Internacional: Açúcar

Internacional: Açúcar

[Opinião] O açúcar está em alta no mundo e isso impacta o Brasil


Cepea/Esalq - Publicado: 06 Nov 2023 - 11:27 | Atualizado: 06 Nov 2023 - 20:31

Por Heloisa Lee Burnquist*

O açúcar está em alta no mundo e essa é uma ótima notícia para o Brasil, que é o maior produtor e exportador mundial do produto. Com o aumento da demanda, o país pode aproveitar para colher os frutos dessa recuperação e se posicionar como um líder na transição energética. Para isso, é importante que o Brasil aproveite as oportunidades que se apresentam, especialmente na forma de investimentos estrangeiros. O país tem um setor sucroenergético forte e com um perfil alinhado às alternativas para a produção de energia renovável.

Nos últimos anos, produtores de açúcar enfrentaram quedas recorrentes nos preços, provocadas por aumentos na oferta que derrubaram os preços para níveis surpreendentemente baixos, causando turbulência no mercado da commodity. A geração de excedentes derrubou as cotações do contrato de açúcar número 11 em Nova York para patamares abaixo de 11 centavos de dólar por libra-peso (US$ 242,508/t) nos anos de 2015, 2016, 2018 e 2020.

No entanto, há sinais de esperança no horizonte. A safra atual evolui em novo cenário e está animadora para o setor sucroenergético, com o preço do açúcar em alta nos mercados internacionais, apresentando uma tendência para se manter acima de 27 centavos de dólar por libra-peso (US$ 595,247/t), possivelmente também no próximo ano. A mudança no período de um ano registrada no último dia de outubro foi de aumento em 50,78%, acompanhado de uma banda entre 17,67 e 28 centavos por libra-peso no período de 52 semanas. Como o mercado internacional de açúcar está passando por uma reviravolta importante, vamos analisar os fatores que impulsionam essa mudança e seus possíveis impactos.

O açúcar é um produto essencial, cujo alcance se estende muito além dos limites dos armários de nossas cozinhas. Desempenha um papel crucial na indústria alimentar, encontrando-se presente em aproximadamente 80% dos alimentos processados e em uma impressionante variedade de mais de 100 mil produtos diferentes, segundo estimativas apresentadas pela Food & Agriculture Organization of the United Nations (FAO). No entanto, não se trata apenas de satisfazer nossa vontade de comer doces. O açúcar também deixa sua marca em produtos de higiene pessoal, medicamentos, produtos para animais de estimação, cosméticos, produtos químicos e corantes industriais. Sua versatilidade não tem limites.

Ao contrário de outros produtos como a soja, por exemplo, a procura de açúcar está espalhada por vários países. Enquanto a soja é usada principalmente como fonte de proteína e óleo, o açúcar tem um apelo mais universal como fonte barata de energia. É uma necessidade básica que gera uma infinidade de empregos, especialmente nos países em desenvolvimento onde é produzido a partir da cana.

Com cerca de 110 países envolvidos na produção de açúcar, os desafios de coordenação da produção e dos preços são grandes. Felizmente, a existência de mercados de futuros robustos, como o venerado ICE em Nova York, proporciona consolo. O seu poder de internalizar os choques globais de preços capacita os países produtores de açúcar a enfrentarem as turbulências que ameaçam as suas doces ambições. Esta interligação global também significa que os países fortemente dependentes das exportações de açúcar são vulneráveis aos choques internacionais nos preços.

O Brasil é um dos mais importantes players no mercado mundial de açúcar, no entanto, a despeito do seu tamanho e influência, o país está sujeito aos caprichos dos preços internacionais. Quem se recorda do pós-2003, quando a oferta de investimentos atraída pelo etanol com a introdução do carro flex provocou uma mudança profunda no setor, lembra também o que entusiasmo derreteu da noite para o dia com a crise financeira global de 2008, que levou a uma perda de confiança na economia global e a um aumento do protecionismo. É difícil contestar que sem um fato novo consolidado, definindo uma mudança estrutural nesse mercado, não há nada que impeça que em dois a três anos, os preços voltem aos baixos níveis de 2020.

