NovaCana

Odebrecht consegue etanol celulósico competitivo, mas futuro da usina é incerto

biomassa e2G 050515Projeto foi postergado em “pelo menos” um ano e empresa pode comercializar pacote tecnológico próprio

NovaCana 7 min de leitura

Após apostar em um pacote tecnológico próprio para sua usina de etanol celulósico, a Odebrecht Agroindustrial, em parceria com a dinamarquesa Inbicon, conseguiu levar o custo de produção do renovável, calculado para escala industrial, a um patamar inferior ao da produção do combustível de primeira geração, um indicativo da viabilidade do projeto.

No entanto, embora a empresa tenha anunciado, no ano passado, a previsão de que sua primeira fábrica de etanol de segunda geração (E2G) começaria a produzir no final de 2016, o futuro do projeto ainda é incerto. 

Veja a seguir as perspectivas para o projeto de E2G da Odebrecht/Inbicon, detalhes sobre o custo de produção e como as opções comerciais e tecnológicas da parceria se diferencia dos outros projetos.

Após apostar em um pacote tecnológico próprio para sua usina de etanol celulósico, a Odebrecht Agroindustrial, em parceria com a dinamarquesa Inbicon, conseguiu levar o custo de produção do renovável, calculado para escala industrial, a um patamar inferior ao da produção do combustível de primeira geração, um indicativo da viabilidade do projeto.

Em entrevista exclusiva ao portal NovaCana, o gerente comercial sênior da Inbicon, Jesper Dohrup, afirmou que o custo de produção do biocombustível alcançado pela Odebrecht é de aproximadamente R$1/litro, valor inferior ao R$ 1,50/litro estimados atualmente pelo BNDES para a produção do etanol celulósico.

Segundo ele, o custo de produção para a escala industrial foi calculado em janeiro deste ano com base em testes de laboratório e em pesquisas nas escalas piloto e de demonstração. O valor não incorpora as recentes oscilações no câmbio.

“O objetivo do projeto da Odebrecht foi, num primeiro momento, trazer a tecnologia da Dinamarca para a produção do biocombustível, utilizada em culturas como trigo e milho, para o Brasil, e adaptá-la para as condições das usinas do país, reduzindo o Capex e trabalhando em cima do Opex, a fim de baratear o combustível. E nós conseguimos um resultado muito bom, que foi a redução de Capex para o projeto. Conseguimos chegar a um custo operacional que está abaixo do nível do de primeira geração. Foi um trabalho duro do pessoal da Odebrecht e nosso. Estamos perto de R$ 1”, disse.

No entanto, embora tenha anunciado, no ano passado, a previsão de que sua primeira fábrica de etanol de segunda geração (E2G) começaria a produzir no final de 2016, o início das operações ainda é incerto.

“O projeto agora está um pouco parado porque tínhamos desafios na safra. A Odebrecht queria trabalhar em cima de melhorias no processo deles nas usinas 1G, no que é, digamos, o negócio básico do grupo. O projeto foi postergado em pelo menos um ano, mas vai continuar”, adiantou o gerente comercial da Inbicon.


 

Leia mais

As 9 metas não alcançadas da Odebrecht Agro

As 10 estratégias da Odebrecht Agro para sair da crise e de uma dívida bilionária


No ano passado, a companhia havia concluído a segunda etapa dos testes para comprovar a viabilidade da tecnologia escolhida. Conforme comunicou à época ao mercado, a Odebrecht chegou a enviar amostras de bagaço de cana de suas usinas à Dinamarca para a planta de demonstração já montada. Mas apesar das perspectivas positivas, a empresa disse, na ocasião, que a competitividade do processo ainda não havia sido confirmada e que, por isso, a instalação da usina não era uma certeza.

Apesar dos desafios da indústria E2G terem levado pioneiras do segmento a uma revisão das projeções de produção e também de investimentos, adiando expectativas, os planos da Odebrecht para o celulósico podem ter sido mais afetados pelo cenário geral do etanol do que pelos desafios da tecnologia inovadora.

