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Pesquisa com 88 usinas demonstra melhora nos resultados financeiros em 2020/21

Análise do Pecege apresentou melhoria em dados de receita, alavancagem, liquidez e endividamento na média setorial, mas destaca a já conhecida disparidade do setor

NovaCana 23 min de leitura

A temporada 2020/21 foi, inegavelmente, favorável para o setor sucroenergético – pelo menos para a média.

Algumas usinas melhoraram a sua eficiência operacional no período, com a evolução do controle de custos, justamente porque foram desafiadas logo no início da safra, especialmente por conta do início da pandemia de coronavírus.

Houve significativa melhora na geração operacional de caixa, em grande medida motivada pela elevação da receita de vendas, principalmente do açúcar. Também ocorreu redução do endividamento médio do setor, assim como evolução da posição de liquidez tanto pelo aumento de caixa quanto pelo reperfilamento da dívida.

Tais afirmações foram feitas pela economista Beatriz Ferreira durante evento realizado pelo Instituto de Pesquisa e Educação Continuada em Economia e Gestão (Pecege). Na ocasião, ela apresentou um estudo feito pelo instituto sobre os indicadores econômico-financeiros do setor sucroenergético durante o ciclo 2020/21, realizado com 88 grupos de açúcar e etanol.

“De forma geral, olhando para a média do setor, houve um ganho de musculatura financeira para a próxima safra, mas temos que lembrar que isso não foi unânime entre todas as usinas”, ponderou Ferreira. Isso ocorre, pois ainda existe grande disparidade entre os grupos que pode se intensificar num cenário de elevação significativa de preço e custos, como afirma a economista.

Ferreira ainda diz que o efeito do período de comercialização na apuração da receita líquida de vendas é essencial para identificar as diferenças entre as usinas da amostra. “Quando olhamos, por exemplo, para o preço do VHP, que vai ser refletido na receita líquida de vendas das usinas, ele vai ser fortemente impactado não só pelo mercado spot [à vista] mas pelos preços que foram fixados pelas unidades lá atrás”, destaca. Portanto, sofre influências tanto da fixação do preço do açúcar no mercado da ICE, de Nova Iorque, quanto do câmbio.

No caso do etanol, a comercialização é mais forte no mercado à vista, o que torna o período de venda importante. Conforme Ferreira, as usinas que tinham baixa liquidez e precisavam desse caixa comercializaram o biocombustível justamente no início do ciclo, gerando um efeito negativo na apuração da receita líquida de vendas.

Confira na versão completa e restrita aos assinantes do NovaCana a análise realizada pelo Pecege, com gráficos ilustrativos, apresentando dados de receita líquida, endividamento, liquidez, alavancagem e demais detalhes pertinentes à pesquisa.

A temporada 2020/21 foi, inegavelmente, favorável para o setor sucroenergético – pelo menos para a média.

Algumas usinas melhoraram a sua eficiência operacional no período, com a evolução do controle de custos, justamente porque foram desafiadas logo no início da safra, especialmente por conta do início da pandemia de coronavírus.

Houve significativa melhora na geração operacional de caixa, em grande medida motivada pela elevação da receita de vendas, principalmente do açúcar. Também ocorreu redução do endividamento médio do setor, assim como evolução da posição de liquidez tanto pelo aumento de caixa quanto pelo reperfilamento da dívida.

Tais afirmações foram feitas pela economista Beatriz Ferreira durante evento realizado pelo Instituto de Pesquisa e Educação Continuada em Economia e Gestão (Pecege). Na ocasião, ela apresentou um estudo feito pelo instituto sobre os indicadores econômico-financeiros do setor sucroenergético durante o ciclo 2020/21, realizado com 88 grupos de açúcar e etanol.

“De forma geral, olhando para a média do setor, houve um ganho de musculatura financeira para a próxima safra, mas temos que lembrar que isso não foi unânime entre todas as usinas”, ponderou Ferreira. Isso ocorre, pois ainda existe grande disparidade entre os grupos que pode se intensificar num cenário de elevação significativa de preço e custos, como afirma a economista.

Ferreira ainda diz que o efeito do período de comercialização na apuração da receita líquida de vendas é essencial para identificar as diferenças entre as usinas da amostra. “Quando olhamos, por exemplo, para o preço do VHP, que vai ser refletido na receita líquida de vendas das usinas, ele vai ser fortemente impactado não só pelo mercado spot [à vista] mas pelos preços que foram fixados pelas unidades lá atrás”, destaca. Portanto, sofre influências tanto da fixação do preço do açúcar no mercado da ICE, de Nova Iorque, quanto do câmbio.

No caso do etanol, a comercialização é mais forte no mercado à vista, o que torna o período de venda importante. Conforme Ferreira, as usinas que tinham baixa liquidez e precisavam desse caixa comercializaram o biocombustível justamente no início do ciclo, gerando um efeito negativo na apuração da receita líquida de vendas.

Receita discrepante

De acordo com Ferreira, analisando a receita das usinas por tonelada moída, existe uma discrepância na amostra. O indicador foi dividido pela pesquisa em quartis, ou seja, quatro grupos com a mesma quantidade de usinas; o primeiro contém as unidades com os melhores resultados e o quarto, as com os piores.

“Os grupos que compõem esse primeiro quartil tiveram uma posição mais favorável tanto em relação às estratégias comerciais quanto à agregação de valor nos produtos. Algumas usinas comercializavam etanol neutro ou açúcar orgânico e por terem maior valor agregado elas ficaram nesse primeiro quartil”, completa Ferreira.

Por outro lado, várias unidades do último quartil não apresentaram nem geração de receita.
Ferreira ainda completa que, ainda que o preço do PLD tenha caído durante a safra 2021, fica clara a importância da atividade de exportação de bioeletricidade para formação da geração de caixa das usinas na média.

Vendas líquidas evoluíram

A economista ainda apontou que o indicador de evolução das vendas é um fator importante que impacta na geração de caixa de uma safra para outra. O comparativo da evolução das vendas líquidas entre os ciclos 2019/20 e 2020/21, dado por uma relação percentual, ou seja, pela divisão dos resultados dos dois anos, também foi apresentado em quartis pela análise do Pecege.

De acordo com Ferreira, no primeiro quartil, o valor máximo observado foi de 63,8%, ou seja, a usina com melhor desempenho da amostra aumentou sua receita líquida em 63,8% em 2020/21 no comparativo com o ciclo anterior.

Já o valor mínimo deste mesmo quartil foi uma relação de 30,6%; por sua vez, a média do primeiro quartil foi de 42,1%. Já o segundo grupo teve uma evolução média de 22,9%, o terceiro de 12,13% e o quarto de somente 0,1%, ou seja, a receita de uma safra para a outra foi praticamente a mesma.

pecege resultados 20 21 receita 291121

Diversos fatores influenciam na evolução das vendas. Dentre os pontos favoráveis à geração de receita está a capacidade de estocagem por parte de algumas usinas, dando a elas a possibilidade de arbitrar o preço do etanol e comercializar durante a entressafra, conforme explica Ferreira. Por outro lado, as usinas que estavam com uma posição de liquidez muito baixa e que precisavam do caixa tiveram uma evolução das vendas por vezes até negativa.

A flexibilidade do mix é outro fator de vantagem, pois no cenário de redução relevante do preço do etanol as unidades poderiam direcionar a produção de ATR para açúcar contrabalanceando o efeito. Inclusive, as boas fixações de preços da commodity também contariam como uma influência positiva.

Outra vantagem essencial ao aumento da receita foi a elevação da produtividade apresentada por algumas unidades, uma vez que mais produtos finais poderiam estar disponíveis para comercialização.

“Em relação a energia elétrica, vale ressaltar que a maior parte do setor tem contratos de fornecimento de longo prazo. Então essa variação que tivemos no mercado spot foi atenuada para empresas que têm estes contratos”, completa Ferreira. A comercialização de CBios também foi um fator importante de geração adicional de caixa além da venda de produtos com maior valor agregado, como os sanitizantes.

