Especialistas debateram o aperto na relação estoque-consumo
Quebra de safra em alguns dos principais países produtores e aperto entre oferta e demanda até o final da temporada 2023/24 (outubro a setembro). Apesar destes fundamentos altistas para o preço de açúcar, analistas do setor ainda enxergam uma grande volatilidade no mercado.
Em conferência realizada pela Datagro, especialistas discutiram o balanço global de açúcar. Entre eles estiveram o sócio da consultoria, Bruno Freitas; o diretor executivo da Organização Internacional de Açúcar (ISO), José Orive; e o gerente geral da Sucden, Thierry Songeur.
Freitas aponta que, mesmo antes da certeza sobre o El Niño, o balanço global de açúcar já tendia para um cenário de déficit. Segundo ele, as condições climáticas apenas agravaram as safras da Índia, com monções irregulares, e da Tailândia, com chuvas abaixo do esperado.
Mas outros produtores – como México, Estados Unidos, Austrália e países da América Central – também vivenciam intempéries. Desta forma, explica Freitas, o mercado começou a visualizar um cenário ainda mais apertado do que o esperado no início deste ano.
Já Orive aponta que, desde a produção global recorde de açúcar em 2017/18, os volumes seguintes ficaram estagnados, enquanto o consumo manteve uma tendência de alta. Desta forma, a relação estoque-consumo foi diminuindo. A ISO projeta que, para a próxima temporada, é esperado que o índice fique em 57%.
A apresentação de Songeur, por sua vez, trouxe um vislumbre de possibilidade de aumento na oferta de açúcar mundial. Ele cita o incremento da cristalização nas usinas e a situação atual de projetos greenfield.
No texto completo, exclusivo para assinantes NovaCana, você confere as análises feitas pelos especialistas, incluindo projeções para o balanço global de açúcar para as próximas temporadas e detalhes a respeito do mercado e da expectativa de produção.
Quebra de safra em alguns dos principais países produtores e aperto entre oferta e demanda até o final da temporada 2023/24 (outubro a setembro). Apesar destes fundamentos altistas para o preço de açúcar, analistas do setor ainda enxergam uma grande volatilidade no mercado.
Em conferência realizada pela Datagro, especialistas discutiram o balanço global de açúcar. Entre eles estiveram o sócio da consultoria, Bruno Freitas; o diretor executivo da Organização Internacional de Açúcar (ISO), José Orive; e o gerente geral da Sucden, Thierry Songeur.
Freitas aponta que, mesmo antes da certeza sobre o El Niño, o balanço global de açúcar já tendia para um cenário de déficit. Segundo ele, as condições climáticas apenas agravaram as safras da Índia, com monções irregulares, e da Tailândia, com chuvas abaixo do esperado.
Mas outros produtores – como México, Estados Unidos, Austrália e países da América Central – também vivenciam intempéries. Desta forma, explica Freitas, o mercado começou a visualizar um cenário ainda mais apertado do que o esperado no início deste ano.
Já Orive aponta que, desde a produção global recorde de açúcar em 2017/18, os volumes seguintes ficaram estagnados, enquanto o consumo manteve uma tendência de alta. Desta forma, a relação estoque-consumo foi diminuindo. A ISO projeta que, para a próxima temporada, é esperado que o índice fique em 57%.
A apresentação de Songeur, por sua vez, trouxe um vislumbre de possibilidade de aumento na oferta de açúcar mundial. Ele cita o incremento da cristalização nas usinas e a situação atual de projetos greenfield.
Além disso, os especialistas levantaram questões sobre como os estoques poderiam voltar a aumentar, trazendo mais equilíbrio para o mercado mundial. A precificação da commodity, que ainda está em tendência de alta, também foi abordada.
Aumentando a produção de açúcar
De maneira geral, os números apontam para um déficit no balanço global de açúcar, com a relação entre estoque e consumo diminuindo a cada temporada. Mas o gerente geral da Sucden, Thierry Songeur, levantou três possibilidades para aumentar a fabricação do açúcar: no campo, na indústria ou no banco.
A primeira possibilidade envolve o aumento da produção de cana-de-açúcar e de beterraba. Ele explica que seria particularmente válido para áreas com excesso de capacidade de moagem instalada, como Tailândia, Índia e Europa. “Com os preços recentes do açúcar, beterraba ou cana ganham competitividade contra outras culturas alternativas, como trigo e arroz”, argumenta. A exceção seria o Brasil, dados os baixos preços do etanol.
