Propostas brasileiras enfrentam guerras, disputas financeiras e impasses científicos
Por Pedro Côrtes*
O Brasil encerra a presidência da COP30 com dois roteiros apresentados em 3 de novembro: um para deter o desmatamento e outro para reduzir a dependência dos combustíveis fósseis. Na COP31, de 9 a 20 de novembro, o segundo será discutido no dia 10, sem negociação formal. São propostas voluntárias, após impasse sobre sua inclusão na decisão de Belém.
O país chega a essa discussão com uma vantagem concreta. Em 2025, fontes renováveis responderam por 86,8% da oferta de eletricidade e por 26,1% do consumo energético dos transportes, com destaque para etanol e biodiesel.
Além disso, o Brasil lidera o G20 na participação de renováveis na eletricidade, com experiência singular com biocombustíveis. Isso fortalece sua atuação diplomática.
As guerras lembram por que a dependência do petróleo também é uma vulnerabilidade econômica.
O conflito entre Estados Unidos e Irã pressionou o Brent; ataques ucranianos a refinarias russas agravaram tensões no mercado de diesel, também afetado pelo Oriente Médio. Os choques encarecem o transporte, mas também estimulam investimentos petrolíferos. Segurança energética e clima nem sempre geram os mesmos incentivos.
Para completar, a COP31 terá condução inédita. A Turquia exercerá a presidência formal e dará destaque à eletrificação e à redução de resíduos; a Austrália chefiará as negociações. O arranjo separa iniciativas de compromissos. Os interesses fósseis permanecem: o carvão tem peso na eletricidade turca, e a Austrália exporta carvão e gás.
Eletrificar transportes e indústrias pode diminuir o consumo de petróleo, sobretudo quando a eletricidade vem de fontes renováveis. Isso, porém, não determina uma redução simultânea da produção fóssil. A experiência brasileira mostra alternativas em operação; ampliá-las exige enfrentar os custos da transição.
O mapa financeiro de Baku a Belém, elaborado pelo Azerbaijão e pelo Brasil em 2025, aponta para a mobilização de US$ 1,3 trilhão anuais até 2035 para países em desenvolvimento. A primeira atualização de sua implementação está prevista para a COP31.
A discussão envolve recursos públicos dos países ricos e empréstimos acessíveis: juros altos encarecem projetos de energia limpa e restauração florestal, sobretudo quando o retorno demora.
Países insulares do Pacífico cobram recursos para proteger o litoral, e os oceanos integram a agenda turca. Outra pendência são os 59 indicadores de adaptação climática aprovados sob contestação em Belém. Eles serão aperfeiçoados até a COP32. Eles não distribuem recursos: ajudam a avaliar necessidades e resultados.
Em outubro, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) suspendeu uma reunião sem acordo sobre o calendário do sétimo relatório de avaliação.
Parte dos estudos pode ficar para 2029, após o segundo balanço global do Acordo de Paris, iniciado na COP31 e previsto para terminar em 2028. O desencontro reduziria a contribuição das avaliações científicas mais recentes às futuras metas nacionais.
O Brasil entrega propostas apoiadas em resultados concretos, especialmente na eletricidade e nos biocombustíveis. A influência desse legado dependerá da adesão de outros governos, de condições financeiras viáveis e de decisões que aproximem a demanda por energia limpa da redução gradual da dependência fóssil.
* Pedro Côrtes é professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e especialista em clima e meio ambiente
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