Portanto, as usinas que não conseguiram aproveitar estas vantagens acabaram com resultados negativos, explicando a dispersão dos resultados.

Resultado operacional em etapas

O Pecege também incluiu na análise a decomposição do resultado operacional médio do setor em relação à safra anterior, apresentando, portanto, os fatores que influenciaram para chegar na margem Ebitda ajustada.

Na média, de acordo com Ferreira, a evolução anual da receita por tonelada foi de 25,4% fechando o ciclo com uma receita média de R$ 193,91/t.

Já em relação aos custos dos produtos vendidos, a economista complementa que os grupos sucroenergéticos foram afetados de forma bastante significativa pelo preço do ATR. “Assim como tivemos a elevação da receita dos produtos finais, também houve aumento do preço do ATR na proporção de 18,3%, considerando o Consecana-SP”, detalha.

Ela complementa que o efeito deste aumento é diluído conforme a participação de cana própria de cada uma das usinas, se estabelecendo como mais um ponto de heterogeneidade no desempenho entre as unidades do setor.

Por outro lado, as companhias que têm uma porcentagem de cana própria sofreram uma pressão baixista nos custos dos produtos vendidos devido ao preço do diesel no período da colheita.

A diluição dos custos fixos também adveio da melhoria da produtividade; no fim das contas, houve um incremento safra-a-safra de 8,6% no indicador, considerando os custos dos produtos vendidos sem depreciação e amortização, totalizando R$ 93,78/t.

pecege resultados 20 21 decomposicao 291121

Em contrapartida, estão incluídos os dispêndios relacionados à formação do canavial, tratos culturais e manutenção de entressafra, contabilizados como capex. Em relação ao capex, Ferreira destaca alguns efeitos importantes: o primeiro deles é a pressão altista em relação ao preço internacional dos insumos e também à desvalorização cambial.

Além disso, várias usinas aumentaram a duração da entressafra em 2020/21 o que pressionou o capex justamente porque o gasto com manutenção de entressafra aumentou, gerando um crescimento de 13,4%, da média, nesta rubrica no comparativo com o ciclo anterior.

Já as despesas operacionais líquidas, considerando gastos gerais, administrativos e com vendas, sofreram um aumento anual porque o mix foi mais açucareiro, o que vai pressionar tais despesas com vendas.

“No consolidado, quando a gente olha o aumento do CPV, a despesa operacional líquida e o capex, o aumento não foi na mesma magnitude do ocorrido na receita, o que significa que tivemos uma geração operacional de caixa positiva,” conclui Ferreira.

Portanto, conforme o Ebitda ajustado pelo capex, que pode ser considerado o resultado operacional, o desempenho médio foi um rendimento de R$ 39,41/t – aumento de 158,2% em relação ao ciclo anterior.

Alocação do caixa das usinas

O resultado operacional, conforme pontua Ferreira, tem que ser suficiente para cobrir algumas despesas na alocação de caixa das empresas. “Se temos uma geração operacional de caixa de R$ 40/t, ela vai precisar, no primeiro momento, ser alocada para cobrir as despesas financeiras justamente porque o capital de terceiros geralmente está associado com uma garantia real e se não pagar essas despesas financeiras existe alguma forma de penalização”, detalha a economista.

Após essa quitação, é possível pensar em outras alocações desse caixa. Conforme Ferreira, a primeira destinação seria a remuneração do acionista e a segunda seria, por exemplo, um processo de desalavancagem.

Portanto, após cobrir os juros dos empréstimos e financiamentos e remunerar o acionista adequadamente, a geração operacional de caixa poderia ser alocada na redução do endividamento da usina.

As empresas que têm uma relação entre o Ebitda ajustado pelo capex sobre a despesa financeira maior que 1 geram recurso operacional suficiente para cobrir tais débitos e ainda possuem sobra de caixa livre para fazer essas duas operações, segundo Ferreira.

Por outro lado, existem usinas onde tal relação é inferior a 1. Neste caso, ainda que a geração tenha sido positiva, ela é totalmente alocada na cobertura das despesas financeiras e ainda assim, em alguns casos, poderia faltar recursos, segundo destaca Ferreira. Neste caso, uma opção possível é a de aumento do endividamento para cobrir os juros dos empréstimos e financiamentos e também para realizar a amortização da dívida de curto prazo.

Por fim, as usinas que não conseguem gerar caixa operacional estariam no chamado círculo vicioso. “Essas usinas precisam cobrir as despesas financeiras só que não têm recursos oriundos da atividade”, informa a economista.

Neste caso, a alternativa para continuar a operar é aumentar o endividamento; ao mesmo tempo, quando as usinas já estão em uma situação complicada e não geram caixa de forma operacional existe o aumento do risco associado a elas e, consequentemente, a taxa de captação tende a ser maior, segundo Ferreira. “Se a taxa de captação é maior eu não vou ter recursos suficientes para investir”, complementa.

O círculo vicioso se inicia, uma vez que se a usina não consegue investir, tampouco melhorar seu desempenho, não gerando caixa e agravando o endividamento a cada safra.

Desalavancagem para quem pode e quer

Considerando o setor como um todo, pela análise do Pecege, as sucroenergéticas passaram por uma desalavancagem, ou seja, redução do seu endividamento durante o ciclo 2020/21 no comparativo com 2019/20.

Isto fica claro tanto ao olhar para os indicadores de endividamento total (que considera o passivo total sobre o patrimônio líquido) quanto para o endividamento oneroso (que leva em conta os empréstimos e financiamentos de forma mais relevante). Ainda assim, este processo não foi unânime, declara Ferreira.

Dentre as usinas que fazem parte da amostra do Pecege, ainda que 61,97% delas tenham reduzido o endividamento total, 38,03% não sofreram tal retração. “Isso ocorre, pois nem todas as unidades geraram caixa operacional suficiente, que seria a melhor alternativa para desalavancagem nesses casos específicos”, pontua a economista.

Ainda que as usinas tenham gerado caixa positivo, pode ser que a variação da dívida delas tenha sido tão grande em moeda estrangeira, por exemplo, sofrendo com o processo de desvalorização cambial, que mesmo com qualidade operacional não conseguiram ter recursos suficientes para abater os débitos de forma significativa.

Além disso, nem todas as usinas buscam a redução do endividamento, ainda que tenham capital suficiente para fazer isso. “Existem algumas usinas que tem um endividamento maior do que a média do setor e optam por alocar o fluxo de caixa livre em outras atividades que não a redução do endividamento porque a estrutura de capital delas é adequada e minimiza o custo médio ponderado de capital”, explica Ferreira.

Isso é possível, pois a captação que estas companhias conseguem no mercado tem uma taxa menor do que o custo de oportunidade do capital próprio devido a sua estrutura operacional mais eficiente. Vale destacar que o custo de oportunidade do setor sucroenergético já tende a ser maior por conta da volatilidade inerente desse setor.

“Nem todas as usinas querem sofrer esse processo de desalavancagem justamente porque a manutenção daquele nível é o adequado para que elas minimizem o custo médio ponderado de capital”, complementa Ferreira. Outra preferência da empresa pode ser a alocação relacionada à política de distribuição de lucro.

Melhora na alavancagem

O grau de alavancagem financeira (GAF) é outro indicador pertinente que demonstra o retorno do acionista por manter uma estrutura de capital alavancada. Ele é calculado pelo retorno com base no patrimônio líquido (ROE) sobre o retorno pelo investimento total (ROI).

Se o resultado desta relação for maior que 1, significa que o acionista está tendo um retorno positivo para manter sua estrutura de financiamento, ou seja, a geração de retorno da operação é suficiente para compensar a captação de recursos e a aplicação da atividade.

Analisando os indicadores do setor, em 2020/21, o ROE de 23,7% foi “muito expressivo”, em comparação com ROI de 12,1%. A razão entre estes dois indicadores é de 1,96 vez, confirmando uma alavancagem favorável. Um ano antes, este indicador era de 0,15 vez e, em 2018/19, de 0,04 vez.

pecege resultados 20 21 alavancagem 291121

Ferreira complementa que é preciso ter cuidado na análise desse indicador, uma vez que os resultados das safras anteriores foram abaixo de 1, considerado “proporção áurea”.

