O valor do etanol hidratado recuou 5% nas usinas de São Paulo em fevereiro, mesmo com o cenário favorável ao aumento do preço do combustível, com a alta de R$ 0,22 por litro no preço da gasolina - causada pela reintrodução da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) e do PIS/Cofins - e com o pico da entressafra de cana-de-açúcar, ou seja, sem produção de álcool. A queda nos preços, segundo especialistas ouvidos pelo Broadcast, ocorreu por uma série de fatores que trouxe o aumento da oferta do combustível. Entre eles estão a busca pela redução de estoques, a necessidade de liquidez financeira e ainda operações de hidratação do etanol em unidades que esperaram, sem sucesso, o aumento na mistura do anidro à gasolina.
Por ter paridade econômica de até 70% do valor da gasolina, esperava-se que o preço do etanol hidratado subisse nas usinas, em linha com a valorização do combustível derivado de petróleo. Mas as expectativas o setor foram frustradas. Nas unidades produtoras de São Paulo, maior mercado do País, o preço do etanol começou fevereiro cotado em R$ 1,3872, o litro, em média, e encerrou o mês em R$ 1,3174, segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq/USP).

[O historico completo de preço do etanol hidratado e anidro nas usinas está disponível aqui (exclusivo assinantes)]
De acordo com Mirian Bacchi, coordenadora da equipe de pesquisadores do Cepea/Esalq/USP, o problema no mercado de etanol foi a oferta das usinas e não a demanda nos postos, que cresce constantemente se comparados iguais períodos dos anos. Além disso, segundo ela, há a questão de mercado. Com a proximidade da nova safra de cana e com cinco usinas já processando no Centro-Sul para o período 2015/16, as distribuidoras se retraem e compram o mínimo necessário de etanol à espera de novas quedas de preço.
"As distribuidoras sabem que a cada semana poderão ter preços menores. Além disso, as usinas têm de liberar tanques para colocar álcool novo", disse Mirian. Para o diretor de uma grande trading comercializadora de álcool, muitas usinas ampliaram os estoques de anidro no fim do ano passado à espera da demanda que o aumento da mistura deste tipo de etanol na gasolina, de 25% para até 27,5%, traria. Mas com a série de adiamentos da medida por parte do governo, as companhias foram obrigadas a "molhar" (reprocessar) o anidro e a vendê-lo como hidratado, o que acabou por aumentar a oferta do álcool utilizado diretamente nos tanques dos veículos.
De acordo com ele, as usinas tinham reserva de 400 milhões de litros de anidro capaz de serem "transformadas" em hidratado.
"Isso causou pressão vendedora. Sem a medida (aumento da mistura), anulou-se uma demanda histórica do setor, que era a volta da Cide. É decepcionante", afirmou o executivo. "Houve uma corrida desesperada para realizar (comercializar) os estoques", acrescentou, lembrando que já este mês tem início a safra 2015/2016 no Centro-Sul, com incremento de produção do etanol.
Para sócio e diretor da consultoria Canaplan Luiz Carlos Corrêa Carvalho, a demanda pelo etanol até subiu com o aumento nos preços da gasolina, mas a oferta de grandes grupos produtores foi maior e pressionou o preço nas usinas. "Alguns grupos venderam muito, mais do que normalmente ocorre no mercado nesta época". Ainda segundo ele, os sinais de arrocho do governo federal tornam difícil para setor esperar a liberação de crédito para estocagem de etanol na próxima safra, o que levou companhias a desovarem estoques em busca de liquidez financeira.