Pesquisa apresenta o raio-X dos 67 pedidos de recuperação de sucroalcooleiras, mostrando o perfil predominante de moagem, de produção e de dívida das unidades
O primeiro pedido de recuperação judicial de uma usina foi feito em 2008, pela Cia. Albertina, em Sertãozinho (SP). De lá para cá dezenas de outras usinas em várias regiões do Brasil recorreram à recuperação judicial.
A seguir, apresentamos uma compilação e análise dos dados das empresas do setor que já buscaram socorro através da lei nº 11.101 de 2005 e o perfil predominante das usinas sucroalcooleiras que pediram recuperação.
As causas da crise são tão conhecidas quanto extensas: o período de forte expansão, a escassez do crédito, a elevação dos custos, a política governamental, as intempéries climáticas, a eliminação da Cide, a redução dos investimentos e a lenta evolução lenta da produtividade são apenas alguns dos problemas enfrentados nos últimos anos.
Foi assim que, em seis anos, 67 unidades buscaram a justiça para se proteger contra credores, número que inclui alguns engenhos com moagem inferior a 300 mil toneladas de cana por safra.
Ainda mais preocupante é que das unidades que pediram recuperação, 40 estão inativas, o que representa 60% dos pedidos. Sem produzir, o cumprimento dos planos de recuperação torna-se muito mais complicado.
O estudo revela também um perfil recorrente entre as unidades que pediram recuperação judicial: são usinas mistas, de menor porte, com 70% de cana própria e produção de etanol mais voltada ao hidratado.
Os detalhes são apresentados a seguir pelo portal NovaCana numa série de gráficos e informações adicionais sobre os perfis das unidades em recuperação judicial:
- O peso dos canaviais nas contas das usinas
- A evolução dos pedidos de proteção judicial ao longo dos anos
- O endividamento dessas usinas é administrável?
- O perfil das usinas e da moagem
- Plano de recuperação ou de sobrevivência? Qual é a situação das usinas que estão passando pelo processo.
Plantada em Sertãozinho, a cidade ícone do setor sucroenergético, a consultoria MBF Agribusiness acompanha a busca por recuperação judicial dos produtores de açúcar e etanol. Especializada na área canavieira, a MBF testemunhou na "capital do setor sucroalcooleiro" o primeiro pedido de recuperação de uma usina, em 2008, feito pela Cia. Albertina.
De lá pra cá a consultoria viu dezenas de outras usinas, tanto vizinhas como de longe, recorrerem à recuperação judicial. Com a compilação e análise dos dados das empresas do setor que já buscaram socorro através da lei nº 11.101 de 2005, a consultoria chegou ao perfil predominante das usinas sucroalcooleiras que pediram recuperação.
As causas da crise tão conhecidas quanto extensas: o período de forte expansão, a escassez do crédito, a elevação dos custos, a política governamental, as intempéries climáticas, a eliminação da Cide, a redução dos investimentos e a lenta evolução lenta da produtividade são apenas alguns dos problemas enfrentados nos últimos anos.
Foi assim que, em seis anos, 67 unidades buscaram a justiça para se proteger contra credores, número que inclui alguns engenhos com moagem inferior a 300 mil toneladas de cana por safra.
Ainda mais preocupante é que, de acordo com a MBF, das unidades que pediram recuperação 40 estão inativas, o que representa 60% dos pedidos. Sem produzir, o cumprimento dos planos de recuperação torna-se muito mais complicado. O número é compatível ao divulgado na semana passada em uma estimativa da Unica ao Valor Econômico, indicando que somente um terço das usinas em recuperação estariam operando.
Perfil de moagem
O estudo mostra que há uma concentração maior de pedidos nas unidades que processaram até 1,3 milhão de toneladas de cana em sua última safra. Das 67 unidades que buscaram recuperação, 51 se enquadram nessa faixa de moagem. "Comprovando que esse perfil de moagem está mais vulnerável às oscilações do mercado e variações climáticas acima das médias", analisa a consultoria.
O documento destaca que parte das unidades que compõem essa faixa de moagem tiveram seus investimentos para expansão realizados justamente no período entre 2005 e 2007, aumentando o endividamento sem a resposta desejada.