“Temos que tomar cuidado porque pode ser que a safra 2020/21 tenha sido de geração de lucro líquido muito significativa e que as outras safras não sejam. Isso vai depender muito do desempenho operacional e da eficiência de cada uma das usinas, então isso precisa ser analisado caso a caso”, alerta.

Troca de dívidas

No indicador de liquidez corrente, comparando as safras anteriores com a 2020/21, também houve uma melhora do indicador médio, derivada principalmente da geração de caixa mais robusta e do reperfilamento da dívida por alongamento do prazo médio para pagamentos. O indicador, portanto, foi de 1,3 ponto.

Conforme Ferrreira, o fato de a Selic ter ficado inferior a 2% ao ano em 2020 afetou de forma significativa a redução das despesas financeiras associadas à dívida e, de forma geral, aumentou o apetite dos investidores para o mercado financeiro.

Neste cenário, muitas usinas optaram por trocar os empréstimos de curto prazo à taxa de juros prefixadas que estavam muito maiores que a referência da Selic e entraram no mercado de capital com a emissão de debêntures ou Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs). “Algumas emitiram debêntures e a garantia seria os precatórios a serem recebidos dos processos contra o Instituto de Açúcar e Álcool (IAA)”, detalha a economista.

A troca da dívida de curto prazo para a de longo prazo, portanto, aumentou a liquidez média no setor no comparativo entre os dois ciclos. Por outro lado, as usinas que estão no quarto quartil da análise do Pecege, ou seja, as com piores médias, ainda assim tiveram desempenhos inferiores com uma liquidez corrente inferior a 2 pontos.

Isso significa que se unidades parassem de operar agora, os ativos não seriam suficientes para cobrir o passivo de curto prazo. “Mesmo que tivessem uma safra boa, essas usinas não conseguiram melhorar de forma significativa os indicadores de liquidez e, portanto, estão em uma situação frágil quando olhamos para esse indicador”, diz Ferreira.

Impacto do ATR

Em relação especificamente à quantidade processada de ATR, que não só determina em grande medida a receita líquida de vendas, mas também o custo de produção unitário, houve um aumento de 5,3% no comparativo entre o ciclo 2019/20 e 2020/21, saindo de 89,52 milhões de toneladas para 94,29 milhões de toneladas. Já a produção de ATR por hectare saiu de 10,6 quilogramas para 10,94 quilogramas no mesmo comparativo.

Os dois aspectos fundamentais para determinar esse aumento foi o incremento das chuvas e um posterior período seco durante a colheita o que favoreceu a concentração de açúcar no colmo da cana-de-açúcar, explica Ferreira.

pecege resultados 20 21 ATR 291121

A economista destaca que com o aumento da produtividade, em relação às toneladas de açúcar por hectare, em um setor com elevada alavancagem operacional, ocorre a redução do custo médio de produção de açúcar e etanol. Isso se dá, pois o lucro varia de forma mais intensa que a receita. “Se eu tenho uma variação de receita, por exemplo, de 10%, o lucro vai variar em 15%. Isso é importante pela característica de custo fixo majoritário que temos no caso da produção de cana-de-açúcar”, detalha.

A já conhecida disparidade

Por conta da heterogeneidade inerente ao setor, o Pecege fez um outro exercício de análise e dividiu a amostra estudada em três grupos com a mesma quantidade de usinas para avaliar todos os indicadores.

Para isso, foi utilizado como baliza a geração operacional de caixa desses grupos no ciclo 2020/21, ou seja, o indicador de margem Ebitda ajustado pelo capex. Além disso, as mesmas unidades foram avaliadas em relação à safra 2019/20.

O grupo A teve um aumento expressivo da geração operacional de caixa fazendo com que o indicador passasse de uma margem de 16,93% para 37,74%.