O executivo ainda trata sobre como este crescimento no cultivo deve ocorrer: “Ou você vai aumentar as terras ou tenta aumentar o rendimento”. Para Songeur, na última década, houve um crescimento na produtividade, mas a curva estagnou por conta de políticas ambientais envolvendo um maior controle de insumos químicos, o que limita este acréscimos.
A segunda opção seria o aumento de capacidade de cristalização por meio de investimentos regulares. O mix de produção do Brasil, exemplifica ele, passou de 45% para 51% em benefício ao adoçante. Para o próximo ano-safra, a Sucden considera um aumento de 1 milhão de toneladas de capacidade de cristalização em açúcar adicional.
“Quanto maior a safra de cana, mais difícil é maximizar a produção de açúcar, então, digo que a indústria brasileira já tem alcançado esse ponto”, afirma Songeur.
Ele ainda aponta que o mix do Centro-Sul brasileiro deverá se manter direcionado ao açúcar devido à alta nos preços. O mesmo deve ocorrer na Europa, mas o aumento deverá ser menor do que 500 mil toneladas no ano, declara o gerente da Sucden. A Índia, por sua vez, está focada em seu programa de etanol.
“O grande investimento necessário e a elevada volatilidade dos preços, nomeadamente para exportações quando o mercado interno está equilibrado, impediram o greenfield em grande escala”, Thierry Songeur (Sucden)
Por fim, ele defende que a terceira forma de aumentar a produção global de açúcar é com novas usinas, os chamados projetos greenfield. Songeur, entretanto, afirma que esta forma de investimento não seria uma ação tão simples.
“Não são todos os países que têm a configuração necessária para fazer este investimento, então, você tem que escolher entre a usina e o campo”, esclarece. Além disso, Songeur observa que os preços futuros de Nova York são menos atrativos para projetos que requerem de dois a três anos para se tornarem produtivos.
Produção global de açúcar
O diretor executivo da ISO, José Orive, relata que, na temporada 2017/18, a produção mundial do adoçante chegou a um recorde de 179,8 milhões de toneladas. Mas, desde então, não voltou a atingir esse nível, ficando em uma média de 175 milhões de toneladas, o que explica a sequência de déficits.
“A produção global não demonstrou nenhum aumento significativo desde esse recorde”, explica Orive. Segundo ele, a organização estima que haverá uma queda de 1,2% na temporada 2023/24, para 174,8 milhões de toneladas. A projeção considera chuvas irregulares no hemisfério Norte, impactando países produtores como México e Índia.
Ele complementa que a alta produção brasileira não irá fazer tanta diferença no saldo final desta temporada, uma vez que a safra do Centro-Sul é entre abril e março. Então, para o período entre outubro e setembro, a maior parte do açúcar brasileiro já foi captado pelo ciclo 2022/23.
Além disso, ele aponta que, apesar de apresentar oscilações, a produção de beterraba ainda demonstra uma tendência de aumento, enquanto a de cana-de-açúcar está estagnada, atrelada ao clima e à produtividade.
Déficits a vista no balanço global
Freitas, da Datagro, espera um novo déficit no balanço global de açúcar na temporada 2023/24, de 4,36 milhões de toneladas. A primeira projeção do ISO para a temporada, por sua vez, é de um saldo negativo de 2,1 milhões de toneladas, segundo Orive.
De acordo com o histórico da Datagro, as temporadas 2019/20 e 2020/21 já somaram um déficit de mais de 9 milhões de toneladas. No ciclo seguinte, houve uma breve recuperação, com um superávit modesto de 1,52 milhão de toneladas. E agora, como explica Freitas, há três saldos negativos no horizonte.
“Uma década de baixos investimentos na produção de açúcar no mundo: esta é a principal razão para explicar esse movimento de baixa”, José Orive (ISO).
Conforme Freitas, apesar da expansão de oferta de açúcar vinda do Brasil, as quebras de safra vistas na Índia, na Tailândia e em outros países produtores justificam o tamanho do déficit esperado para a temporada que se iniciou em outubro.

“O mercado continuará apertado, sem a construção de estoques, então é visualizada uma produção levemente abaixo do consumo pelo terceiro ano consecutivo”, explica. Segundo ele, o déficit esperado para 2024/25 é de 1,03 milhão de toneladas.
Relação estoque-consumo
Apesar de registrar um crescimento anual de apenas 0,24%, a demanda global pelo adoçante atingiu novos patamares. Orive afirma que nunca pensou que veria o mundo adquirindo tamanho volume de açúcar.
