De todas as previsões feitas pelo governo para o setor sucroenergético, como a do MME em junho e do Mapa em julho, o cenário traçado agora é o mais completo e que carrega mais peso dentro da estrutura governamental
De todas as previsões feitas pelo governo para o setor sucroenergético, como a do MME em junho e do Mapa em julho, o cenário traçado agora é o mais completo e que carrega mais peso dentro da estrutura governamental.
Este resumo do trabalho do governo se concentrou em detalhar as premissas e cenários em três frentes (com dezenas de gráficos detalhando as previsões e comparando com outras projeções estabelecidas neste ano):
- Como os canaviais se desenvolverão nos próximos 10 anos em termos de moagem esperada, produtividade (toneladas por hectare e Kg de ATR por ton.), área colhida, plantio mecanizado e presença das mudas pré-brotadas;
- Oferta e demanda dos combustíveis do ciclo Otto no Brasil: Nova visão sobre o desafio do ciclo Otto e perspectivas de produção de etanol e gasolina pelas usinas e refinarias brasileiras e de consumo do país;
- Desenvolvimento do mercado das usinas: evolução da eficiência industrial, mix de produção, produção de açúcar, exportação e mercado internacional.
De todas as previsões feitas pelo governo para o setor sucroenergético, como a do MME em junho e do Mapa em julho, o cenário traçado agora é o mais completo e que carrega mais peso dentro da estrutura governamental.
A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) divulgou no mês passado o Plano Decenal de Energia 2024 (PDE) com as perspectivas para os setor de energia na próxima década. As informações permanecem em consulta pública até amanhã (7 de outubro) e o NovaCana apresenta um resumo com as principais premissas e projeções para o setor sucroenergético.
Desafio do ciclo Otto
Em todas as recentes previsões oficiais, uma situação está clara para o governo federal: o Brasil não será capaz de equacionar o problema da oferta de combustíveis dos veículos do ciclo Otto.
As projeções do PDE, instrumento que norteia a elaboração de políticas públicas, mostra a redução das expectativas em relação ao etanol hidratado (em relação ao PDE 2023) e a convicção de que a importação de gasolina será uma constante no período analisado, que vai de 2015 a 2024.
A demanda por combustível líquido para a frota de veículos leves deve crescer a taxas de 2,3% ao ano. Já a oferta, seja de etanol quanto de gasolina, não será suficiente para suprir o gap energético da oferta.

O governo aposta que a restrição de oferta de etanol projetada, somada ao aumento da demanda de combustível pela frota crescente, farão o Brasil ter que importar cada vez mais gasolina.
“Embora haja recuperação da produção de etanol ao longo do período e a demanda de gasolina permaneça praticamente estável até 2020, o mercado permanece importador de gasolina até 2024, já que não há aumento significativo da produção desse derivado”, admite a EPE.

No entanto, a principal preocupação do governo não está exatamente na importação, mas no percentual da demanda que esta importação ocupará. Segundo a EPE, importações abaixo de 10% da demanda oferecem pouco risco para o abastecimento nacional. Assim o estudo conclui que os níveis de importação “não oferecem maiores preocupações, pois podem ser facilmente atendidos pelo mercado internacional, já que o cenário de oferta mundial de gasolina tende a ser favorável (a Europa é estruturalmente exportadora e há expectativas de estabilização, ou mesmo redução, da demanda de gasolina nos EUA - tradicional destino para o excedente europeu)”.
Mesmo assim, em 2024 o Brasil ultrapassaria o nível seguro, como mostra o gráfico abaixo.

Etanol
Por outro lado, a despeito de um cenário que estimule investimentos significativos no setor sucroenergético, a EPE acredita que o renovável de cana seguirá ganhando mais relevância do que seu concorrente fóssil. A participação relativa do etanol na matriz energética deve sair de 5,7%, em 2015, com 15,3 milhões de toneladas equivalentes de petróleo (tep), para 6,2% de participação em 2024, com 21,7 milhões de tep de etanol consumidos.
No mesmo período, a expectativa é de que a fatia ocupada pela gasolina vá na direção oposta, caindo dos atuais 9,3% para 7,8% ao final do decênio, equivalentes a 27,7 milhões de tep.
Com um crescimento de demanda estimado em 6,8% ao ano, o etanol hidratado deverá atingir 27 bilhões de litros, em 2024, antes os 14 bilhões de litros registrados em 2014.
Somados, o etanol hidratado, anidro, de usos não carburantes – alcançará 1,5 bilhões de litros em 2024 – e para exportação, irão resultar em uma demanda final de 44 bilhões de litros.

Na comparação com as recentes projeções feitas pelo MME (apresentado ao Conselho Nacional de Política Energética em 23 de junho de 2015) e com as estimativas do Mapa (apresentadas em julho de 2015), fica evidente que a EPE continua muito mais otimista em relação ao crescimento da oferta de etanol no Brasil (veja gráfico abaixo).

Boa parte deste otimismo da EPE está relacionado com o mix de produção, que deve se voltar cada vez mais para o etanol (os detalhes das projeções de moagem, produtividade e eficiência industrial estão apresentados na parte final deste texto).

Já o anidro, usado na gasolina, terá incrementos mais discretos, acompanhando o crescimento inferior do consumo de gasolina. O PDE projeta, para o período de 2014 a 2024, uma taxa média de crescimento de 1,9% ao ano. Deste modo, em 2024, a demanda nacional de etanol anidro atingirá o valor de 13 bilhões de litros. A projeção da demanda de etanol anidro é calculada a partir da demanda por gasolina C e do teor de anidro pré-estabelecido, que a EPE assumiu, será de 27% por todo o período futuro.
“O mercado brasileiro de etanol deverá continuar sua trajetória de expansão nos próximos 10 anos, em função do aumento expressivo da frota de veículos flex-fuel. No entanto, o crescimento terá menor intensidade, quando comparado ao Plano anterior, devido, principalmente, à redução da expectativa de investimentos em novas unidades produtoras, o que proporcionará uma menor oferta nacional do produto”.
A oferta de anidro, segundo a EPE, alcançará 14 bilhões de litros. Já para o hidratado o estudo espera que as usinas coloquem 30 bilhões de litros no mercado.


Como já demonstrado em edições anteriores, a EPE manteve o ceticismo em relação ao etanol celulósico. É projetado que a penetração da tecnologia da segunda geração não será representativa até 2024, embora existam, no período decenal, duas unidades operando e outros projetos em implantação.
A metodologia utilizada no PDE para realizar as projeções de oferta e demanda de etanol considera premissas que abrangem o ciclo médio da cana de cinco anos, expansão da capacidade produtiva e dos fatores de produção agrícola (produtividade por hectare e concentrações de açúcares na cana) e industrial (conversão do ATR em açúcar e etanol).
As projeções da EPE para o parque industrial foram detalhadas pelo NovaCana na semana passada na reportagem “Governo prevê mais reabertura de usinas de etanol do que novos projetos até 2017”.
Oferta de cana
Para o estudo, entre 2015 e 2018, deve-se iniciar a recuperação da oferta de cana, motivada pela manutenção dos investimentos em renovação dos canaviais e em tratos culturais, iniciados em 2013, que prosseguirão no restante do período, embora em menor intensidade.
Na metade do período decenal, a projeção é que o crescimento seja mais acelerado, com volume de cana colhida passando de 654 milhões de toneladas, em 2015, para 792 milhões em 2020. A partir daí, os últimos cinco anos, devem ser marcados por maior estabilidade, com o volume de cana disponível atingindo 841 milhões de toneladas em 2024. Os números são semelhantes aos projetados pelo MAPA.

O estudo também projeta que ao final do período o plantio mecanizado já estará implantado em quase todo o canavial, assim, a quantidade de mudas utilizadas nesse sistema (18 t cana/ha) será de 27 milhões de toneladas.
“No entanto, se for realizada a implantação do sistema de Mudas Pré-Brotadas – MPB (2 t cana/ha), a produção de mudas poderá cair para 3 milhões de toneladas em 2024, disponibilizando uma maior quantidade de cana para moagem e aumentando o faturamento do produtor”, ressalva a análise.
Na área industrial, três fatores deverão proporcionar o crescimento da oferta de etanol: ocupação de capacidade ociosa de moagem das unidades existentes; expansão de capacidade de moagem e implantação de novas unidades produtoras, embora em ritmo inferior ao histórico.
Inconsistência
Contudo, o estudo apresenta uma inconsistêcia, pois a EPE projetou que as usinas teriam uma capacidade de moagem inferior ao que seria processado de cana no final do período decenal. Enquanto a capacidade instalada em 2024 — considerando novas usinas, ampliações, reabertura de usinas, além da manutenção das unidades em operação atualmente — deve atingir 811 milhões de toneladas, o volume de cana processado chegaria a 841 milhões de toneladas no mesmo período.
Rendimento e produtividade
Nos primeiros anos do decênio, é projetada a estabilidade do ATR em 136,9 kg/ton, com posterior melhora, sendo o estimado que, entre 2017 e 2024, o rendimento médio será de 142,8 kg/ton.
No horizonte de estudo, a produtividade média da cana sairá de 70,5 toneladas por hectare (ton/ha), em 2014, para 85,3 ton/ha em 2024. A melhora agrícola virá da adoção de tratos culturais mais adequados, introdução de novas variedades mais produtivas e aumento da área de cana planta, via expansão e renovação.


“Vale ressaltar que o ganho de produtividade e de qualidade da cana-de-açúcar será suficiente para atender ao crescimento da produção de açúcar, sem um grande aumento da área destinada à sua produção”, destaca a análise.
Eficiência na conversão
O aumento da eficiência na área industrial deverá ocorrer, segundo o PDE, principalmente, no processo de fermentação. A partir da disseminação do uso da tecnologia de alto teor alcoólico e da viabilização da fermentação a vácuo, o estudo acredita que será possível produzir mais álcool, com menos sacarose.
Ao longo do período decenal, o fator de conversão do hidratado deve passar de 1,672 kg ATR/litro para 1,657 kg ATR/litro. No caso do anidro, a eficientização do processo de transformação vai melhorara o fator de conversão de 1,749 para 1,734 kg ATR/litro de etanol. Já o fator de conversão do açúcar permanecerá constante, em 1,049 kg ATR/kg.
Açúcar cresce 2,8% ao ano
Embora a EPE utilize dados do Ministério da Agricultura (Mapa) para subsidiar seu trabalho, a projeção para a produção de açúcar do PDE é ligeiramente superior à estimada pela pasta. O maior descolamento entre as previsões está, principalmente, entre 2018 e 2022.
Uma explicação possível para a divergência é que a EPE considera que o ganho de produtividade (tc/ha) e de qualidade (ATR/tc) da cana-de-açúcar será suficiente para atender ao crescimento da produção de açúcar. Em consequência, o aumento da área será destinada fundamentalmente à produção de etanol.
Foi considerada a produção de açúcar com crescimento de 2,8% ao ano, a partir das previsões de mix, baseadas em análise de mercado doméstico e internacional. Assim, a produção parte de 36,5 milhões de toneladas em 2015 para 47,6 milhões de toneladas em 2024.

A projeção da demanda interna de açúcar considerou a evolução do consumo per capita brasileiro relacionado ao aumento da renda e ao envelhecimento da população. Já a projeção de exportação de açúcar foi estimada a partir da premissa de que o Brasil atenderá de 41% a 48% do fluxo de comércio mundial, no período decenal.
Mercado internacional
O mercado internacional de etanol deverá manter as características atuais o que não deixa espaço para grandes mudanças no comportamento das exportações brasileiras. A produção mundial também deve permanecer concentrada entre Brasil e Estados Unidos, que respondem por cerca de 80%, durante todo o período decenal.
“A tendência é de diminuição dos incentivos para os biocombustíveis de primeira geração e modestos volumes transacionados, como reflexo da crise econômica, aliada à adoção de tecnologias mais eficientes e à preocupação, por parte dos principais mercados consumidores, com sua independência energética”.
Apesar do Padrão de Combustíveis Renováveis (Renewable Fuels Standard - RFS), que determina a participação de biocombustíveis em volumes crescentes no consumo final de combustíveis fósseis, o governo norte-americano já se declarou comprometido com a melhoria na eficiência energética do país. Esse fator pode, no longo prazo, resultar numa estagnação ou diminuição da demanda de combustíveis pela frota de veículos leves, com consequências na demanda final de etanol.
Para a projeção do volume de etanol a ser exportado pelo Brasil para os Estados Unidos, a EPE tomou como referência as estimativas de importação total americana do produto, elaboradas pela EIA, e novas diretivas da EPA, ajustadas por análises de mercado, o que inclui as restrições na produção brasileira de etanol.
“As restrições à demanda internacional de etanol, por efeito das crises econômicas e do tradicional protecionismo de mercado, aliadas às restrições de oferta de etanol no Brasil, fazem com que as perspectivas de exportação deste produto sejam modestas, sem expectativas de grandes variações no horizonte decenal (com crescimento anual de 6,8%)”.
Essa perspectiva resultará em volumes futuros de exportação ainda inferiores ao recorde histórico de 2008 (5,1 bilhões de litros). Em 2024, a projeção de exportação é de 2,7 bilhões de litros.

Consulta
O documento completo com a previsão da EPE para todo setor energético brasileiro pode ser acessado aqui (.pdf 33,1 MB— 465 páginas).
Comentários e sugestões podem ser enviados para o governo até o dia 07 de outubro pelo e-mail pde2024@mme.gov.br.
Amanda SchArr – NovaCana