A diferença entre oferta e demanda no mercado mundial na presente temporada parece baixa para um aumento tão expressivo nos preços, sugerindo que ao contrário do que se diz o mercado internacional de açúcar não é “tão bem consolidado e relativamente estável”. A ISO estima um consumo em 2023/24 da ordem de 176,9 milhões de toneladas, contra uma produção de 174,84 milhões de toneladas.

A reviravolta veio, portanto, de uma queda na produção em relação ao consumo nas últimas temporadas mundiais, que deve resultar em um déficit de 2,118 milhões de toneladas. Além do déficit entre produção e consumo global, verifica-se que a demanda por importação, de 64,373 milhões de toneladas supera a disponibilidade para exportações, estimada em 61,559 milhões de toneladas.

Faz todo sentido considerar que no caso brasileiro a demanda internacional é tão importante ou até mais que a do mercado interno na definição do patamar de preços no nosso mercado. O país exporta 35 a 38% do comércio global de açúcar, um volume bem acima do consumo doméstico. Este último não é baixo, vem se mantendo próximo a 10 milhões de toneladas, o que o posiciona como o segundo maior país consumidor de açúcar, depois da Índia.

Na presente safra, o país asiático deve produzir 40 milhões de toneladas de açúcar, de forma que a sua exportação atenderia a quase metade da demanda mundial por importação do adoçante. Como o mercado interno absorve um volume menor que o do mercado internacional, mudanças nos preços do açúcar no mercado externo afetam a indústria açucareira brasileira de maneira mais expressiva.

Outro aspecto importante é que a volatilidade de curto prazo no mercado de açúcar está mais suscetível a um conjunto mais amplo de direcionadores que os “tradicionais” para produtos agroindustriais. É relativamente fácil interpretar e prever mudanças de curto prazo nos preços de produto em função de variações no câmbio, chuvas, na realização de lucros pelos operadores, no preço de etanol no Brasil, preço do petróleo, dentre outros fatores “normais” de curto prazo.

Já a identificação de um patamar para os preços de açúcar no mercado global vem se tornando mais difícil até mesmo para os analistas com maior destreza para ler o mercado. Essa depende de aspectos cujos efeitos ainda são incertos, como a maior velocidade com que as políticas governamentais e acordos comerciais buscam atingir metas para reduzir os impactos sobre o ambiente e a biodiversidade, dificultando a previsão de mudanças nas tendências dos preços.

Países protagonistas no mercado internacional pela eficiência e competitividade, como é o caso do Brasil, ficam sujeitos aos efeitos perniciosos dos subsídios à produção e exportação, além de tarifas à importação, empregados de forma cada vez mais frequente no mercado do açúcar, que continua sendo um dos historicamente mais protegidos. Sem uma governança multilateral efetiva, como nos tempos de uma OMC mais forte, os estímulos à proteção agrícola têm sido retomados a todo vapor, particularmente pelos países mais ricos, amplamente justificados pela emergência climática e posturas mais nacionalistas de proteção a emprego e autossuficiência alimentar.

A conformidade ambiental para a importação de açúcar tornou-se mais rigorosa, com consumidores exigindo produtos mais sustentáveis e os governos enfatizando medidas para proteger o ambiente. Cientes destas exigências, os importadores vêm sendo cada vez mais seletivos quanto às suas fontes, o que não é negativo enquanto não se torna uma arma protecionista. Se o mercado mais exigente estiver disposto a pagar mais, os custos mais elevados podem viabilizar a produção daqueles que ofertam primeiro. Porém, como assegurar a sustentação dos preços no mercado mundial? É essa a dinâmica que funciona para um produto básico como o açúcar?

Para os exportadores, o aumento dos custos de produção representa um importante desafio, pois tende a ser mais estrutural que o aumento dos preços, de natureza fortemente conjuntural. Além dos combustíveis e fertilizantes mais caros devido à pandemia e guerras recentes, os custos têm sido definidos por mudanças nos sistemas produtivos para atender às novas exigências relacionadas às mudanças climáticas, aumentando os dispêndios de adequação no campo e na indústria, treinamento de mão de obra, novos modelos de gestão e introdução de práticas e equipamentos mais eficazes em assegurar uma maior produção com menor emprego de insumos. Isto se traduz em uma intensificação da sustentabilidade, porém podem pressionar a competitividade brasileira de açúcar, pelo menos no curto-prazo.