Tal aumento reforçou a posição de liquidez média destas usinas, segundo Ferreira, que passou de 2,13 pontos para 2,60 pontos, assim como reduziu o endividamento por meio da desalavancagem. Portanto o endividamento, contabilizado como a relação entre o passivo oneroso e o ativo total, caiu de 39,57% para 38,96%.

“Essas empresas são as que chamamos de elite do setor e que apresentam grande eficiência operacional; isso está demonstrado na geração operacional de caixa. Elas têm flexibilidade de mix, então o que eles puderam fazer para direcionar mais para açúcar e ganhar com essa diferença de preço relativos em relação à safra anterior, eles fizeram”, destaca Ferreira.

As companhias também possuem estratégia comercial assertiva com bons preços de açúcar fixados no período anterior e que culminou na elevação da receita líquida na safra 2020/21. A posição de liquidez, que já era confortável, foi incrementada com a evolução do resultado operacional.

Em relação ao endividamento, a desalavancagem foi tímida, uma vez que muitas empresas já tinham uma estrutura de capital ideal e reduziram de forma menos expressiva o endividamento se livrando dos débitos que tinham maior custo de captação e ficando com os juros menores.

“Esse grupo ganhou musculatura financeira. Os bons resultados da safra 2020/21 fizeram com que eles melhorassem a posição deles em todos os indicadores que consideramos, melhorando também o perfil de risco”, completa Ferreira.

pecege resultados 20 21 geral 291121

Já o chamado grupo B representa a média do setor; na safra 2019/20 eles tinham uma margem Ebitda (descontando o capex total) “tímida” de 9,85%, conforme destaca a economista, que passou para 17,88% na safra 2020/21; foi um movimento bem grande de aumento da geração operacional de caixa.

A liquidez corrente também cresceu de forma relevante, segundo a economista, de 1,37 ponto para 1,67 ponto; o endividamento caiu de maneira bastante discreta de 44,66% para 44,52%.

“Essa redução do endividamento não foi tão ampla justamente porque em alguns casos mesmo que haja a geração operacional de caixa, não foi o suficiente para obter um processo amplo de desalavancagem”. Ainda assim, segundo Ferreira, o grupo B apresentou uma melhora significativa em relação à safra anterior, fato que pode dar mais musculatura para o ciclo 2021/22.

Por outro lado, no grupo C, estão reunidas as usinas com os piores desempenhos. A geração operacional de caixa saiu de -8,15% para -3,39% no comparativo ano a ano.

“Ao mesmo tempo que elas têm fluxo de caixa negativo precisam aumentar obrigatoriamente as dívidas para continuar na atividade e foi justamente isso que foi revelado pela métrica de endividamento”, completa Ferreira.

Portanto, o passivo oneroso sobre ativo total passou de 49,03% para 52,74% revelando um crescimento dos débitos.

A liquidez corrente, por outro lado, ampliou e não por conta de melhora do desempenho operacional, mas especialmente por reperfilamento da dívida. “Algumas dessas usinas conseguiram renegociação de empréstimos e financiamentos bancários para alongar o prazo de pagamento”, detalha.

Entretanto, a economista completa que isso não significa que as unidades melhoraram a estrutura de capital, mas sim o seu perfil de vencimento nas dívidas, fato que pode gerar um problema no longo prazo em relação à novas taxas de captação.

A vulnerabilidade do grupo pode acarretar dificuldades na contratação de novos empréstimos e financiamentos, por exemplo, para investimento da atividade e melhoria do desempenho operacional, segundo Ferreira. Com isso, ainda que tenha melhorado o desempenho em relação ao ciclo anterior, essas empresas ainda estão na “berlinda”.

Contexto da safra: preços

Entender o contexto em que os resultados se deram é essencial para compreender os números avaliados pelo Pecege. Conforme relembra Ferreira, antes mesmo do início efetivo do ciclo 2020/21, o prognóstico da safra que viria era favorável e já se esperava uma temporada de recordes com aumento da moagem e melhores preços dos produtos. O etanol tinha valores remuneratórios, portanto, no final de 2019/20 e o açúcar estava em uma trajetória de ascensão dos preços puxados pelo potencial déficit global.

