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Preço da energia em queda afeta lucro das usinas, mas investimentos devem continuar

bioeletricidade por-sol 270215A venda de energia elétrica, que já desempenhou importante papel para as margens das usinas sucroenergéticas, parece que está destinada a virar novamente coadjuvante nos resultados do segmento

NovaCana 9 min de leitura

A venda de energia elétrica, que já desempenhou importante papel para as margens das usinas sucroenergéticas, parece que está destinada a virar novamente coadjuvante nos resultados do segmento.

Os preços mais baixos estão evidentes tanto nos balanços das empresas, como nas perspectivas para o ano. Com a recuperação dos reservatórios das hidrelétricas, espera-se que a atratividade da cogeração se retraia ainda mais.

Apesar desse cenário, as usinas de açúcar e etanol devem continuar fazendo novos investimentos em cogeração. O portal NovaCana conversou com especialistas da área e apresenta a seguir algumas perspectivas do mercado.

Em 2014, a venda de energia elétrica desempenhou um importante papel para as margens das usinas sucroalcooleiras. Mas, desde o ano passado, parece que o mercado voltou a ser coadjuvante nos resultados do segmento.  

Os preços mais baixos estão evidentes tanto nos balanços das empresas, como nas perspectivas para o ano. Com a recuperação dos reservatórios das hidrelétricas, espera-se que a atratividade da cogeração se retraia ainda mais.

Preços em queda

Hoje, estima-se que cerca de 70% da eletricidade oriunda de biomassa no Brasil é vendida no mercado regulado, com preços negociados nos leilões da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). O valor desses contratos são corrigidos pela inflação, e a sua grande vantagem consiste no fato de que o valor contratado não muda com as oscilações de mercado.

O mesmo não acontece com a parcela restante, dos 30%, vendida no mercado livre (spot), com contratos à vista, de curto e médios prazos. Essa fatia na comercialização de energia foi fortemente beneficiada em 2014, quando os preços no mercado livre atingiram o recorde de R$ 822/MWh. Na época, o valor era o teto do Preço de Liquidação de Diferenças (PLD), referência para esse mercado.

Há um ano, em janeiro de 2015 entrou em vigor um novo teto para o PLD, de R$ 388/MWh.

No entanto, esta queda não é nada comparada aos valores presenciados no início desse ano. Na primeira semana de janeiro, o PLD ficou próximo de R$ 40 por MWh nas regiões Sul e Sudeste. As queda foram puxadas pela ocorrência de chuvas acima da média no Centro-Sul e a consequente elevação no nível dos reservatórios, que até um tempo atrás se encontravam em situação crítica devido à estiagem sofrida em períodos anteriores.

Já no mercado regulado, mesmo que não tão gritante, a expectativa também é de queda no teto pago pela energia oriunda da biomassa. Ainda não se sabe qual será o valor comercializado no leilão A-5, que será realizado em 31 de março, mas a perspectiva é que sejam mais baixos do que os preços que o mercado vinha experimentando em anos anteriores.

Resultados das companhias é afetado

O comportamento dos preços também foi sentido nos balanços das empresas. No 1º e 2º semestres da safra 2015/16 de cana, o grupo São Martinho registrou um preço médio de venda de energia de R$ 230/MWh, 11,7% menor que o do mesmo intervalo da safra 2014/15 devido à queda da remuneração trazida pelo mercado spot.

Em toda a safra 2014/15, a companhia vendeu energia elétrica ao preço médio de R$ 295,5/MWh. Mas, os volumes vendidos de eletricidade 36% maiores no período (com a consolidação de 100% da Usina Santa Cruz) compensaram o preço médio menor. Com isso a São Martinho registrou no acumulado do semestre uma receita 20% maior com a cogeração.

Já a Raízen, joint venture entre Cosan e Shell, nos dois primeiros trimestres da safra 2015/16, entre abril e setembro, experimentou queda na receita de cogeração. No primeiro, recuou 1,7%, apesar de o volume vendido ter sido 3,2% maior. A razão é que o valor médio pago pelo MWh foi 4,7% mais baixo (R$ 244).

No segundo trimestre, a receita da Raízen com cogeração foi de R$ 203 milhões, 12% menor que no mesmo período anterior, e com um volume vendido 15,5% superior. O preço médio registrado pelo MWh foi 23,8% mais baixo, de R$ 197 MWh.

Apesar dos preços baixos, é possível que as usinas já tenham garantido uma receita com energia em patamares mais altos até o fim da safra, caso já tenham firmado contratos antes da baixa dos preços.

A São Martinho, por exemplo, informou que conseguiu garantir preços mais elevados segundo o balanço da companhia para o período. De acordo com a empresa, parte de seu volume de energia já está preso a contratos de entrega até março de 2016, vendida a um preço médio de R$ 300/MWh.

São esses detalhes que destaca o especialista energia da consultoria FG/Agro, Luiz Cláudio Barreira. O primeiro ponto é que mesmo com esse PLD, as empresas podem estar recebendo mais do que já foi negociado nos leilões ou se beneficiando dos contratos mais longos também no mercado livre. “Eu diria que de 80 a 90% das usinas tem grande parte da energia delas contratada dessa maneira”, assinala e acrescenta: “é preciso ter em vista que esse preço na casa dos R$ 40 reais é para energia que ainda não foi vendida”.

