Persistência da crise em Ormuz pode manter Brent perto de US$ 110 em dezembro, enquanto governos subsidiam combustíveis e buscam alternativas renováveis
Por Pedro Côrtes*
O petróleo voltou a cobrar pelo que ainda não aconteceu. O Brent fechou a sexta-feira, 16, a US$ 109,86 por barril. Ataques a navios e instalações energéticas do Golfo Pérsico mantêm elevado o custo de transportar petróleo. Com o Estreito de Ormuz sob ameaça, parte das cargas atrasa e a extração pode ser interrompida quando se esgota a capacidade de armazenagem.
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Encerrar 2026 acima de US$ 100, possivelmente perto de US$ 110, tornou-se uma hipótese relevante. Em 16 de outubro, o Goldman Sachs projetava US$ 90 para dezembro.
Já a Administração de Informações sobre Energia dos Estados Unidos (EIA) estimava, no relatório de outubro, média de US$ 105 no quarto trimestre. São períodos diferentes, mas o contraste revela o peso da incerteza geopolítica. Uma negociação que restabeleça os fluxos pode reduzir rapidamente o prêmio de risco.
A pressão vai além do petróleo bruto. Ataques a refinarias russas prejudicam a disponibilidade de derivados, especialmente o diesel, e podem manter seus preços elevados, mesmo que o Brent recue. No Brasil, segundo o Ministério de Minas e Energia, as importações representam 33% da oferta de diesel prevista para outubro.
O governo elevou a subvenção ao diesel importado elegível de R$ 2,12 para R$ 3,52 por litro. O adicional de R$ 1,40 deve custar R$ 1,6 bilhão em 30 dias, segundo estimativa do ministro do Planejamento, Bruno Moretti.
Esse gasto precisa ser visto junto às receitas do petróleo. A ANP registrou R$ 11,83 bilhões em participações especiais referentes à produção do segundo trimestre, distribuídos entre União, estados e municípios. O valor não representa o ganho fiscal provocado pela alta recente. Receitas e despesas chegam a cofres diferentes, em prazos distintos; tampouco é possível afirmar, com esses números, que uma compensará a outra.
A proteção emergencial ao diesel é justificável. Sem ela, o encarecimento das importações ameaça pressionar transporte, alimentos e atividade econômica. A resposta não é exclusivamente brasileira: a Alemanha reduziu impostos sobre combustíveis em cerca de € 0,17 por litro até dezembro, com alívio estimado de € 2,5 bilhões. A Espanha também prorrogou reduções tributárias. São medidas distintas que mostram como governos comprometidos com a descarbonização procuram amortecer choques excepcionais.
O caráter temporário e a transparência dessas medidas importam tanto quanto sua eficácia. Subsidiar fósseis cria uma tensão com as metas climáticas e exige recursos públicos; deixá-los disparar numa emergência também cobra um preço econômico e social. O erro seria tratar a ajuda imediata como substituta de uma política de redução da dependência.
O Brasil já utiliza 30% de etanol anidro na gasolina e 15% de biodiesel no diesel. O avanço para B16, previsto no cronograma da Lei do Combustível do Futuro, segue condicionado à avaliação técnica. Investir em produção, infraestrutura e diesel verde exige planejamento e segurança regulatória. Na Europa, Emmanuel Macron defendeu elevar de 7% para 10% o limite de biodiesel convencional, proposta ainda sem aprovação.
Se US$ 110 deixar de ser somente um pico e persistir, o desafio será maior que financiar novos subsídios. Proteger a economia durante a crise é necessário. Ampliar os biocombustíveis será decisivo para reduzir a exposição à próxima crise.
* Pedro Côrtes é professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e especialista em clima e meio ambiente
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