“Um outro ponto importante do panorama de antes do início da safra 2020/21 foi justamente a queda da Selic, da taxa média de juros da economia; essa queda impactaria tanto as despesas financeiras quanto o incentivo de investimentos no setor que naquela época aparentava ter um céu de brigadeiro à sua frente”, rememora Ferreira.

As boas notícias não pararam por aí, uma vez que o ciclo também era o início da comercialização de CBios, com programa RenovaBio entrando no jogo em 2020; algo favorável do ponto de vista de políticas públicas para o setor, segundo destaca a economista.

Com a vinda da pandemia e das restrições inerentes a ela, o cenário começou a mudar. A queda acentuada da demanda de etanol foi agravada pela guerra de preços do petróleo entre Rússia e Arábia Saudita. Ainda que houvesse um processo de grande desvalorização cambial, o preço do etanol sofreu uma queda significativa. “E aí nesse início de safra principalmente as destilarias começaram a se preocupar de forma mais relevante justamente porque haveria uma queda de preços e elas não teriam flexibilidade para ajustar a produção para açúcar”, complementa Ferreira.

O preço do açúcar VHP também teve um solavanco, ainda que bem mais breve que o biocombustível. “O que a gente teve, entretanto, foi uma recuperação dada a desvalorização cambial que foi instrumentada nesse período, então a queda do preço do açúcar VHP e do etanol, inclusive via paridade com a gasolina, foi menor do que aquela que potencialmente existiria caso a gente seguisse exclusivamente os preços internacionais”, detalha Ferreira.

Além disso, a energia elétrica também sofreu com retrações no período, ampliando a preocupação das usinas, principalmente em relação à rentabilidade da safra 2020/21.

Passado o susto inicial, o consolidado da temporada demonstrou recuperação tanto no mercado de etanol com a retomada do consumo e do preço internacional. “Tivemos uma trajetória de ascensão do preço do etanol a partir de junho de 2020 e também do preço do açúcar”, recorda Ferreira.

Contexto da safra: produção

Outro ponto de destaque no ciclo foi a melhoria da produtividade dada em toneladas de ATR por hectare de cana.

Um relatório realizado pelo instituto comenta que o avanço de melhores práticas agronômicas com mais investimento no campo, boas condições climáticas com mais chuvas no período de formação dos canaviais e priorização da colheita inicial de canaviais mais jovens, expansão do plantio por meio de meiosi e retração do plantio de cana de 12 meses devido à seca foram os fatores determinantes para o crescimento da produtividade.

“A elevação da produtividade foi a maior responsável pelo aumento da moagem, o que majorou a apuração de receita e, por outro lado, auxiliou no processo de diluição dos custos fixos – um ponto importante em um setor que apresenta alta alavancagem operacional”, acrescenta o documento.

Montagem da amostra

Para a realização da análise, o Pecege utilizou tanto dados publicados em diário oficial e nos sites das próprias empresas quanto informações enviadas para a instituição.

A pesquisa agrega dados do ciclo 2020/21 de 88 grupos econômicos, representando 168 unidades com fechamentos em dezembro de 2020, contemplando o ano-civil, e março de 2021, equivalendo ao ano-safra – ainda que a maioria das unidades costume publicar a segunda opção, algumas delas utilizam a primeira.

Na amostra, 13 unidades estão localizadas na região Norte-Nordeste e outras 155 no Centro-Sul; o estado com maior amostragem foi São Paulo, com 94 usinas.

Conforme o relatório do Pecege, tais unidades foram responsáveis por 480 milhões de toneladas de moagem de cana, o equivalente a 75% do total esmagado na safra em questão.

Ferreira destacou que a amostragem foi bastante heterogênea contando, por exemplo, com a gigante sucroenergética Raízen, com usinas concentradas no Centro-Sul, e também com a Miriri, grupo que possui apenas uma unidade localizada em Santa Rita (PB).

Segundo o relatório, as demonstrações contábeis foram padronizadas individualmente para cada grupo; além disso, o estudo apresenta uma visão do consolidado do setor, agregando todas as usinas da amostra.

Gabrielle Rumor Koster – NovaCana

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