Mesmo faltando pouco mais de três meses para o término oficial da safra 2015/16 na região Centro-Sul, as usinas já estão de olho em um aspecto que pode fazer toda a diferença na próxima temporada: a cana bisada
Mesmo faltando pouco mais de três meses para o término oficial da safra 2015/16 na região Centro-Sul, as usinas já estão de olho em um aspecto que pode fazer toda a diferença na próxima temporada: a cana bisada.
Mas esta não é a única preocupação. A melhora recente nos preços do açúcar e etanol não foram bem aproveitadas por grande parte das usinas e os resultados do próximo ano serão decisivos para muitos grupos.
O portal NovaCana ouviu várias consultorias do mercado sobre o desenvolvimento do mercado em 2016 e os detalhes você confere a seguir:
- Cana bisada
- Impactos do El Niño gera controvérsia
- O ritmo de renovação dos canaviais
- As ampliações de capacidade de moagem
- Em busca de novos mercados
- Acesso ao crédito
Mesmo faltando pouco mais de três meses para o término oficial da safra 2015/16 na região Centro-Sul, as usinas já estão de olho em um aspecto que pode fazer toda a diferença na próxima temporada: a cana bisada.
A estimativa do superintendente da Orplana, Celso Albano, é de que diversas usinas estendam a safra, inclusive com colheitas de janeiro a março. “Elas querem aproveitar o tempo, o que eu acho difícil porque está chovendo de uma maneira geral”, considera.
O diretor da Canaplan, Luiz Carlos Corrêa de Carvalho, por sua vez, acredita na possibilidade de um recorde de passagem de cana bisada para a próxima temporada. Ele estima que esse número será cerca de 7%, quando o normal é de 2 a 3%.
“Será um total acima de 40 milhões de toneladas de cana bisada. As usinas precisam saber usar esse período, pois é equivalente a praticamente uma quinzena cheia”, afirma.
Quem faz um alerta, contudo, é o analista de açúcar e etanol da INTL FCStone, João Paulo Botelho. Ele explica que os usineiros não podem exagerar o potencial da cana bisada, pois as áreas com mais cana – São Paulo, Paraná e Mato Grosso do Sul – são as que devem continuar sob a influência do El Niño. Assim, é provável que o clima continue a prejudicar esses estados ao longo de 2016.
Influência do clima ainda gera controvérsias
Ainda de acordo com Botelho, São Paulo, Paraná e Mato Grosso do Sul foram os estados que mais sofreram com as chuvas desta safra, que dificultaram a moagem e atrapalharam a produtividade agrícola.
Ele explica que minimizar essas dificuldades é difícil para os produtores que utilizam a colheita mecanizada, pois ela é mais sujeita a pausas por causa do clima. “É preciso otimizar o transporte da cana e a produção industrial”, sugere.
Corrêa de Carvalho, da Canaplan, também comentou que, em 2014, o setor sucroenergético criou uma grande expectativa. “Tivemos um verão extraordinário, mas costumamos dizer que é o outono que fecha a posição da safra”, alerta.
Assim, ele classificou 2015 como excepcional: “Tivemos uma recuperação agrícola acima do que imaginávamos no ano passado”. Contudo, ele pondera que as chuvas reduziram o ATR, de modo que houve um aumento no custo agrícola.
O sócio-analista da Agroconsult, Fabio Meneghin, lembra que o ATR médio acumulado está com uma queda de 3,2% na atual safra. De acordo com ele, 2015 foi, basicamente, um ano de recuperação da moagem que tinha sido prejudicada pela forte estiagem no ano passado.
Meneghin ainda observa que o El Niño deverá impactar também os resultados até março.
Para a safra 2016/17, no entanto, ele é reticente em fazer uma previsão e até aponta outras possibilidades. “As previsões estão muito díspares. Já há quem fale em um La Niña para 2016, configurando-se num ano mais seco”, avalia.
Seguindo um raciocínio similar, o diretor da Canaplan observa que fenômenos como o El Niño e o La Niña sempre geram muitas dúvidas. “Analistas de clima supõem que teremos uma safra mais úmida. Mas há muitas dúvidas, não dá para nos planejarmos”, lamenta.
