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Patamar do mercado de carbono não viabiliza grandes projetos, diz executivo da Raízen

Chefe de sustentabilidade da empresa de energia, André Valente afirma que cooperação internacional para auxiliar países em desenvolvimento pode “destravar” transição energética no Brasil


O Estado de S. Paulo - Publicado: 09 Nov 2023 - 09:28

O mercado de carbono ainda não é precificado da forma mais adequada, avaliou nesta quarta-feira, 8, o chefe de sustentabilidade da Raízen, André Valente, em painel do Summit Agro Estadão 2023, realizado em São Paulo (SP). Justamente por isso, este mercado não chegou a um patamar que viabilize grandes projetos de sequestro de carbono.

O executivo exemplificou dizendo que o etanol, o maior programa de bioenergia do país, produz em média 80% menos emissões do que a gasolina.

“Essa diferença de emissões que já existe hoje, e em grande escala, essa externalidade positiva não é necessariamente precificada da forma como deveria ser”, defendeu. “E isso ocorre com qualquer solução de alto nível de redução de emissões”.

Neste contexto, Valente elogiou o projeto de lei 412/2022, que cria o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões e regulamenta o mercado de carbono no país. O texto ainda está em discussão no Congresso Nacional.

“Uma vez que a gente coloca o preço do carbono, como esse projeto de lei pretende, que também coloca o preço das emissões dos gases do efeito estufa, resolvemos uma parte importante da questão da precificação”, afirma.

Para ele, o que falta, de fato, é regulamentar o setor de créditos de carbono, porque “a tecnologia já está pronta”. “Temos condição, por exemplo, de produzir muito mais biocombustíveis do que produzimos hoje sem aumentar a área plantada com cana-de-açúcar, apenas investindo em inovação, como o etanol de segunda geração, produzido a partir do bagaço de cana”, argumenta.

Entretanto, justamente porque a precificação do mercado de carbono não está ainda regulamentada, a companhia não coloca em pé projetos grandes de descarbonização “porque o custo é alto”. De todo modo, ele ressaltou que o país precisa aumentar a oferta de biocombustíveis e, ao mesmo tempo, reduzir a pegada de carbono deles.

Outra discussão importante sob este aspecto é o que o executivo qualifica de “jornada mundial de precificação do mercado de carbono”. “Isso é um gatilho muito forte para garantir que a gente atinja objetivos (de descarbonização) e dê essa guinada”, continuou.

Sobre a produção de biocombustíveis, o executivo ainda complementa: “O potencial está dado. Temos um nível de emissões muito baixo e uma oferta muito grande de produtos economicamente viáveis, e não estou falando de um produto que precise de subsídios para parar em pé”.

Quanto à possibilidade de o mundo atingir as metas de descarbonização propostas no Acordo de Paris, até 2030, ele considerou haver um “problema de inércia” na descarbonização global. “Temos um modelo econômico (à base de combustíveis fósseis) que dura 100 anos e precisamos de seis para mudar isso”, exemplificou.

Além de “políticas públicas internas, previsíveis e agressivas em bioenergia”, Valente acredita que o Artigo 6 do Acordo de Paris — que prevê cooperação internacional para auxiliar países em desenvolvimento, especialmente aqueles particularmente vulneráveis às mudanças climáticas — pode “destravar” a transição energética aqui, “sem ter que se manter o custo desta transição no Brasil, lembrando que o aquecimento global é um fenômeno internacional”.

“Desta forma, a cooperação internacional tem que acontecer. “Essa cooperação internacional tem que acontecer; ela vai ser a chave para destravar temas sensíveis como ‘quem paga a conta’”, pontuou.

Audryn Karolyne, Tânia Rabello e Vinicius Galera