investir no setor, para ficar pagando juros pelo resto da vida, bom, eu não quero. E isso dentro desse cenário positivo”, Clóvis Junqueira (VA&E)

Vinda de um executivo da VA&E, essa declaração tem ainda mais peso. A atuação da companhia, que é a segunda maior exportadora de açúcar branco do país, trouxe uma estratégia diferenciada ao fazer acordos tanto com os fornecedores de cana quanto com a usina. O modelo envolve o fornecimento de insumos, como defensivos e fertilizantes, em troca da matéria-prima. Depois, com a cana-de-açúcar em mãos, a trading se torna a fornecedora da usina, recebendo a garantia de que comercializará sua produção de açúcar.

Déficit de açúcar: a perspectiva é boa ou ruim?

A expectativa das tradings também envolve o prolongamento do déficit global de açúcar por, pelo menos, cinco anos. Com isso, o patamar de preços permaneceria elevado e as usinas teriam tempo para se reposicionar financeiramente.

“A posição dos fundos é importante, pois ela afeta o mercado, dá um direcionamento. É uma questão muito ligada também à oferta e demanda”, relata o sênior trader da ADM do Brasil, Stuart Maron. De acordo com ele, o próprio mercado é capaz de antecipar as expectativas – e o próprio déficit seria um exemplo disso. “Não é uma surpresa o que está sendo falado agora sobre déficits de até nove bilhões de toneladas”, completa.

O trader aproveita e explica um dilema que os usineiros conhecem bem, onde a demanda cresce de forma linear – em torno de 2% ao ano –, mas a produção aumenta em ciclos, de modo que surgem momentos de excedente e de déficit. “Um dos países que mais contribui para isso é o Brasil. Vivemos isso saltando da ordem de 300 milhões de toneladas para 600 milhões de toneladas em 15 anos”, exemplifica.

Contudo, o atual endividamento das usinas deve frear o que poderia ser uma retomada dos investimentos. Ou seja, Maron acredita que as sucroenergéticas não terão capacidade de aumentar a produção em breve, gerando um período de déficit particularmente longo e, consequentemente, dando continuidade ao patamar elevado de preços.

“O Brasil tem condições de surfar nessa onda de preços por alguns anos, principalmente se tiver juízo e se não fizer um crescimento desenfreado de unidades, como aconteceu 10 anos atrás”, Stuart Maron (ADM do Brasil)

Entretanto, o interesse em aumentar a produção pode vir de outros países. Segundo o diretor geral da Sucden, Jeremy Austin, o déficit deve se manter nos próximos anos, mas haverá quem se interesse por cobri-lo parcialmente.

“A Europa fará parte disso. A Índia está prevendo, já para a safra 2017/18, voltar a 28 milhões de toneladas de produção. O Cazaquistão está atraindo investimentos por causa de uma ferrovia indo para a China. Aliás, a China talvez seja a grande pergunta”, enumera.

“Nosso crescimento tem que ser organizado. Não adianta sair construindo usina agora. É melhor você ter menos com mais lucratividade e por mais tempo”, Stuart Maron (ADM do Brasil)

Clóvis Junqueira, da VA&E, concorda com essa perspectiva. De acordo com ele, haverá a necessidade de um adicional de 26 milhões de toneladas de açúcar em 2023. Um aumento na capacidade de cristalização poderia ajudar, mas, segundo o executivo, não resolveria ‘a essência do problema’.

“A gente precisa plantar mais 230 milhões de toneladas de cana para atender a demanda. Mas vamos plantar como? O modelo de negócios está certo? É eficiente ter uma usina de açúcar que moa cinco milhões de toneladas?”, indaga.

Fixação de preços: Bateu mil reais, fixa?

Enquanto um novo ciclo de crescimento de produção não chega, os produtores aproveitam um momento de alta nos preços. Para o diretor da Archer Consuting, Arnaldo Luiz Corrêa, o valor de mil reais por tonelada de açúcar representa a linha que separa as boas oportunidades das demais.

“Há pouco mais de um ano, muitas usinas tinham como ordem vinda de cima o seguinte: ‘bateu mil reais, fixa’”, relata. Atualmente, algumas negociações até ultrapassaram a marca de R$ 1.700 – e há quem aposte que o preço da tonelada de açúcar chegue a R$ 2.200. “Parece que não tem crivo, mas isso acontece em qualquer commodity”, conclui.

“A pior coisa é aquele sentimento de que você deixou passar uma oportunidade. Então, não perca a chance de fixar seus preços”, Arnaldo Corrêa (Archer Consulting)

Com essa perspectiva, a fixação de preços e o momento de aproveitar boas oportunidades se tornam incógnitas. Mas para evitar dúvidas, Clóvis Junqueira aconselha: “Eu nunca vi uma empresa quebrar dando lucro. Então, para um produtor que tenha condições de fixar os preços ao nível de mercado, minha resposta seria: ‘fixa’”.

Entretanto, Junqueira também aponta que a atual situação dos débitos das usinas não permite que muitas tradings façam fixações para um prazo superior a um ano. Assim, muitos empresários acabam tendo que esperar seu momento para fixar, uma situação complicada no atual momento do mercado.

De acordo com ele, a margem atual é interessante para os usineiros. Além disso, existe também a questão de qual será o impacto no mercado quando os fundos descarregarem a posição deles. “Eu não queria estar sem fixar nesse momento”, alerta e completa: “Eu não penso que o mercado parou por aí. Pode ser que ele venha a subir mais, mas também pode ser que ele caia antes”.

