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Pesquisadores acreditam no potencial do dendê para a bioenergia

Especialistas de quatro instituições afirmam que o “óleo vegetal mais sustentável do planeta” pode gerar biomassa para abastecer caldeiras de usinas de etanol de milho

NovaCana 7 min de leitura

Ao compararem o setor sucroenergético e a agroindústria da palma de óleo, pesquisadores de quatro instituições brasileiras apontam que a planta – também chamada de dendezeiro – possui uma “acentuada capacidade” para a imobilização do carbono atmosférico, o reflorestamento de áreas degradadas, o cultivo em solos ácidos e pobres, a restauração do balanço hídrico e a liberação de oxigênio.

De acordo com eles, muitas destas possibilidades encontram correspondência na indústria de açúcar e etanol. “A cana-de-açúcar e a palma de óleo são culturas que expressam profunda similaridade no que se refere ao fornecimento de seus principais produtos (caldo de sacarose e óleo vegetal, respectivamente) e de resíduos”, observam os pesquisadores.

O artigo “Dendê no Brasil: potencial para o sistema produtivo de óleo vegetal mais sustentável do planeta” foi escrito por André Bernardo, Márcio Turra de Ávila, ambos da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar); Edson Barcelos da Silva, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa); Jayr de Amorim Filho, do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA); e Rafael Silva Capaz, da Universidade Federal de Itajubá (Unifei).

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Ao compararem o setor sucroenergético e a agroindústria da palma de óleo, pesquisadores de quatro instituições brasileiras apontam que a planta – também chamada de dendezeiro – possui uma “acentuada capacidade” para a imobilização do carbono atmosférico, o reflorestamento de áreas degradadas, o cultivo em solos ácidos e pobres, a restauração do balanço hídrico e a liberação de oxigênio.

De acordo com eles, muitas destas possibilidades encontram correspondência na indústria de açúcar e etanol. “A cana-de-açúcar e a palma de óleo são culturas que expressam profunda similaridade no que se refere ao fornecimento de seus principais produtos (caldo de sacarose e óleo vegetal, respectivamente) e de resíduos”, observam os pesquisadores.

O artigo “Dendê no Brasil: potencial para o sistema produtivo de óleo vegetal mais sustentável do planeta” foi escrito por André Bernardo, Márcio Turra de Ávila, ambos da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar); Edson Barcelos da Silva, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa); Jayr de Amorim Filho, do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA); e Rafael Silva Capaz, da Universidade Federal de Itajubá (Unifei).

Produtos e usos

De acordo com os dados apresentados, a palma de óleo rende em torno de 5 toneladas por hectare, o que seria a maior produtividade entre as culturas oleaginosas agronomicamente dominadas. Além disso, seus coprodutos têm potencial para diversos usos.

O principal deles é como o efluente líquido chamado Palm Oil Mill Efluent (Pome), que pode ser usado para a produção de biogás e biofertilizante. Atualmente, no entanto, muitas usinas tratam esse resíduo em lagoas abertas, sem a captura de gases de efeito estufa.

“A destinação correta [do Pome] é imperiosa, pois seu elevado teor de matéria orgânica o torna um problema ambiental se descartado inadequadamente”, alertam os especialistas, que exemplificam o uso sugerido: “Aplicações como a verificada na usina de Puerto Salgar (Colômbia) reportam que a biodigestão anaeróbica do Pome permite alcançar uma produção média de 25 litros de biogás por litro de efluente, conferindo redução de 93% em sua carga orgânica e alta disponibilidade de combustível para geração de energia a partir de fontes não convencionais”.

Já o material lignocelulósico – como cascas, fibras e cachos vazios ou engaços – pode ser direcionado às caldeiras para geração de vapor e eletricidade ou voltar ao campo, como fertilizante orgânico. “[Isso] torna possível se pensar na utilização de parte desses resíduos para obtenção de vapor e energia demandados pelo processamento de milho na fabricação de etanol que, comumente, emprega biomassa de eucalipto no Brasil”, sugerem os pesquisares.

Na sequência, o artigo cita a fabricação de óleo de palma ou dendê, que pode ser destinado a alimentação ou usos bioenergéticos. Já a torta de palmiste normalmente é utilizada na cadeia alimentar de espécies animais destinadas à produção de carne. E, por fim, o óleo de palmiste é um insumo para a indústria oleoquímica e para as fabricantes de cosméticos e de sabões especiais de alta qualidade.

