Um estudo apresentado nesta semana pela Organização das Associações de Produtores de Cana-de-Açúcar do Brasil (Orplana) aponta que os agricultores estão registrando perdas, com os custos de produção superando as receitas.
O relatório anual da entidade, referente ao cenário da região Centro-Sul, afirma que o prejuízo dos agricultores acontece independentemente de seu estado de atuação ou tamanho. Em relação à safra em andamento, a Orplana relata que os modelos de comercialização mais comuns – Consecana puro, Consecana Plus, ATR fixo e Cana Spot – não estão cobrindo as despesas.
“Como consequência, os produtores de cana estão fechando a safra no vermelho, com um prejuízo de R$ 17,30 por tonelada. Dentro das 60 milhões de toneladas de cana na área de atuação da Orplana, isso representa um prejuízo de mais de R$ 1 bilhão”, afirma o CEO da entidade, José Guilherme Nogueira. “É fato que os produtores não estão conseguindo financiar sua atividade”.
O estudo de custos de produção da Orplana considerou uma amostra de 171 planilhas recebidas com informações declaratórias de 30 associações de produtores de cana-de-açúcar, representando as cinco macrorregiões do Centro-Sul representadas pela associação.
Dentro da área de atuação da Orplana, 41% dos contratos estão baseados em Consecana puro e não contemplam nenhum tipo de bonificação. “O Consecana argumenta que a maioria dos produtores tem incentivos por parte das usinas, porém o que é mostrado pelo estudo é exatamente o contrário”, frisa Nogueira.
Ele complementa: “Por esses motivos, a Orplana tem buscado formas alternativas de remuneração para os produtores, as quais também passam pela necessidade de revisão do modelo Consecana, visando reequilibrar a defasagem na remuneração em que o sistema se encontra atualmente”.
O CEO ainda reforça que já expiraram os prazos para a revisão dos aspectos técnicos e econômicos do Consecana. “A revisão, prevista em estatuto, venceu no início deste ano. Segundo regulamento do próprio Consecana, ela deveria acontecer a cada cinco anos. A última foi em 2018”, explica Nogueira.
Ele ainda aborda a remuneração recebida pelas usinas com a venda de créditos de descarbonização (CBios), vinculados ao programa RenovaBio. “As usinas têm recebido 100% dos CBios e repassado somente 50% aos produtores, além de não distribuírem o valor dos créditos outorgados. Não é natural e nem normal um setor estar em seu melhor momento e outro elo da cadeia ter custos altos e rentabilidade baixa”, afirma.
“O setor clama por urgência na revisão do Consecana. Caso isso não aconteça, a única saída administrativa dos produtores é ir ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica”, Guilherme Nogueia (Orplana)
Segundo outro levantamento elaborado pela Orplana, baseando em dados financeiros de 127 unidades sucroenergéticas, as usinas tiveram uma receita média em torno de R$ 390 por tonelada moída no primeiro trimestre de 2023/24, além de um Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) próximo a R$ 190 por tonelada.
“Trata-se de um número surpreendente e com grandes ganhos financeiros. Porém, contrária a essa aceleração, o cenário do pagamento da cana-de-açúcar aos produtores não parece tão favorável, mesmo com o aumento temporário do ATR de R$ 1,17/kg para R$ 1,21/kg”, afirma Nogueira.