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Pesquisa usa fungo para reforçar defesas da cana-de-açúcar contra infestações

Estratégia biológica pode reduzir a dependência a inseticidas químicos, aumentar eficiência do controle biológico e contribuir para a sustentabilidade


Agência USP - Publicado: 16 Jul 2025 - 14:17
Pesquisa usa fungo para reforçar defesas da cana-de-açúcar contra infestações

Pesquisadores cultivaram fungo e o inocularam em plantas para entender impacto sobre as defesas químicas e as interações com herbívoros e inimigos naturais

O fungo Metarhizium robertsii, além de combater pragas, também poderia atuar como indutor de defesas, como se fosse uma verdadeira “vacina” para as plantas de cana-de-açúcar, conclui pesquisa da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, em Piracicaba.

A partir do estudo sobre as complexas interações entre fungos, plantas e insetos, o trabalho sinaliza para uma estratégia biológica capaz de reduzir a dependência a inseticidas químicos, aprimorar a eficiência do controle biológico e promover a sustentabilidade.

A pesquisa avaliou o Metarhizium robertsii, fungo que vive nos tecidos das plantas (endofítico), onde tem a capacidade de matar insetos (entomopatogênico) para melhorar as defesas da cana-de-açúcar, medindo níveis de fitormônios, emissões de compostos orgânicos voláteis e atração olfativa dos inimigos naturais.

Entre os insetos estão a vespa Cotesia flavipes e a tesourinha (também conhecida como “lacrainha”) Doru luteipes, inseto que possui uma espécie de par de pinças no abdome. A atuação do fungo ocorre em condições com e sem infestação da broca-da-cana-de-açúcar, principal praga da cultura.

“Na cana-de-açúcar ainda se compreende pouco o impacto desses fungos sobre as defesas químicas e sobre as interações com herbívoros e inimigos naturais”, explica o engenheiro agônomo Marvin Mateo Pec Hernández, formado pela Universidad de San Carlos de Guatemala e doutorando em Entomologia pela Esalq.

Segundo ele, que é o autor do trabalho, a pesquisa desenvolveu uma abordagem multidisciplinar que incluiu o cultivo do fungo e sua inoculação em plantas, seguido da infestação com pragas.

Para isso, análises químicas quantificaram os níveis de fitormônios (hormônios vegetais) e compostos orgânicos voláteis (substâncias que evaporam em temperatura ambiente), e bioensaios comportamentais para avaliaram a preferência de colocação de ovos (ovoposição) das pragas.

Ao mesmo tempo, foram conduzidos experimentos para investigar a atratividade pelo olfato da Cotesia flavipes, que atua como parasita, e da Doru luteipes, predadora noturna, ambas inimigas naturais da broca-da-cana.

Estratégia ecologicamente correta

Para Pec Hernández, os resultados apontaram para uma estratégia ecologicamente correta, que pode reduzir a dependência do uso de inseticidas químicos ao melhorar as defesas naturais da planta, tornando o controle biológico mais eficiente.

O pesquisador também acredita que a alternativa potencializaria a atratividade de inimigos naturais, como a mosca Cotesia flavipes, para controlar a broca-da-cana, contribuindo para a sustentabilidade da cultura da cana-de-açúcar ao oferecer uma abordagem de manejo de pragas de baixo impacto ambiental.

“Plantas inoculadas com o fungo apresentaram alterações significativas nos níveis de compostos secundários responsáveis pela defesa da planta contra pragas, como os ácidos jasmônico e salicílico, além de mudanças nas emissões de compostos voláteis, tanto durante o dia quanto à noite”, explica o pesquisador.

Ele complementa: “Nas plantas ainda não infestadas pela broca-da-cana, observamos uma redução na colocação de ovos pela praga”.

Nas espécies infestadas houve maior atração da vespa Cotesia flavipes, indicando que o inimigo natural pode estar atuando de forma mais eficaz no controle da praga. Por outro lado, a tesourinha não apresentou aumento de atração, mesmo com as alterações nos compostos voláteis emitidos à noite.

A pesquisa é descrita na tese de doutorado “Metarhizium robertsii altera os voláteis da cana-de-açúcar e suas interações com insetos”, defendida por Pec Hernández em janeiro deste ano.

O trabalho foi conduzido no Laboratório de Ecologia Química e Comportamento de Insetos da Esalq, sob coordenação do professor José Maurício Simões Bento, com o envolvimento do doutorando Marvin Mateo Pec Hernández e dos pesquisadores Paolo Salazar Mendoza, Diego Martins Magalhães e Kamila E. Xavier de Azevedo.

Alicia Nascimento Aguiar e Júlio Bernardes