É nesse caminho que percorre, também, o discurso da União das Indústrias de Cana-de-açúcar (Única). O consultor de bioeletricidade da entidade, Zilmar de Souza, acredita que mesmo quem optou pelo mercado livre deve ter um contrato feito anteriormente de médio ou longo prazo. Ele ainda reforça que o “preço não dita o investimento”. “Toda usina que quer viabilizar o investimento vai buscar um contrato de longo prazo e, obviamente, com um preço fixado também no longo prazo.”

Preços podem afetar os projetos de cogeração

Apesar da visão otimista da Unica, os consultores não vislumbram anos tão positivos para a cogeração daqui para frente. Com esse cenário de um mercado bem menos atrativo do que há um ano, os projetos de geração de energia das usinas sucroalcooleiras devem ser impactados em ambos os mercados: livre e regulado.

No mercado livre, o atual preço da energia não deverá estimular as usinas sucroalcooleiras a gerarem mais eletricidade a partir de biomassa. Para o diretor-executivo do Grupo Safira Energia, Mikio Kawai Jr., a tendência de queda nos preços deve perdurar ao longo do ano em decorrência da boa vazão de chuvas nas bacias do Sul e Sudeste. “Esse panorama pode ser inclusive que se perpetue até um pouco além de 2016”, assinala.

Barreira, da FG/Agro, acrescenta que os empresários que pensavam em investir em cogeração, tendo como viés os preços, vão se desestimular. Mas, na visão dele, quem manter uma perspectiva de futuro pode continuar investindo. “A maioria dos investimentos em açúcar e álcool acontecem por uma necessidade de troca de caldeira, onde se aproveita a oportunidade já para fazer um projeto de cogeração.  Quando o cliente olha sob essa perspectiva, é um investimento que será feito para 2017 ou 2018, que já pode ser negociado em algum leilão”, pontua.

Para o especialista em bioenergia, os preços não devem se manter na faixa dos R$ 200/ MWh como foi no último leilão, no entanto. “A demanda deve ser mais baixa, mas geralmente os preços dos leilões são acima de 150 reais. É uma maneira de conseguir fazer um bom projeto parar de pé”, diz. Mas reforça que esse é um mercado que oscila muito. “Quem estava totalmente descontratado em 2014/15 achou ótimo o período, em compensação, agora está péssimo. Para quem estava contratado antes, a alta no mercado livre foi ruim, agora está ótimo”, acrescenta.

Kawai da Safira Energia complementa que, apesar de quem está contratado no longo prazo não ter se ressentido ainda quanto ao comportamento no mercado, isso pode acontecer no futuro. “A tendência é que as futuras cargas demandadas cresçam menos. Então tem uma demanda incremental menor do que normalmente se espera.”

Procura por novos projetos já apresenta queda

O gerente da Unidade de Negócio Turbinas TGM, Marcelo Severi, percebe que o mercado já “deu uma esfriada” nos últimos três meses. Uma das razões, segundo ele, foi o adiamento do leilão que vai ser realizado no dia 31 de março (antes seria no dia 2 de fevereiro), o segundo fator é a já comentada queda dos preços para a energia gerada pela biomassa devido ao aumento da disponibilidade de energia de outras fontes. “Isso reduz a procura por novos projetos e estudos”, considera. Além desses pontos, existe ainda a restrição de crédito que também tem dificultado novas empreitadas no setor.

O gerente traz uma informação mais alarmante para a continuidade dos projetos no setor, devido aos comentários no mercado de que o preço a ser pago no próximo leilão não chegará a R$150/ MWh. “O que se fala é que se for de R$ 140 a R$160, não se venderá energia. Ou seja, a empresa está com toda operação estruturada, mas mesmo assim não venderá, pois não compensa.”Para ele, isso pode gerar uma desaceleração ainda mais significativa na procura por projetos que, para a TGM, já está 20% menor este ano, o que ainda não é considerado uma grande queda pela empresa. 

“Quando falamos de projetos termoelétricos, ou seja, queimar biomassa só para produção de energia, não está compensando. Os únicos projetos que compensam, em um patamar mais baixo como esse, são os de cogeração -  onde se usa o vapor na planta, e tem o excedente de energia. Esses seriam os únicos projetos que acabariam seguindo, mas são minoria. Os principais projetos ficariam, digamos assim, congelados”, argumenta Severi.

De qualquer maneira, o gerente pontua que, para o ano de 2016, já percebe a mudança no perfil de quem demanda por novos projetos. “Aprendemos muito com os recentes problemas energéticos, de custo e possível indisponibilidade. O melhor é investir em geração própria. Mesmo que caia o preço, o que nos anima é que muitas empresas vão buscar o aumento da geração própria para se tornarem autossuficientes, diminuírem custos e ficarem menos dependentes de políticas externas.”

Outro ponto positivo para o mercado está justamente na melhora do quadro no setor sucroenergético, visto com bons olhos pela empresa de equipamentos. O câmbio, os preços do açúcar e álcool e a abundância de matéria-prima tem refletido em mais ânimo para os investimentos das empresas que pequeno e médio porte. “Vemos uma possível retomada do sucroenergético, que automaticamente aumenta a geração de energia e aquisição de equipamento.  É um movimento tímido, mas que já vemos aumentar”, encerra.

Por Marina Gallucci – NovaCana

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