A Petrobras informou nesta terça-feira, 6, que iniciou discussões com a Unigel para analisar negócios conjuntos nas áreas de fertilizantes, hidrogênio verde e projetos de baixo carbono. As companhias assinaram acordo de confidencialidade (Non Disclosure Agreement) não vinculante, com vigência de dois anos.
“Somente após a conclusão de análises técnicas por grupo multidisciplinar, eventuais projetos advindos do acordo terão estimativas oficiais de custo e retorno, necessárias para futuramente serem apreciados pelas instâncias de aprovação interna, de acordo com a governança da Companhia”, divulgou a Petrobras em nota.
Segundo a petroleira, empreendimentos nesta linha vão ao encontro do Plano Estratégico 2024-2028, que propõe alocação de uma faixa de investimentos (capex) de 6% a 15% em projetos de baixo carbono. A revisão do plano foi divulgada no final de maio.
Em janeiro deste ano, a Unigel anunciou a ampliação de seu projeto de produção em escala industrial de hidrogênio e amônia verdes, na Bahia. São estimados investimentos de US$ 1,5 bilhão na planta até 2027. Na época, a empresa afirmou cogitar a abertura de seu capital para financiar parte dos recursos.
A fábrica será construída no Polo Petroquímico de Camaçari (BA) em três fases – que, ao fim, totalizarão 100 mil toneladas anuais de hidrogênio verde e 600 mil toneladas anuais de amônia verde.
A primeira etapa foi divulgada em 2022, contemplando investimentos de US$ 120 milhões e capacidade de produção de 10 mil toneladas por ano de hidrogênio verde e de 60 mil toneladas por ano de amônia verde. A previsão é iniciar as operações do ativo ainda este ano.
Mais duas fases estão planejadas. O objetivo é chegar em 2025 com uma capacidade de 40 mil toneladas ao ano de H2V e 240 mil toneladas ao ano de amônia; e atingir a capacidade plena do projeto em 2027.
A Petrobras e a Unigel mantêm negociações sobre o preço do gás natural, em busca de uma solução para a continuidade das operações das fábricas de fertilizantes nitrogenados (fafens) do Nordeste. Mas a relação comercial entre fornecedor-cliente da matéria-prima deve avançar com a parceria estratégica – tanto no setor de nitrogenados quanto em outros negócios, como hidrogênio verde.
As duas empresas estão hoje intimamente ligadas no negócio de fertilizantes no Brasil e mantêm entre si alguns pontos de contato que podem convergir para futuras parcerias.
As fafens de Laranjeiras (SE) e Camaçari (BA) pertencem à Petrobras, mas foram arrendadas em 2020 para a Unigel no governo de Jair Bolsonaro (PL), em contratos de dez anos, renováveis por mais dez.
A estatal chegou a hibernar as duas fábricas em 2019 e as unidades só voltaram a operar em 2021, quando a Unigel assumiu as operações dos ativos.
A Petrobras é também uma das principais fornecedoras – não a única – do gás usado como matéria-prima na produção dos fertilizantes nitrogenados em Sergipe e na Bahia.
A Unigel alega que as operações da planta de Sergipe passaram a ficar inviáveis depois da queda do preço da ureia no mercado internacional e pede um gás mais barato. Os preços da molécula também caíram este ano, mas não na mesma intensidade que o dos fertilizantes.
Com isso, a empresa do setor químico reduziu o ritmo das atividades de manutenção da unidade de Sergipe enquanto aguarda as negociações com a Petrobras.
Em crise financeira, a Unigel atrasou pagamentos a pequenos fornecedores e adiou o projeto de produção de ácido sulfúrico na Bahia para 2024.
Em paralelo, contratou a Moelis & Company para assessorá-la em um processo de reestruturação financeira. O intuito do grupo é evitar uma recuperação judicial, mas esse risco já aparece no radar de bancos credores.
Petrobras e Unigel mantêm interesses comuns no desenvolvimento de novos negócios – e não só no setor de fertilizantes.
A empresa do setor químico já manifestou em 2022, antes de entrar em crise, interesse na fafen de Três Lagoas (MS), projeto inacabado da Petrobras.
Já a petroleira tem intenção de entrar no negócio de hidrogênio verde – e a Unigel está em busca, justamente, de um sócio para o seu projeto de H2V na Bahia, de US$ 1,5 bilhão.
Depois de se afastar do segmento, nas gestões passadas, a Petrobras passa por um momento de revisão geral do seu posicionamento.
Sob nova direção, a empresa está debruçada sobre a revisão de seu planejamento estratégico. O presidente da companhia, Jean Paul Prates, tem manifestado a intenção da petroleira de diversificar suas áreas de negócios (biorrefino, eólicas offshore e hidrogênio, por exemplo), de olho na transição energética.
O plano é fortalecer a Petrobras como uma empresa integrada de energia e retomada das operações em fertilizantes é uma das opções dentro desse caldeirão de possibilidades.
A operação de fafens no Brasil, contudo, é historicamente desafiadora do ponto de vista econômico: ela exige preços bastante competitivos para o gás natural. Nas gestões passadas, durante o governo Bolsonaro, a Petrobras decidiu fechar as unidades por falta de retorno.
Ao comentar sobre a desativação da fábrica de Araucária (PR), o então presidente da estatal, Roberto Castello Branco, chegou a dizer que o ativo “funcionava como um relógio suíço: todo ano dava prejuízo”.
Este ano, a Petrobras cancelou a venda da planta de Três Lagoas (MS), que a companhia tentou negociar duas vezes, sem sucesso. A petroleira, no entanto, ainda não revelou qual será sua estratégia para o setor.
A construção da UFN-III teve início em setembro de 2011, mas foi interrompida em dezembro de 2014, com avanço físico de cerca de 81%.
A conclusão do projeto é encarada como prioridade hoje dentro do governo. A oferta de gás natural competitivo para a indústria de fertilizantes é uma das prioridades do programa Gás para Empregar, em discussão no governo.
O diretor de compras da Unigel, Luiz Antônio Nitschke, afirmou, em maio, que a companhia ainda tem interesse numa eventual compra da unidade de Três Lagoas, se houver entendimento sobre a redução do preço do gás no Brasil.
“Manifestamos o interesse num momento diferente. Se houver um gás competitivo, a Unigel tem capacidade de finalizar a construção e botar a planta para operar. Neste momento, com uma situação desfavorável, não vamos dar nenhum passo nessa direção”, disse, na ocasião.
André Ramalho