Quem não fixou na atual safra, contudo, viveu uma situação que Stuart Maron chamou de ‘irônica’. Afinal, essas são as companhias que não possuíam crédito junto as tradings e, agora, serão as únicas companhias a ver o reflexo do preço de R$ 1.500 por tonelada de açúcar já no balanço de 2017. Ao mesmo tempo, as companhias com crédito haviam fixado o preço entre R$ 1.000 e R$ 1.200.

“Já tem usina fixando maio de 2018 e eu não entendo porque que tem gente que não fixou 2017 ainda. Quem tem condições e crédito tem que adiantar”, Stuart Maron (ADM do Brasil)

“Se nós analisarmos para o ano que vem, a grande dúvida é: R$ 1.700 a R$ 1.800 é ruim? Você pode deixar de fixar e vender a R$ 2.000 ou R$ 2.200. Mas, em dois meses, o preço pode cair e ficar em R$ 1.100 de novo. O que é mais grave?”, indaga.

Açúcar branco: Europa, Índia e outros produtores

Enquanto se fala em um déficit de 19 milhões de toneladas de açúcar para os próximos cinco anos, também existe a possibilidade de aumento de produção na União Europeia, devido ao fim das cotas que limitam a produção. Para o diretor geral da Sucden, Jeremy Austin, o bloco deve subir a produção em pouco mais de dois milhões de toneladas para essa safra, com a perspectiva de continuar a subir nos próximos anos.

Segundo Austin, na Europa, onde o açúcar é feito diretamente da beterraba, o que conta para os produtores é o preço final do açúcar branco. “Obviamente, para as refinarias independentes do mundo, a diferença entre US$ 60 e US$ 90 [no prêmio do açúcar branco] pode ser de ligar ou de desligar a refinaria”, complementa.

“Os grandes produtores, em especial França, Alemanha e Holanda, querem chegar a um nível de exportação de três, quatro milhões de toneladas. Em quanto tempo isso deve acontecer é uma questão de preço”, Jeremy Austin (Sucden)

Ao mesmo tempo, os produtores de beterraba já estariam se ajustando ao mercado sem as cotas, inclusive com o comprometimento de aumentar a produção. Com contratos de dois ou três anos a preço fixo, a beterraba está sendo negociada por volta de EUR$ 26 por tonelada.

Já os produtores de açúcar “não estão fixando nada para os próximos dois anos. Mas, com certeza, isso vai ter impacto para o mercado mundial”, afirma, mas com uma ressalva: “O preço tem que fazer sentido. Se o usineiro europeu está pagando EUR$26 pela beterraba, ele pode não querer, necessariamente, exportar a um preço abaixo de US$ 550 por tonelada de açúcar branco”. Ou seja, a produção da Europa pode simplesmente não deixar as fronteiras do continente, sendo comercializada internamente.

Austin ainda acrescenta que Índia e Rússia devem voltar a exportar açúcar branco, alterando características do mercado. “O fornecimento de açúcar refinado de boa qualidade compete com as refinarias”, relata e continua: “As refinarias ficaram sozinhas durante um bom tempo, tendo os volumes de açúcar refinado branco sendo controlado por elas”.

Ao mesmo tempo, o vice-presidente sênior da Newedge, Michael McDougall, afirma que está crescendo o número de refinarias pelo mundo, com destaque para países como Arábia Saudita, Egito, Sri Lanka e Malásia. “Ou eles são cabeça-dura ou acham que a Europa não terá o efeito que está sendo antecipado”, pondera.

E como fica o etanol hidratado nesse contexto?

Enquanto as perspectivas para o açúcar – ainda que marcadas por uma série de incertezas – parecem positivas, o destino do etanol hidratado é mais nebuloso. Jeremy Austin, inclusive, questiona se a produção irá se manter ou se boa parte será transformada em açúcar. De acordo com ele, na situação atual de preços, o usineiro não tem dúvidas quando a questão é vender açúcar a 23 centavos de dólar por libra peso ou etanol a R$ 2,20 por litro.

“Essa é uma pergunta crucial para o mundo de açúcar. Vamos perder o que foi investido com o hidratado? O hidratado pode ser a fonte de 10 milhões de toneladas de açúcar em cinco anos se tivermos capacidade de cristalização”, relata.

“A resposta para fazer 19 milhões de toneladas a mais de açúcar em cinco anos é fácil. Basta tirar do hidratado”, Jeremy Austin (Sucden)

Outro mistério que paira sobre o etanol hidratado é a nova política de preços da Petrobras. Para Clóvis Junqueira, da VA&E, esse pode ser o momento da virada para o biocombustível – mas também pode ser o seu fim definitivo.

“Visibilidade e clareza nas regras atrai o investidor e é isso o que ele quer. Mas ele tem que entrar em uma outra conta. Ele tem que entender o movimento do preço do petróleo nos próximos 10 anos e ver se o etanol é competitivo com essa perspectiva do preço do petróleo”, relata.

Com isso, o CEO quer dizer que, para sobreviver, o etanol hidratado precisará ser competitivo dentro de uma regra de mercado. “Isso, de fato, muda um pouco o cenário do Brasil e vai dar uma perspectiva que nunca tivemos nos últimos 50 anos. É uma regra clara de livre mercado”, completa.

Renata Bossle – NovaCana

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