No final de 2014, a companhia informou que cortaria pela metade seus investimentos no setor sucroenergético e seu relatório anual apontava para uma mudança do foco de sua estratégia, com redução do ritmo de crescimento e dos investimentos. No documento a companhia informou que mesmo a ampliação de uma usina já instalada, a Eldorado, deveria ser adiada em vista da necessidade de redução de custos e aumento da produtividade.

No final de março, outra companhia que apostou no E2G, a PBio, subsidiária de biocombustíveis da Petrobras, informou ao portal NovaCana que seu projeto de etanol celulósico está parado e não tem previsão para começar a operar.

Tecnologia à venda para outras usinas

Diferentemente de outros projetos, como o da Raízen, cujo custo de produção está quase 50% acima do de etanol 1G, a Odebrecht quer primeiro “desenvolver e amadurecer” o produto para, então, erguer a sua própria usina e/ou vender o seu pacote tecnológico.

A medida em que o projeto da Odebrecht avança, fica cada vez mais evidente o porquê da estratégia da empresa de deter uma rota tecnológica para a produção do biocombustível.

Com três patentes em andamento, todas em desenvolvimento conjunto com a Inbicon, a Odebrecht Agro poderá optar por dois caminhos.

“O primeiro é disponibilizar a tecnologia para o mercado brasileiro e também fora do país. O segundo é desenvolver projetos dentro da própria Odebrecht, conforme a necessidade deles. Chegamos a este ponto, pois fechamos o nosso projeto de desenvolvimento. Eu estou aqui para abrir o caminho para a comercialização e auxiliar, junto com a companhia, a instalação da tecnologia nas usinas do grupo”, revelou Dohrup.

Segundo o engenheiro, até agora, não houve alterações no escopo do projeto.

“Trabalhamos muito na integração com a primeira geração, com a nacionalização do equipamento e na adaptação dos reagentes químicos encontrados na usina”, citou, referindo-se à estas etapas como a parte “mais básica” do processo de otimização do projeto.

Flexibilidade

Potencial concorrente da Beta Renewables, licenciadora da tecnologia Proesa, adotada pela GranBio em sua planta 2G, a Inbicon tem focado seus esforços na venda de licenças e na criação de patentes e tecnologias para a viabilização do etanol celulósico.

Com um modelo de negócios flexível, típico das primeiras usinas de etanol de segunda geração, a parceria com a Odebrecht garante certa “flexibilidade” ao projeto.

“Temos parceiros no fornecimento do equipamento mecânico, especialmente na parte de pré-tratamento, que é uma etapa essencial do processo. Temos, também, um trabalho com os fornecedores de enzimas e leveduras”, comentou Dohrup.

Segundo explicou, no caso do projeto da Odebrecht, não há uma parceria “fixa” para o fornecimento das principais matérias-primas. “Temos trabalhado com todos os fornecedores de enzimas e leveduras para sempre ter a melhor opção”, ressaltou.

Mesmo tendo dado um importante passo rumo à viabilidade econômica do processo, com a redução do custo de produção do biocombustível já na escala industrial, Dohrup deixou claro que, tanto para a Odebrecht Agro, quanto para os demais players, ainda há uma série de fatores em jogo, os quais deverão determinar o sucesso do etanol 2G, dentro e fora do Brasil.

“Tudo vai depender da biomassa. Vai depender se a enzima é cotada em dólares ou em euro. Nós estamos deixando opções. Conforme o tempo de início do projeto, às vezes, você só acaba fechando a compra destes insumos três anos depois”, disse, acrescentando que “tudo pode acontecer nesse intervalo”.

Após a validação da tecnologia, um projeto de viabilidade econômica deverá ser formatado para formalizar a continuidade da sociedade com a Inbicon na implantação e gestão da tecnologia.

Leonardo Siqueira – NovaCana

Compartilhar: