Uma ampliação significativa da produção de etanol combustível no Brasil poderia constituir um projeto nacional desenvolvimentista. De fato, uma série de fatores pode favorecer essa hipótese:
- A escalada dos preços do petróleo, que melhora a competitividade do etanol face à gasolina;
- A redução das emissões de gases de efeito estufa proporcionada pelo uso do etanol proveniente da cana-de-açúcar para substituir gasolina;
- A grande disponibilidade de terras aptas para o cultivo da cana no país (o que inclui a recuperação de áreas de pastos degradados), sem necessidade de avançar sobre os principais biomas naturais remanescentes, em particular Amazônia, Pantanal e Mata Atlântica;
- A elevada produtividade, em termos de energia de biomassa por unidade de área, apresentada pela cana-de-açúcar e que ainda pode ser melhorada consideravelmente com o incremento do aproveitamento energético do bagaço e da palha;
- O fato de que tecnicamente, não há restrição ao uso de uma mistura de até 10% de etanol (E10) à gasolina utilizada nos atuais veículos;
- A expectativa de relaxamento das barreiras protecionistas ao etanol nos países industrializados e a expansão da produção nos países do trópico úmido, o que pode facilitar a criação de um mercado internacional para o etanol combustível, tornando-o uma commodity;
- Os benefícios socioeconômicos advindos do efeito multiplicador do crescimento do setor, em função de sua ligação com toda a cadeia produtiva da economia, trazendo impactos expressivos na geração de emprego e renda.
Com efeito, com o objetivo de reduzir a dependência dos combustíveis fósseis, vários países têm incrementado o uso de etanol em sua matriz energética, seja para adicioná-lo diretamente à gasolina, seja para a fabricação de oxigenante. Destacam-se, especialmente, os programas de muitos países que fixaram metas de participação de biocombustíveis em suas matrizes em prazos inferiores a 20 anos.
O consumo mundial de gasolina foi de 1,22 trilhão de litros em 2006 (IEA, 2009), e estima-se que em 2025 deverá ser de 1,70 trilhão de litros. Em um estudo do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos da Unicamp (CGEE), foram examinadas as condições necessárias para que o Brasil atenda à demanda mundial de etanol de cana-de-açúcar, para substituir 10% do consumo global de gasolina em 2025, o que corresponderia a uma produção de 205 bilhões de litros de bioetanol ao ano e requereria uma área adicional de 24 Mha para cultivo da cana, área pouco superior à ocupada com soja atualmente (20,6 Mha em 2007) e equivalente a pouco mais de 10% da atualmente destinada a pastagens.
Oportunidades para o etanol como combustível
Há poucos exemplos na história da humanidade, e do Brasil em particular, de uma conjuntura de tantos fatores convergentes favoráveis a um projeto nacional desenvolvimentista, como é o caso da expansão da produção de etanol combustível. Dentre inúmeros fatores favoráveis, podemos destacar:
- Aumento dos preços do petróleo no mercado internacional que, mesmo exibindo um comportamento oscilante, tem caráter estrutural, como consequência da aproximação do pico de produção do petróleo e da crescente pressão sobre a demanda exercida principalmente pelos países emergentes. O consumo mundial de gasolina aumentou 15,9% entre 2000 e 2005, e o consumo mundial de petróleo aumentou 12,0% entre 2000 e 2007, com China e Índia apresentando crescimentos de 57,7% e 31,6%, respectivamente (EIA, 2009);
- O progressivo reconhecimento em todo o mundo das consequências ambientais devidas ao aquecimento global e sua correlação com o consumo de combustíveis fósseis. Esta conscientização é reforçada por inúmeras observações atuais, como a retração de geleiras e neves permanentes em toda a crosta terrestre (inclusive da Groenlândia), assim como das calotas polares sul e norte, os Alpes, o Complexo do Himalaia, etc. Além disso, um número crescente de especialistas afirma que o aumento da gravidade de catástrofes climáticas, como ondas de calor, furacões, ciclones, inundações, secas, etc., (intensidade por um fator de 6 de 1970 a 2005, e de frequência de 2,5 a 3 no mesmo período) é consequência do aquecimento global. Assim, cresce a convicção em toda a sociedade de que alternativas aos combustíveis fósseis devem ser buscadas com urgência;
- Os custos de produção do etanol combustível produzido a partir da cana-de-açúcar vêm caindo sistematicamente e já é competitivo com a gasolina, com o preço do petróleo em torno de US$ 50 o barril; em contrapartida, as projeções para o preço de importação do petróleo da International Energy Agency (World Energy Outlook 2008) indicam valores superiores a US$ 100 o barril (referentes a 2007) a partir de 2020, o que tornaria o etanol ainda mais competitivo;
- Em 2005, a área ocupada com cana no Brasil era de 5,8 Mha, com soja, 22,9 Mha, e a área usada para pastagens era de 197,0 Mha (FAO, 2008). Em relação ao mesmo ano, de acordo com os dados do IBGE (2008) e da FAO (2008), o valor da produção de cana-de-açúcar, álcool e açúcar por hectare de cana plantada foi de R$ 9.100; o valor da produção da soja, óleo de soja e farelo, por hectare plantado de soja, foi de R$ 2.100; e o valor da produção do gado de corte, da produção de leite e do abate foi de R$ 400 por hectare utilizado de pasto. Nos valores apresentados, a cana-de-açúcar e seus principais produtos têm nítida vantagem em termos do valor da produção por hectare cultivado, revelando-se uma opção preferencial em termos econômicos;
- Outros grandes países também produtores de etanol de cana, tais como Índia e China, apesar de menos competitivos por causa do clima (regime de chuvas, temperatura, etc.) ou da qualidade e da disponibilidade de solo, estão realizando presentemente ingentes esforços para ampliar suas produções. Essas iniciativas, assim como a mobilização do potencial produtivo dos cerca de 130 países produtores de cana-de-açúcar, certamente poderão contribuir para a formação de um mercado internacional de etanol, de maior interesse para o Brasil, em função do seu avanço tecnológico e de suas vantagens comparativas no tema;
- O etanol de cana-de-açúcar é atualmente a opção de biomassa energética de maior produtividade por unidade de área e de melhor balanço energético, que é a razão entre a energia que sai na forma de produto (etanol e energia mecânica, térmica e elétrica) e a energia fóssil consumida na cadeia produtiva. Enquanto o etanol de milho produzido nos EUA apresenta um balanço energético entre 1,2 e 1,4, o de cana-de-açúcar é superior a 8. A despeito dessa produtividade e balanço energético já elevados, pode-se esperar, ainda, significativo avanço nesses indicadores por dois motivos:
- Em primeiro lugar porque, até o presente, apenas uma parcela do bagaço excedente é aproveitada, com baixo rendimento, para fins energéticos (por exemplo: cogeração) e, em segundo lugar, porque a palha ainda não é aproveitada para fins energéticos, o que corresponde ao desperdício de um terço da energia primária de cana; com efeito, para a produção de 493 milhões de toneladas de cana na safra 2007/2008, a energia primária total da cana seria equivalente a 1,7 milhão de barris/dia e a parte da palha corresponderia a 580 mil barris/dia (30% da produção nacional de petróleo), esta última totalmente inaproveitada;
- Ademais, as variedades atualmente em uso foram desenvolvidas para produzir açúcar e não energia, o que permite supor que uma reversão de objetivos possa aumentar a produtividade para o etanol. Tecnologias de 2ª geração (hidrólise, gaseificação e pirólise) poderão aumentar a eficiência de conversão energia solar-energia química do etanol, dos atuais 0,5% para algo próximo a 1%.
Com tantos fatores favoráveis, é possível conceber uma expansão significativa da produção de bioetanol no Brasil como uma oportunidade de desenvolvimento socioeconômico nacional com impactos particularmente favoráveis nas áreas rurais. A avaliação efetuada neste estudo permitiu identificar uma disponibilidade de terras férteis, desimpedidas do ponto de vista legal e ecológico, com declividade e intensidades pluviométricas adequadas para a cultura canavieira mecanizada, de aproximadamente 90 Mha, sem invadir áreas destinadas ao cultivo de alimentos. Naturalmente que essas considerações servem apenas para aquilatar as potencialidades extremas dessa opção desenvolvimentista. Assim, o cenário analisado neste estudo, de substituir 10% da gasolina do mundo por etanol de cana-de-açúcar produzido no Brasil, que demandaria uma área plantada de 25 Mha, é perfeitamente realista do ponto de vista de nossa capacidade produtiva, muitas vezes superior à necessária para atender a tal cenário.
Dando continuidade a avaliação dessas perspectivas, veja a projeção de crescimento da demanda de gasolina para 2025 e o mercado potencial do bioetanol.