Renovação dos canaviais continua necessária
Outro aspecto que também interfere na produtividade e nos custos agrícolas é a renovação dos canaviais. Conforme explica Corrêa de Carvalho, da Canaplan, na média dos últimos anos houve uma queda na idade dos canaviais. No entanto ele, acredita que essa média deve piorara, indicando um canavial mais envelhecido, de 3,2 anos para 3,4 anos. “Assim, veremos uma safra menos produtiva no ano que vem”, conclui.
Meneghin, da Agroconsult, é taxativo ao afirmar que os canaviais brasileiros estão mais velhos que o recomendado. Segundo ele, o envelhecimento da cana é ainda maior: a idade média atual está próxima de 3,8 anos, quando o ideal seria perto de três anos. “Há uma lição de casa a fazer ao longo de 2016, que é aumentar a renovação”, afirma.
Para o sócio da Agroconsult, o setor precisa voltar a renovar cerca de 1,5 milhão de hectares, sendo que hoje o nível está em 900 mil hectares. “Só para fazer essa renovação são necessários R$ 8 bilhões, porém, a linha do ProRenova é de apenas R$ 2 bilhões. O setor tem que se virar com misto de capital próprio e financiamentos privados”, observa.
O analista de açúcar e etanol da INTL FCStone, João Paulo Botelho, concorda que a taxa de renovação está abaixo do ideal, impactando a margens das sucroenergéticas e na manutenção do negócio. “O custo médio aumenta com a queda de produtividade e estimula uma redução nos investimentos”, observa.
“As chuvas abundantes e a boas previsões para o verão deverão compensar a idade elevada e resultar numa boa produtividade média”, Fabio Meneghin (Agroconsult)
De acordo com Celso Albano, da Orplana, a queda do ATR deste ano é um fator relacionado tanto às chuvas quanto à idade dos canaviais. Segundo números apresentados por ele, as reformas de canavial estão acontecendo em uma margem de 10% a 11%. Esse número está bem aquém da renovação ideal de pelo menos 18% da área no Centro-Sul e também menor que a taxa de renovação do ciclo 2014/15, que ficou em torno de 14%.
“Caso tenha uma melhora de mercado, o produtor de cana vai acabar investindo mais nos seus canaviais. Com preço baixo, a redução de custos acaba diminuindo o investimento e não se faz a reforma no tempo adequado”, explica Albano e complementa: “Acredito que, no ano que vem, pode-se intensificar a reforma, mas apenas se os preços maiores se concretizarem”.
Ampliações nas usinas
Assim, para a próxima safra, Botelho da FCStone, acredita que haverá um aumento nos investimentos em renovação. Mas isso não deve se estender em investimento nas usinas. Ele complementa: “A renovação industrial, no entanto, ainda não é viável. Isso vai demorar alguns anos”.
Com um raciocínio diferente, Meneghin, observa que, apesar da crise do setor, as usinas sempre investiram em pequenos aumentos de capacidade de moagem. “A capacidade média vem subindo ano a ano. Pouco, é verdade, mas está em alta”, garante. “A expansão de usinas já existentes, retrofits em algumas e a reativação de usinas fechadas na crise é o que veremos no médio prazo”.
O sócio-diretor da Job Consultoria, Julio Maria Borges, no entanto, é mais cauteloso. “Em um primeiro momento não devemos ter investimentos em expansão. A prioridade é administrar as finanças e reduzir os passivos”, alega.
Melhoras nos preços não beneficiou todo mundo
Borges aposta que a melhora nos preços do açúcar só vieram por causa do El Niño, que prejudicou as safras da Ásia e da América Central. “A partir de setembro, os preços melhoraram muito, indo de 10 cents para 15 cents em Nova York”, relata. Estes preços, a princípio, no entendimento dos analistas consultados, não devem ser uma fonte de problemas ao longo de 2016.
“Essa safra começou mal, muito mal. Os preços estavam muito baixos, uma situação complicada e pior que a da safra passada”, Julio Maria Borges (Job Consultoria)
Mesmo com essas melhoras nos preços, contudo, Borges argumenta que as usinas que comercializaram fortemente a produção no primeiro semestre vão se beneficiar menos. Segundo ele, o benefício ficou justamente para os grupos que estavam mais capitalizados e que, assim, conseguiram manter estoques.