O fato de alguns desses produtos e usos se assemelharem aos vistos na indústria sucroenergética foi o que motivou o estudo. “O aspecto mais relevante relacionado a essa questão é que essas mesmas culturas se desenvolvem bastante bem em solo brasileiro, sendo que toda a experiência angariada ao longo de mais de cinco séculos produzindo cana-de-açúcar pode e deve ser empregada para a expansão da área cultivada com palma de óleo no Brasil”, defendem.

Biodiesel e etanol

Os pesquisadores também observam que, no momento, o cultivo de dendê no Brasil ocupa menos de 300 mil hectares. “As tentativas de expansão, visando inclusive a produção de biodiesel, enfrentaram vários obstáculos técnicos e econômicos”, lamentam.

Entretanto, eles defendem que há mais de 14 milhões de hectares disponíveis no Acre, em Mato Grosso, em Rondônia e em Roraima. Em Mato Grosso, especificamente, haveria 200 mil hectares de área degradada com aptidão preferencial ou 6,8 milhões de hectares com aptidão regular (exigindo técnicas de irrigação). O estado foi destacado justamente pela presença das indústrias de etanol de milho, que poderiam ser abastecidas pela biomassa de dendê para a geração de energia.

Os especialistas também citam estudos da Universidade Federal do Pará (UFPA) que tratam sobre a recuperação de áreas degradadas no estado, a geração de energia utilizando resíduos da produção de óleo de palma e a mitigação da concentração de dióxido de carbono atmosférico.

“Os resultados obtidos com base na metodologia empregada evidenciam que a cultura da palma de óleo, relativamente à fixação e às emissões de CO2, representa elevado potencial de redução desse gás de efeito estufa”, garantem. Contudo, eles observam que as análises não levaram em conta a produção de biodiesel a partir do óleo de palma.

Outras oportunidades

De acordo com o artigo, a agroindústria da palma de óleo pode ter impactos positivos nas esferas ambiental, social, econômica e, claro, energética.

Entre as oportunidades citadas está a conexão da agricultura familiar. De acordo com o documento, a aplicação de questionários junto a agricultores no nordeste paraense identificou que a dendeicultura provocou “transformações na estrutura, organização e trajetória dos sistemas produtivos, significando, para os agricultores, ‘modernidade’ e a principal alternativa para o desenvolvimento”. Isso teria sido possível pelo surgimento de um aparato financeiro e tecnológico que culturas tradicionais da região, como a mandioca, não possuem.

Outro estudo citado, este da Universidade Federal de Viçosa (UFV), aborda como a cultura do dendê pode ser utilizada para o aproveitamento das áreas degradadas ou alteradas da Amazônia. Além disso, o artigo também menciona a tendência do consórcio do café com outras espécies, uma estratégia que poderia passar a incluir a palma de óleo.

“Uma cultura empregada em consorciação com café é a seringueira, permitindo a extração de dois produtos no mesmo espaço: o café e o látex. Como a seringueira é uma cultura típica de áreas tropicais úmidas, a consequência direta de tal integração é a possibilidade da aplicação do café com dendezeiro em áreas degradadas da região Norte do Brasil”, afirmam.

Para completar, a monocultura de dendê associada com a apicultura seria “uma prática bastante lucrativa” segundo os pesquisadores, já que os produtos gerados (mel, própolis e pólen) são bem aceitos no mercado consumidor.

De maneira geral, os estudiosos defendem que a agricultura familiar e a população rural vivem impactos positivos no entorno dos empreendimentos agroindustriais com a palma de óleo. Para eles, isso ocorre pela oferta de trabalho de qualidade e com salários superiores aos vigentes, da melhoria da segurança alimentar, e da consequente redução da pressão sobre os recursos naturais.

“As críticas que se fazem à cultura do dendê equivalem esta iniciativa à implantação da cana na Zona da Mata no século 16 ou do café na Mata Atlântica no século 19. Tal equivalência em 2022 não deveria ser considerada”, afirmam e defendem: “É absolutamente necessário entender que o aproveitamento econômico sustentável de áreas degradadas pode ser ferramenta de proteção ambiental ao gerar oportunidades à comunidade que vive no local”.

Artigo

Renata Bossle – NovaCana

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