Cana própria X cana de terceiros: 16 gráficos mostram a evolução da aquisição de cana-de-açúcar pelas usinas
Os preços mais baixos da cana-de-açúcar produzida por terceiros têm atraído – e muito – a atenção das usinas do Centro-Sul nas últimas safras. Não é segredo que os grandes grupos sucroenergéticos estão gerenciando menos os canaviais e terceirizando a atividade para fornecedores independentes.
Considerada uma saída adequada por alguns grandes nomes do setor, a aquisição de matéria-prima traz desafios adicionais devido às variações de qualidade e ao controle limitado da usina em relação ao produto adquirido.
Ainda assim, essa opção está crescendo nas decisões estratégicas de companhias como Raízen Energia, Tereos Internacional e Odebrecht Agroindustrial. Em outubro, a Raízen divulgou a criação de um convênio de R$ 150 milhões com o Itaú BBA para uso exclusivo dos seus fornecedores de cana cadastrados no Programa Cultivar. A Tereos, que controla a Guarani, tem dado preferência à matéria-prima terceirizada e adquire de fornecedores aproximadamente dois terços de sua demanda total, que é de 20 milhões de toneladas. Já a Odebrecht Agroindustrial divulgou em julho que pretende expandir a participação de cana de terceiros em seu processamento para 40% até 2018/19.
Números inéditos atualizados da safra 2015/16 (até o final de outubro), e o comparativo com as safras passadas, mostram a velocidade com que as usinas em cada estado estão trocando o modelo de produção da principal matéria-prima do açúcar e etanol.
Os preços mais baixos da cana-de-açúcar produzida por terceiros têm atraído – e muito – a atenção das usinas do Centro-Sul nas últimas safras. Não é segredo que os grandes grupos sucroenergéticos estão gerenciando menos os canaviais e terceirizando a atividade para fornecedores independentes.
Considerada uma saída adequada por alguns grandes nomes do setor, a aquisição de matéria-prima traz desafios adicionais devido às variações de qualidade e ao controle limitado da usina em relação ao produto adquirido.
Ainda assim, essa opção está crescendo nas decisões estratégicas de companhias como Raízen Energia, Tereos Internacional e Odebrecht Agroindustrial. Em outubro, a Raízen divulgou a criação de um convênio de R$ 150 milhões com o Itaú BBA para uso exclusivo dos seus fornecedores de cana cadastrados no Programa Cultivar. Segundo a empresa, a iniciativa é pioneira no setor e oferece vantagens a 286 de seus fornecedores, que representam 74% da produção de cana-de-açúcar comprada. Ainda de acordo com números dados da empresa, na safra atual devem ser adquiridas 28,5 milhões de toneladas.
A Tereos, que controla a Guarani, tem dado preferência à matéria-prima terceirizada e adquire de fornecedores aproximadamente dois terços de sua demanda total, que é de 20 milhões de toneladas. O terço restante é produzido em terras arrendadas, uma vez que o grupo não possui terras próprias. Na avaliação da companhia, este modelo de operação requer baixo capital empregado e alto retorno dos ativos.
Outro exemplo é a Odebrecht Agroindustrial. Em julho, a companhia divulgou que pretende expandir a participação de cana de terceiros em seu processamento para 40% até 2018/19. A principal justificativa é que matéria-prima de fornecedores tem custo mais baixo do que a produção própria.
A visão destes grandes grupos explica em boa parte o crescimento que a participação da cana de terceiros tem tido nas usinas brasileiras. Segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), no acumulado da safra 2015/16 (até o final de outubro), a participação dos fornecedores na moagem do Centro-Sul tem sido 45,9% da moagem total.
Há quatro safras, em 2011/12, a importância dos fornecedores na moagem da região era bem menor, de 36,9%. Os estados em que os fornecedores de cana se tornaram mais relevantes atualmente, são justamente os dois maiores produtores do país: São Paulo (52,7%) e Minas Gerais (46,3%).

Os números sobre a participação de cana própria e de terceiros nas safras passadas, de 2007/2008 a 2011/12, constam no Perfil do Setor do Açúcar e Álcool no Brasil, divulgado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
É importante notar que entre os dados do Mapa e da Conab existe um hiato de informações, de modo que não é conhecida a participação da cana e própria e de terceiros durante as safras de 2012/13 a 2014/15. No entanto, a conexão entre os dados existentes, indica crescimento constante na participação dos fornecedores.
Em alguns estados a terceirização da produção de matéria-prima foi acelerada e na comparação com a safra 2011/12, a utilização de cana-de-açúcar de fornecedores mais do que dobrou. No Paraná, a cana de terceiros passou de 4,11 bilhões de toneladas para 9,47 bilhões de toneladas. Isso representa um crescimento de 130% na quantidade de cana-moída, além de um aumento na participação, de 10,1% para 27,3%.

Um quadro bem similar está presente no Mato Grosso. A quantidade de cana-de-açúcar de terceiros moída em 2011/12 foi de 1,74 bilhões, contra 5,79 no acumulado da atual safra – volume 232% maior. Já a participação dessa matéria-prima no total da cana moída no estado foi de 13,2% para 36,5%.

Por sua vez, Goiás teve um crescimento de 142% na quantidade de cana de terceiros adquiridas pelas usinas, indo de 10,19 bilhões de toneladas em 2011/12 para 25,39 bilhões de toneladas no acumulado atual. Além disso, a matéria-prima de fornecedores teve sua participação relativa ampliada de 23,2% para 39,4% da cana moída no estado.

Já em São Paulo, maior produtor de cana-de-açúcar do país, a quantidade de cana de terceiros passou de 132,48 bilhões em 2011/12 (ocupando 43,3% do total) para 169,73 bilhões de toneladas (52,7% do total). Dessa forma, a participação absoluta da matéria-prima cresceu 28%, enquanto sua participação no mix foi ampliada em 21,7%.

Outro estado de grande produção, Minas Gerais ampliou a participação da cana de terceiros de 42,3% para 46,3% – um crescimento de 9,5% – entre 2011/12 e 2015/16. Em valores absolutos, a quantidade de cana comprada foi de 21,24 bilhões de toneladas para 25,77 bilhões, o que representou um aumento de 21%.

Fornecedores em baixa
Por fim, Mato Grosso do Sul e Espírito Santo são os únicos estados do Centro-Sul que registraram uma queda no uso da cana de terceiros. No Mato Grosso do Sul, a matéria-prima de fornecedores está tendo uma participação menor em relação a 2011/12. A presença da cana de terceiros foi de 26,6% para atuais 18,2% no total das safras, enquanto a quantidade de cana moída foi de 8,99 bilhões de toneladas para 6,89 bilhões, uma redução de 23%.

No estado capixaba, o total de cana moída teve uma queda acentuada de 36% no período analisado, indo de 2,19 bilhões de toneladas para 1,4 bilhões de toneladas. A presença da cana-de-açúcar de terceiros, assim, caiu 24%, indo de 45,3% do total moído para 34,4%.

Norte e Nordeste
Embora os números atualizados do Mapa tratem apenas dos estados do Centro-Sul, a situação não é muito diferente para os produtores do Nordeste do país. Em Alagoas, por exemplo, estima-se que quase metade da matéria-prima seja proveniente de terceiros – em 2011/12, esse índice era de 29,8%.
Na região, esse crescimento também representaria uma oportunidade para a reativação de usinas paradas. De acordo com os últimos dados divulgados pelo Conab, em 2011/12, a matéria-prima de terceiros representava 29,1% do mix nos estados do Norte e do Nordeste.
Renata Bossle – NovaCana