Fabio Meneghin, da Agroconsult, concorda. De acordo com ele, quem mais se beneficia da melhora nos preços são as usinas que não precisaram "queimar" etanol para fazer caixa no início e no meio da safra. “Em tese, essas são as usinas melhor capitalizadas e com endividamento relativo dentro dos padrões normais. Quem tem elevado endividamento, principalmente de curto prazo, ainda está apenas sobrevivendo”, comenta.
Ele é outro que comemora a melhora dos preços no açúcar em reais, suportado pela valorização do dólar e pela alta na bolsa de Nova York: “A virada do ano na safra do açúcar levou o mercado a visualizar para 2015/16 o primeiro déficit mundial após cinco safras seguidas de superávit”.
Conforme o balanço realizado pela Agroconsult, Meneghin afirma que é esperado um déficit de 4 milhões de toneladas de açúcar no mundo em 2015/16 e, provavelmente, um novo déficit em 2016/17. “Não se pode esquecer que o mercado trabalha com a paridade de exportação de açúcar do Brasil e já está em um nível remunerador ao produtor. Não há razão para o mercado subir mais a não ser uma forte quebra de safra em algum país importante”, alerta.
Assim, ele prevê um mix de produção similar ao atual, com cerca de 42% da cana para o açúcar e 58% para o etanol. Ele ainda completa: “Esta é a primeira safra com receitas em alta após quatro anos de estagnação. A alta das receitas é para todos, porém, nem todo mundo vai registrar lucro este ano”.
Além disso, Carvalho, da Canaplan, relembra que o setor sucroenergético aumentou a produção de etanol, mas os preços despencaram até setembro. Embora os últimos meses do ano tenham trazido uma recuperação, ele reforça o coro de que foram poucos os que conseguiram manter os estoques.
“[As que conseguiram bons resultados] são as empresas mais capitalizadas, os grupos que não expandiram acima do necessário, que tiveram um crescimento orgânico nos últimos anos”, Luiz Carlos Corrêa de Carvalho (Canaplan)
“As usinas que se beneficiaram não chegam nem a um terço do total”, descreve. Ainda assim, de modo geral, ele acredita que as perspectivas são positivas: “Os preços subiram de patamar e estamos com perspectiva de safra de açúcar com déficit de oferta. O etanol continua esperando uma posição do governo”.
Segundo o analista de açúcar e etanol da FCStone, a principal frustração do setor sucroenergético ao longo de 2015 foi justamente não conseguir aproveitar tão bem os preços, que aumentaram a partir de setembro.
Em busca de novos mercados
Mais do que contar com melhores preços para os produtos, o diretor da Canaplan, Luiz Carlos Corrêa de Carvalho, acredita que é preciso estar atento a novas possibilidades. Ele comenta, por exemplo, que os Estados Unidos tiveram um aumento de volume em suas metas para combustíveis avançados. Para ele, essa busca por novos mercados para a exportação de etanol é muito importante devido ao limite de oferta do mercado nacional.
“Existe um esforço grande do setor em produtividade e busca por novos mercados. Com o protecionismo e os subsídios vindos da Ásia, cresceu a oferta de açúcar com níveis de preços menores que os custos de produção”, justifica.
Acesso ao crédito
O analista ainda observa que o endividamento do setor, majoritariamente em dólar, criou uma situação complicada nos últimos anos. “Tivemos um aumento de custos com uma diminuição da produtividade”, comenta. Isso levou a um endividamento crescente e a um consequente menor acesso a financiamentos e empréstimos.
Essa grande dificuldade de acesso ao crédito, conforme explica o diretor da Canaplan, Luiz Carlos Corrêa de Carvalho, deve continuar. O resultado disso, de acordo com ele, é um menor uso de tecnologia pela indústria e um menor plantio.
Mas para Fabio Meneghin já é possível ver uma luz no fim do túnel. De acordo com ele, o principal efeito da recuperação parcial do setor, observada nos últimos meses, é a mudança de humor dos principais agentes e também dos credores.
Mesmo assim, ele é cauteloso: “Ainda não é possível ver que os investimentos estão retornando. Nem mesmo os investimentos agrícolas, pois tudo depende de crédito, e este está mais caro e mais escasso”.
Renata Bossle – NovaCana
Com colaboração de Marina Gallucci