Em 2023/24, a ISO projeta que serão consumidas 176,96 milhões de toneladas da commodity. De acordo com Orive, na temporada, a demanda parece ter alcançado a capacidade atual de produção.
“A relação estoque-consumo global é uma métrica importante para avaliar a resiliência do mercado ao se deparar com choques exógenos”, José Orive (ISO)
Assim, desde a temporada 2021/22, segundo o histórico da Datagro, a relação entre o estoque e o consumo no mercado global de açúcar vem caindo. No período em questão, o índice chegou a 47,3%.
Seguindo a projeção da consultoria, em 2024/25, o índice deve ir para 37,9% – uma das menores médias desde o início da série histórica, em 2010/11.
Já a ISO vê uma relação de 57,7% para a próxima temporada. Orive explica que, apesar de destoar de outras projeções, a média ainda se mantém consideravelmente menor do que em anos anteriores.

Freitas aponta que é importante correlacionar este índice dos estoques com o preço médio do açúcar no mercado internacional. Os valores apresentam uma tendência altista desde a temporada 2019/20, quando marcaram 12,42 centavos de dólar por libra-peso; no início da temporada global 2023/24, o preço médio já atinge 27,3 centavos de dólar por libra-peso.
O sócio da Datagro afirma ainda que não há como saber qual patamar o preço poderá alcançar em 2024/25. Ainda assim, ele acredita que o mercado tem construído uma consolidação em torno da marca dos 27 centavos de dólar por libra-peso.
Por sua vez, a ISO espera uma queda de 4 milhões de toneladas no volume total de adoçante a ser exportado, alcançando 61,6 milhões de toneladas em 2023/24.
Orive afirma que a redução virá dos três principais exportadores: Brasil, Índia e Tailândia. Estes países, conforme o diretor executivo da entidade, somam 66% do volume de adoçante exportado, de modo que a demanda global depende desta disponibilidade.
“O Brasil poderia sustentar a falta dos outros dois exportadores se sua safra correr sem interrupções e toda a cana puder ser moída”, afirma Orive.
Do lado das importações, ele indica que o volume vem aumentando levemente. Os maiores compradores da commodity são China e Indonésia, atualmente.
Sem exportações da Índia
A saída da Índia do mercado está causando preocupações. O país estendeu suas restrições a exportações do adoçante para além do mês de outubro em uma tentativa de aumentar a oferta interna do produto e reduzir os preços.
A Datagro estima a produção de açúcar da Índia em até 29,5 milhões de toneladas, que poderiam chegar 32 milhões de toneladas sem chuvas, segundo Freitas. Ele também considera que o volume possa diminuir ainda mais na próxima safra porque as precipitações foram irregulares em agosto deste ano, afetando o plantio.
“A Índia pode eventualmente se tornar uma importadora líquida de açúcar dentro de dois anos”, alerta.
Além disso, ele relata que companhias petroleiras indianas estão anunciando a intenção de comprar quase 8,2 bilhões de litros de etanol brasileiro. O volume entra em linha com o plano governamental de alcançar uma mistura de 20% de biocombustível à gasolina até 2025.
Quebra na Tailândia
A Tailândia, por sua vez, também sofreu com as condições climáticas. Ao mesmo tempo, o seu mercado interno já vinha lidando com problemas de oferta, de acordo com Freitas, com queda nos níveis de plantio de cana-de-açúcar, que perdeu espaço para outras culturas. A mandioca, exemplifica, remunera 15% a mais do que a cana.
O país produziu 11 milhões de toneladas na temporada mais recente e, de acordo com a Datagro, deverá fabricar por volta de 8 milhões de toneladas na seguinte. Caso o clima volte à normalidade, é possível que a Tailândia recupere algum espaço em 2024/25.
“[A Tailândia terá] uma oferta limitada nos próximos dois anos. A única questão em aberto é saber se o El Niño desaparecerá a partir de 2024”, detalha Freitas.
Reino Unido e União Europeia
Freitas também acredita ser possível que o Reino Unido e a União Europeia consigam responder melhor à alta no preço do açúcar, expandindo o plantio de beterraba – especialmente na Alemanha e na Polônia.
A Datagro enxerga, ainda, que a produção na região deverá voltar a se recuperar, alcançando uma marca de 17 milhões de toneladas na temporada 2024/25.
Giully Regina – NovaCana