Afora os requisitos gerais, alguns países também impõem exigências específicas. Por exemplo, a União Europeia tem uma série de requisitos para os importadores de açúcar, incluindo os para a utilização de energias renováveis e a proteção da biodiversidade. Os Estados Unidos passaram a exigir que os importadores de açúcar obtenham a commodity de produtores que cumpram o Programa de Cana-de-Açúcar Sustentável dos EUA. Este programa estabelece padrões para a produção sustentável de cana-de-açúcar, incluindo padrões para uso de água, emissões de gases de efeito estufa e desmatamento. A Índia exige que os importadores de açúcar obtenham seu adoçante de produtores que cumpram a Lei Indiana de Desenvolvimento e Regulamentação da Cana-de-Açúcar. Esta legislação estabelece padrões para a produção sustentável de cana-de-açúcar, incluindo padrões para uso de água e conservação do solo.

A despeito dessas dificuldades em ebulição no mercado de açúcar, a indústria brasileira da cana cresce, confirmando sua resiliência às mudanças na dinâmica do mercado global, graças à capacidade de visionários que introduziram, a princípio, o etanol como produto conjunto ao açúcar quando o mercado dessa commodity se desintegrava nos anos 1980. Atualmente, nessa mesma linha, a indústria brasileira de cana está se diversificando, investindo em novos produtos, como o etanol celulósico, o biogás e o hidrogênio, como novas fontes de renda que devem mitigar impactos negativos para o ambiente e proporcionar condições para o crescimento do setor. A gama de produtos é ampla e só tem aumentado, compreendendo em bagaço de cana, biomassa, açúcar orgânico, vinhaça na adubação, produção de produtos químicos, E2G e o hidrogênio

A definição estratégica para aproveitar o momento favorável proporcionado pelo açúcar para reposicionar o setor em termos de investimento para a capitalização e crescimento do setor deve levar em conta mudanças no contexto global. Também deve usar o que se aprendeu com a reviravolta da crise financeira de 2008, seguida de pandemia e agora duas guerras com potencial de alterar a geopolítica, abalando as grandes placas tectônicas como a Ásia, Europa e Américas.

As tensões geopolíticas, como a guerra comercial EUA-China e a guerra Rússia-Ucrânia, tornaram mais difícil a cooperação dos países em questões económicas. A pandemia da covid-19 expôs as vulnerabilidades das cadeias de abastecimento globais e levou a um desejo de maior resiliência. A quarta revolução industrial deve resultar em mudanças na forma como os bens e serviços são produzidos e consumidos, o que poderá levar a uma economia mais localizada em termos do produto final, porém não dos insumos básicos como o açúcar.

O momento é de potencializar o papel significativo que a cana-de-açúcar pode desempenhar um na transição energética, fornecendo uma fonte de energia renovável e sustentável, o que pode prolongar o período de preços favoráveis para o setor. Para atrair investimentos em projetos energéticos baseados na cana-de-açúcar, ressaltam-se entre os vários fatores precisam ser considerados: o país já dispõe de tecnologia e viabilidade demonstradas para várias alternativas que viabilizam a transição energética. É mais provável que os investidores apoiem projetos que tenham tecnologia comprovada e um caminho claro para a viabilidade comercial.

O país já dispõe de projetos energéticos bem-sucedidos baseados na cana-de-açúcar que demonstraram seus benefícios econômicos e ambientais. Várias são também as alternativas dos projetos energéticos baseados na cana-de-açúcar, com clara viabilidade financeira destacando a sua competitividade em termos de custos com os combustíveis fósseis tradicionais e o seu potencial para explorar mercados crescentes de energias renováveis.

A recuperação do mercado global de açúcar é, portanto, sem sombra de dúvida, uma excelente notícia para o Brasil, que é o maior produtor e exportador mundial de açúcar. O país está pronto para aproveitar essa oportunidade, mas precisa agir rápido para captar investimentos estrangeiros e se posicionar como um líder na transição energética. Mais um ponto a favor do setor sucroenergético, proporcionando condições para que o Brasil venha a se posicionar como líder na transição energética, um dos principais desafios do século 21.

* Heloisa Lee Burnquist é professora da Esalq-USP e pesquisadora do Cepea


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