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Pré-tratamento é um dos diferenciais da primeira usina em larga escala de etanol celulósico

usina betarenewables 061113Com alguns diferenciais em relação aos concorrentes, a Beta Renewables lidera a produção de etanol celulósico no mundo
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Graças à cana-de-açúcar, o Brasil tem o maior potencial de produção de etanol celulósico. Já os Estados Unidos, com um mercado garantido pelo governo, tem a maioria dos projetos de biocombustíveis de segunda geração. Contudo, foi a Itália que efetivamente conseguiu se lançar à frente.

Quem visita a unidade da Beta Renewables na cidade italiana de Crescentino se surpreende com a estrutura. "Eu vi a tecnologia funcionando e pensei: finalmente alguém conseguiu passar o problema da escala, de ampliar o projeto".

Veja a seguir os diferenciais que colocaram a empresa à frente dos concorrentes e a lentidão das usinas brasileiras na aposta do etanol celulósico.

Graças a cana-de-açúcar o Brasil tem o maior potencial de produção de etanol celulósico. Já os Estados Unidos, com um mercado garantido pelo governo, tem a maioria dos projetos de biocombustíveis de segunda geração. Contudo, foi a Itália que efetivamente conseguiu se lançar à frente.

A Beta Renewables foi a primeira a vencer o problema de transpor a escala de plantas piloto ou de demonstração, para unidades comerciais. A empresa, que oficialmente inaugurou a unidade no início de outubro, está produzindo etanol a partir de palha de trigo e de arroz, e da cana-do-reino.

Quem visita a unidade capaz de produzir 80 milhões de litros de etanol por ano, na cidade italiana de Crescentino, se surpreende com a estrutura. Al Costa, presidente da Alkol Bioenergy, empresa espanhola de consultoria especializada em bioenergia, é um deles. "Eu vi a tecnologia funcionando e pensei: finalmente alguém conseguiu passar o problema da escala, de ampliar o projeto", disse.

O consultor afirma que a usina se posicionou à frente dos concorrentes graças à sua tecnologia de pré-tratamento da matéria-prima. Há mais de uma dezena de técnicas para separar os três componentes da parede celular das plantas – celulose, hemicelulose e lignina –, mas a empresa italiana utiliza explosão a vapor (steam explosion).

"É uma tecnologia que não é exclusiva da Beta Renewables, o que ela fez foi desenvolver um reator de steam explosion que não deixa subprodutos químicos ao final e que também não demanda a compra de químicos, reduzindo tanto o custo como a dependência de fornecedores externos".

Como explica o executivo, essa técnica consiste em expor a biomassa à alta pressão e temperatura elevada por um curto período de tempo. Em seguida, é feita uma rápida despressurização, o que destrói a estrutura das fibras (explosão).

O êxito dessa primeira etapa é importante para o processo posterior, com a hidrólise da celulose feita pelas enzimas, que só então vai liberar os açúcares para a fermentação. Embora o pré-tratamento possa parecer simples, o número de licenças comerciais envolvidas evidencia a complexidade do processo. Segundo Costa, a empresa italiana possui 24 patentes apenas nessa etapa.

Outra vantagem do processo adotado pela Beta Renewables é que a lignina separada no pré-tratamento tem um alto poder calorífico e, como não oferece açúcares, é destinada à queima. Assim, essa fração dura e seca da biomassa realimenta o processo oferecendo a energia necessária para o ciclo industrial. Com isso, explica, se barateia o custo de aquisição de energia.

O presidente da Alkol analisa que a forma como a italiana se relaciona no mercado também é bastante positiva. Além de uma abertura muito boa para acessar novos parceiros, a companhia não possui contratos de exclusividade que a limitem a acordos já estabelecidos. "O efeito final é que a tecnologia deles é um pouco agnóstica, não fica presa a qualquer empresa", conclui.

Brasil: "sentados em um pote de ouro"

Quando se fala em etanol de segunda geração (2G), o assunto vem relacionado a enzimas e leveduras obtidas por sofisticados processos de engenharia genética. A associação é justificada, pois os microrganismos impactam significativamente no custo e na eficiência do processo.  Mas toda a preocupação com a alta tecnologia empregada cai por terra se não houver uma fonte de biomassa abundante e de baixo custo.

"A tonelada do bagaço hoje, no Brasil, está sendo vendida a US$ 25, isso é quatro vezes mais barato que a tonelada de matéria-prima aqui na Europa. Não importa que a enzima seja muito boa, se você tem matéria-prima a um quarto do preço, a enzima não consegue concorrer com isso", afirma o executivo brasileiro graduado em biologia nos EUA.

Por isso, na perspectiva de Costa, a cana-de-açúcar faz do Brasil um território imbatível para a produção de etanol celulósico. Ele afirma que inúmeros estudos indicam que o bagaço de cana-de-açúcar é de longe a melhor matéria-prima para a obtenção de celulose, de onde são extraídos os açúcares para o etanol 2G.

Mas, por enquanto, as coisas não andam tão incríveis assim. Al Costa diz que o setor sucroalcooleiro ainda não acordou para o etanol 2G. Segundo ele, "os produtores brasileiros estão sentados sobre um pote de ouro e não se deram conta". Entretanto, há exceção.

"Não sei se o Brasil entendeu o potencial que tem na sua mão. Acredito que a GranBio conseguiu ver e por isso tem tudo para acertar. Não é somente porque a tecnologia é boa, é porque eles têm o melhor tipo de matéria-prima que existe para obtenção de etanol celulósico. O Brasil está com a faca e o queijo na mão e acho que falta ao produtor de etanol brasileiro uma compreensão do verdadeiro motivo do sucesso do etanol no Brasil e do potencial que eles têm na mão".

Al Costa pondera que apesar do "pote de ouro", o segmento tem problemas na esfera política e passa por um momento difícil. Entretanto, o executivo considera inócuo as usinas reclamarem e não agirem. "Eles podem ter toda a razão sobre o subsídio da gasolina – e eu concordo com isso em gênero e grau – agora, se você está sentado em pote de ouro chega uma hora em que as pessoas vão ver o pote e vão perguntar: 'do que você está realmente reclamando?'", finaliza.

Amanda SchArr – NovaCana
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