A Odebrecht Energia, companhia do grupo Odebrecht SA, está buscando investidores interessados em comprar participações em seus negócios de energia renovável.
Desmembrada em 2014 da Odebrecht Agro, braço sucroalcooleiro do conglomerado da família Odebrecht, a empresa busca atrair o capital estrangeiro num momento em que a oferta de crédito é escassa no país.
Em entrevista à agência de notícias Bloomberg, o diretor de investimentos da Odebrecht Energia, Felipe Jens, informou que a companhia já está em conversas com quatro fundos de pensão interessados em seus projetos eólicos, hidrelétricos e de biomassa.
A companhia tem 2,4 gigawatts de capacidade instalada em projetos de energia renovável no Brasil.
“O jeito de perpetuar o crescimento neste setor é buscar um parceiro”, disse Jens, por telefone, de São Paulo. “Você pode investir mais usando recursos de terceiros”, acrescentou.
Com o aumento dos juros para combater a inflação, a economia do país caminha para o seu pior ano desde 1992.
Especificamente para o setor sucroenergético, que inclui os negócios de cogeração a partir da biomassa de cana, as perspectivas de crédito não são nada animadoras. Segundo a agência de classificação de riscos Standard and Poor’s (S&P), a disponibilidade de financiamento “está próxima ao limite e o Capex das usinas é limitado”. Até mesmo o BNDES, o principal apoiador do setor sucroalcooleiro, está limitando a disponibilidade de recursos e aumentou as taxas de juros.
Por outro lado, a crise que endividou as usinas é vista por especialistas do segmento de energia como uma oportunidade a investidores estrangeiros que buscam barganhas. Um real fraco, cuja cotação chegou ao nível mais baixo dos últimos 10 anos, ajuda a tornar os ativos locais mais baratos em dólares americanos.
“Este é o ano das fusões e aquisições no Brasil”, disse a diretora da consultoria Thymos Energia, Thais Prandini. “Está tudo mais barato do que quando o país estava indo bem”.
A desaceleração da economia ocorre após um boom de investimentos no setor de energia renovável nos últimos anos, que atraiu investidores num momento em que o país buscava diversificar sua geração de energia.
No mercado, especula-se que gestores de ativos alternativos, como a canadense Brookfield Asset Management, estejam mirando no setor sucroalcooleiro. A empresa, que estaria negociando a aquisição da Renuka por R$ 1,5 bilhão por meio da assunção de dívidas, pode investir mais de R$ 3,3 bilhões (US$ 1,1 bilhão) no Brasil, sendo dois terços desse total em ativos inadimplentes, segundo fontes com conhecimento direto do assunto.
"Temos sido historicamente muito bem-sucedidos na aquisição de empresas de grande escala nos períodos em que o capital é limitado", disse Sam Pollack, CEO da unidade de investimento em infraestrutura da Brookfield, em carta a investidores, em fevereiro. Segundo fontes, imóveis comerciais, açúcar e etanol seriam algumas das apostas da empresa.
Com a seca que limitou a produção das hidrelétricas, as empresas de biomassa de cana valeram-se dos altos preços da eletricidade no mercado à vista para aumentar a geração de energia em 17%, segundo dados da União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica).
A expansão da cogeração, amplamente financiada pelo BNDES, parece ter dado uma trégua.
“Definitivamente, há uma redução dos recursos de financiamento no Brasil”, disse Jens. “Temos que ser cautelosos com novos investimentos, especialmente no que diz respeito à disponibilidade de fontes de capital”.
Em novembro do ano passado, segundo adiantou com exclusividade o portal novaCana, a Odebrecht Energia já adotava uma postura cautelosa em relação aos investimentos em cogeração a partir da biomassa de cana.
Com 85% de sua energia exportável comprometida no mercado regulado, a empresa disse à época que não planejava firmar novos contratos para a venda de bioeletricidade no curto prazo.
Na ocasião, um executivo da empresa chegou a comentar que a Odebrecht Energia Renovável estava “avaliando projetos de aumento de capacidade das usinas existentes” e que estava atenta a “outras oportunidades”.
Procurada para falar sobre os planos - e os potenciais investimentos – nas nove térmicas de cana que opera, a companhia não estava imediatamente disponível para comentar.
Segundo Jens, o momento é propício para que a Odebrecht venda alguns de seus ativos de energia renovável, já que a maioria das usinas acabou de iniciar operações e a fase de construção terminou.
O mais recente projeto de expansão da capacidade de cogeração da empresa a partir da biomassa de cana foi a Usina Eldorado, que elevou sua potência instalada de 25.019 para 141.019 KW. Com investimentos de R$ 215,4 milhões, o projeto foi o maior entre as térmicas movidas a bagaço de cana contratados no leilão A-5 de agosto de 2013. Em 2014, o braço de cogeração da Odebrecht não participou do certame.
A entrada de capital estrangeiro nos negócios da Odebrecht Energia está sendo discutida pelo conselho de diretores da Odebrecht SA e a empresa ainda não contratou assessores.
No Brasil, a companhia detém 9 térmicas de cana em três estados: São Paulo, Goiás e Mato Grosso do Sul. Estima-se, no entanto, que a receita da Odebrecht Energia – na soma de todos os ativos, não apenas as térmicas de cana - represente menos de 2% das receitas do grupo Odebrecht, presente em 21 países.
Os dados de energia entregue por cada usina sucroenergética pode ser acessado na plataforma de dados (exclusvo assinantes).
Novos projetos
No Peru, a Odebrecht recebeu aprovação do governo para construir duas hidrelétricas que gerarão, juntas, 780 megawatts (MW). No Panamá, a empresa busca a aprovação de um projeto hidrelétrico de 224 MW.
Lava Jato
A Norberto Odebrecht Construtora, empresa do grupo Odebrecht, foi mencionada em depoimentos na investigação sobre corrupção na Petrobras, a Operação Lava Jato. Por causa das investigações, a construtora está impedida de fazer qualquer negócio com a estatal. A Odebrecht nega qualquer irregularidade.
A Odebrecht Ambiental, que também faz parte do conglomerado, também está entre as empresas proibidas de realizar negócios com a Petrobras. A Odebrecht Energia, no entanto, não está envolvida nas acusações.
Texto da Bloomberg e Exame com informações adicionais do novaCana.com