"Expandiram acreditando na onda do 'ouro branco' e foram surpreendidos pela falta de planejamento organizacional e mudança de foco (e de atitude) do Governo Federal, bem como pela falta de capital e pela inaptidão para negociar como as devedoras mais antigas. Sendo assim, não tiveram saída, senão pedir recuperação judicial".
Perfil de produção
Ao analisar o perfil de produção, a MBF comprova que a produção de biocombustível é um fator desestabilizador. Apesar das cíclicas vertigens nos preços do açúcar, as unidades que produzem somente o adoçante se mostraram menos suscetíveis aos pedidos de recuperação. O trabalho analisa que historicamente as unidades produtoras de etanol sofreram muito mais com o cenário econômico e político.
"Desde o Proálcool, as destilarias vem acumulando muito mais passivo em relação à tonelada de cana processada do que as unidades mistas ou somente produtoras de açúcar", diz a consultoria.
Entre as unidades, 36% produzem somente etanol e pouco mais da metade são mistas – fabricam o biocombustível de cana e açúcar. Entre os 52% de unidades mistas, apesar do perfil de produção mais açucareiro (63% do mix), a produção de etanol é 90% voltada ao hidratado, que é ainda menos remunerador do que o anidro, destaca a MBF.
Já as fabricantes exclusivas de açúcar representam somente 12% das empresas em recuperação. "Quanto ao perfil de produção, as empresas produtoras de açúcar estão menos suscetíveis às crises, isso porque o produto é mais remunerador e possui linhas de crédito diferenciadas, principalmente para as unidades exportadoras".
O peso dos canaviais
O estudo das empresas que entraram com o pedido de recuperação judicial também indica um impacto negativo em relação ao cultivo próprio de canaviais. Conforme a MBF, 84% das unidades possuíam, no mínimo, metade da cana própria, seja cultivada em áreas arrendadas ou de propriedade da usina.
Quando realizaram o pedido, 70% das empresas apresentavam até 30% de cana de terceiros, ou seja, 70% de cana própria. Outros 14% das empresas possuíam entre 50% e 69% de cana própria.
Na leitura da consultoria, esses números podem explicar a maior necessidade de capital de giro para tratar ou renovar a lavoura. Para obtenção desses recursos, muitas vezes, as sucroalcooleiras precisaram fazer frente a elevados custos financeiros, além de enfrentar o aumento significativo dos custos operacionais nos últimos anos.
"Estes dados são confirmados pelos demonstrativos financeiros dos últimos três anos anteriores à data do ingresso com o pedido de Recuperação Judicial, onde as empresas apresentaram baixos resultados operacionais e alto custo financeiro. Também explica o movimento de muitas empresas, transferindo as áreas arrendadas para produtores independentes, com contrato garantindo a entrega para a unidade industrial, isso para minimizar a necessidade de capital", comenta o relatório.
No caso das empresas que fizeram investimentos em expansão, enfrentaram ainda mais dificuldades, aumentando significativamente o seu endividamento. Além disso, a MBF verificou que as possuidoras de uma quantidade maior de cana própria, não trataram adequadamente a lavoura, fazendo com que o rendimento por hectare e também de concentração de sacarose estivesse abaixo da média regional na época do pedido.
Outro agravante contra os canaviais de domínio da usina é que ter mais cana própria em momento de preços baixos dos produtos finais pode até ter sido uma desvantagem para as empresas que conseguiram pagar pela matéria-prima de terceiros usando o modelo Consecana. Afinal, diz a MBF, desembolsariam menos se tivessem que pagar os fornecedores de cana.
Entretanto, o fato é que "praticamente todas as empresas, justamente por estarem economicamente prejudicadas, pagaram mais pela cana de terceiros para garantir o produto". Avaliando caso a caso, a consultoria verificou que o receio da falta de cana não só aumentou seu custo como, inclusive, aumentou o valor do arrendamento em determinadas regiões.
Endividamento
A maioria das unidades, 60% das que ingressaram na recuperação judicial, têm um endividamento concentrado na faixa de R$ 150 a R$ 300 por tonelada de cana.
Abaixo dessa linha, a MBF considera que o "patamar de dívida ainda é administrável, quando comparado com todo o setor sucroenergético". Há 17% das unidades nessa faixa de dívida que seria mais confortável, de R$ 100 por tonelada de cana, valor muito próximo do faturamento médio de uma safra das usinas.
Mas, se em termos de valores o endividamento ainda é administrável, qual o motivo dessas unidades recorrem à recuperação? "O fato é que essas empresas com menor nível de endividamento e que entraram com o pedido de recuperação judicial estavam concentradas em dívidas extra concursais e de Garantia Real (Classe II), sendo que a pressão das execuções os forçaram a essa última alternativa", explica a consultoria.
A maioria dessas sequer estão operando. A MBF estima que das dez unidades com R$ 100 de dívida por tonelada, oito não estão processando cana atualmente e acabaram por transferir a matéria-prima para outros grupos ou encerram definitivamente a operação. "O tipo da dívida e a inflexibilidade dos credores foi determinante para o fracasso do plano de recuperação judicial dessas empresas", diz o estudo.
No polo oposto estão 22% das unidades com as maiores dívidas. Essas unidades devem pelo menos três safras, com um endividamento que vai de R$ 350 a mais de R$ 400 por tonelada de cana.
Os piores anos
Dos últimos seis anos, os dois primeiros foram os mais intensos na busca de recuperação pelas sucroalcooleiras. Em 2008 e 2009 foram feitos 33 pedidos, ou seja, metade dos registrados até o momento. Esse movimento, conforme a MBF, se deve ao agravamento da crise com a restrição de liberação de crédito a partir de 2008, combinada a problemas climáticos e, principalmente, a indefinição nas políticas públicas.
Nos anos seguintes, o número de pedidos foi reduzindo até 2012, quando houveram somente três. A partir de 2013 a busca por recuperação judicial voltou a crescer e em 2014, até agosto, sete usinas já pediram recuperação judicial.
O centro-sul, principal região produtora de açúcar e etanol do Brasil, inevitavelmente foi a mais atingida, concentrando 53 dos 67 pedidos compilados pela MBF. Somente em São Paulo foram registrados 24 solicitações de proteção contra credores, considerando apenas as unidades com capacidade de moagem superior a 300 mil toneladas por safra.
Plano de recuperação ou de sobrevivência?
A grande questão, aponta a consultoria, é se as empresas que utilizaram esse recurso estão realmente se recuperando. Os fatos indicam que não. O estudo considera que "não há como falar em recuperação, mas em sobrevivência". Para além das questões internas a cada empresa, o atual cenário econômico restringe as chances de efetiva recuperação.
"A prova da dificuldade em recuperar está no aumento de pedidos de recuperação ao longo do tempo. Se os primeiros planos de recuperação (2008) apresentavam de cinco a oito anos de expectativa para saldar suas dívidas, com o aumento dos pedidos de Recuperação Judicial nos anos seguintes, aumentou-se os prazos para pagamento, a exigência na redução na taxa de juros e o corte sobre o saldo devedor".
Na média das 67 unidades analisadas pela MBF, 52% da dívida estavam concentradas em operações com instituições financeiras, sendo credores sujeitos (classe II – com garantia real) e não sujeitos ao plano. "Se o plano de recuperação judicial não for bem planejado e bem fundamentado quanto a necessidade do pedido e a forma de pagamento com geração de resultados futuros, dificulta muito a negociação".
Por isso, as chances de recuperação aumentam quando há uma gestão séria, o que ajuda muito numa nova renegociação ou até na convocação de nova assembleia, pondera a análise. Por hora, o objetivo dessas unidades é sobreviver. "Até que o setor volte a receber uma atenção especial por parte do Governo Federal, pois o mercado tende a se ajustar nos próximos anos", projeta a MBF.
A consultoria aponta que a renegociação de planos está acontecendo e ainda se intensificará, pois as empresas estão com dificuldades em cumprir os compromissos assumidos anos atrás.
Para que se mantenham no mercado, as unidades em situação crítica precisam passar uma por reorganização e, para que todos percam menos, os credores também precisam flexibilizar. "Principalmente os credores financeiros e governo, e, paralelo a isso, [é preciso] a revisão das políticas em relação ao setor", cobra a consultoria.
Amanda SchArr – NovaCana