Errata (11/11, às 8h50): Conforme aviso ao mercado enviado pela Raízen, os novos diretores da companhia devem assumir suas posições em 14 de novembro. O texto abaixo foi alterado.
A Cosan, controladora de empresas nos setores de energia, logística e agronegócio do bilionário Rubens Ometto, inicia uma nova etapa em sua gestão a partir de 14 de novembro, com um time renovado no alto escalão.
Após mudanças definidas pelo conselho de administração no último dia 21, a companhia e suas subsidiárias – Raízen, Compass e Rumo – enfrentam o desafio de equilibrar sua estrutura de alavancagem e impulsionar o desempenho das ações, em um cenário que, segundo análises de XP Investimentos, Goldman Sachs e BTG Pactual, exige estratégia e eficiência para lidar com a complexidade crescente de suas operações.
Houve três mudanças de diretor-presidente (CEO) e duas de diretor financeiro (CFO), sinalizando uma reestruturação estratégica no comando do grupo. O diretor de estratégia Marcelo Martins assume como CEO da Cosan, substituindo Nelson Gomes, que passa a liderar a Raízen. Ricardo Mussa, anteriormente CEO da Raízen, torna-se o novo chefe da Cosan Investimentos e passa a integrar o conselho de administração da Raízen.
Na área financeira, Rafael Bergman, CFO da Rumo, assume o cargo de CFO da Raízen, enquanto Guilherme Machado, atual CFO da Compass, torna-se o CFO da Rumo.
Em outubro de 2023, o BTG já destacava a dificuldade de negociar ações da Cosan, sobretudo pelo seu elevado nível de endividamento. Ainda assim, o banco argumentava que o processo de avaliar o valor da empresa (valuation) não refletia plenamente o potencial de criação de valor da Cosan por meio de seus ciclos de investimento.
O argumento era que os papéis da companhia poderiam oferecer uma oportunidade de entrada atrativa. Porém, nos primeiros seis meses deste ano, a Cosan gastou R$ 2,17 bilhões com juros sobre a dívida líquida, um aumento de 19% em relação ao primeiro semestre do ano anterior.
Apesar das dificuldades apontadas pelos estrategistas, a Cosan, segundo os analistas do BTG, continua a ajustar sua estrutura de capital e busca alternativas para mitigar sua alavancagem. Mas eles pontuam que o processo de desalavancagem orgânica tem demorado mais do que o esperado porque os dividendos recebidos pela holding são em grande parte consumidos por sua dívida atrelada à Selic.
Com a próxima grande amortização programada apenas para 2027, os especialistas dizem que a Cosan dispõe de tempo e flexibilidade para tomar decisões estratégicas, como venda de ativos ou até mesmo uma possível abertura de capital da Compass, a empresa do setor de gás e energia do grupo – nesta quinta-feira, após participar de evento na capital paulista, Rubens Ometto disse ao Broadcast que a Cosan fará a venda de uma fatia da Compass.
O BTG também destaca a cultura da Cosan de promover rotação de líderes para diferentes funções dentro do grupo, uma prática que considera central para o crescimento da empresa e sua transformação em uma holding multinegócios com mais de R$ 30 bilhões em Ebitda anual, que corresponde ao lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização.
Essa mudança é vista pelo mercado como estratégica para o fortalecimento da companhia e para a continuidade de sua trajetória de geração de valor.
Já o Goldman Sachs observa que a renovação de executivos no grupo Cosan ocorre em um momento que o mercado está atento aos desdobramentos do cenário econômico e aos desafios fiscais do Brasil.
A recomendação neutra do Goldman Sachs, segundo os analistas do banco, reflete a cautela da instituição quanto aos riscos de mercado e a capacidade da Cosan de ter sucesso no ambiente de preços de commodities voláteis e potenciais intervenções regulatórias.
Essas mudanças gerenciais, de acordo com o Goldman, sinalizam uma aposta na experiência interna e no fortalecimento do grupo, mas o êxito dessa estratégia dependerá da resposta do mercado e do ambiente econômico nos próximos meses.
Por outro lado, a XP Investimentos vê a mudança no comando da Cosan e em suas subsidiárias como benéficas, principalmente para a Raízen, enquanto considera o impacto neutro para Cosan e Rumo. Para a Raízen, a XP vê a entrada de Nelson Gomes como CEO e Rafael Bergman como CFO como oportunidades para reforçar a confiança dos investidores e, possivelmente, reacender o interesse no caso de investimento da empresa.
A corretora, no entanto, ressalta que a nova gestão precisará construir um histórico sólido e responder a desafios internos para consolidar uma percepção positiva no mercado. A recomendação para a Raízen permanece de compra, com um preço-alvo de R$ 6, com atenção ao potencial de valorização de 114,2% ante o preço de R$ 2,80 verificado ao final da sessão da Bolsa ontem.
Em paralelo, a XP avalia que as trocas na Cosan não devem provocar grandes impactos para a holding, dada a continuidade esperada nas operações. Com uma recomendação neutra para Cosan e um preço-alvo de R$ 31,80, a corretora vê um potencial de valorização de 169% para as ações em comparação com a cotação atual, definida no fechamento desta quinta-feira.
Na Rumo, as mudanças são vistas de forma neutra pela XP, que enxerga a rotação de executivos como uma prática comum e bem aceita no grupo Cosan. Guilherme Machado, que assume a posição de CFO na Rumo, possui uma trajetória significativa dentro do grupo, o que deve garantir estabilidade nas operações e continuidade na estratégia.
Assim, a XP manteve sua recomendação neutra para Rumo, com um preço-alvo de R$ 35, e um potencial de valorização de 75,9% em comparação à cotação de fechamento de ontem.
As análises da XP e do BTG Pactual apontam uma visão neutra, mas otimista, sobre as implicações da dança das cadeiras nas empresas.
A XP destaca a ascensão de Marcelo Martins ao cargo de CEO da Cosan, ressaltando sua vasta experiência na empresa, onde atuou como CFO e diretor de estratégia. A casa de análise acredita que a mudança não deve trazer disrupções para a operação da holding, uma vez que, segundo os estrategistas, Martins tem um profundo conhecimento do portfólio da empresa.
Além disso, a XP não prevê impactos negativos na Compass, mesmo com a saída do atual CFO, Antônio Marchado.
Sobre a Rumo, a saída de Rafael Bergman do cargo de CFO para se tornar CFO da Raízen foi vista como neutra pelos analistas. A XP afirma que a nomeação de Guilherme Machado, ex-CFO da Compass, é uma escolha positiva, dada sua familiaridade com a empresa.
Para a Rumo, a expectativa é que a estratégia operacional e os planos de investimento permaneçam inalterados, já que mudanças de executivos são comuns dentro do grupo Cosan e geralmente bem recebidas pelo mercado.
Por outro lado, as mudanças na Raízen são consideradas maiores, especialmente com a nomeação de Nelson Gomes como novo CEO. A XP lembra que Gomes traz uma vasta experiência em liderança, tendo atuado em empresas como Comgás e ExxonMobil, e acredita que as recentes quedas nas ações da Raízen, que acumulam quase 30% de desvalorização no ano até o fechamento desta quinta-feira, 31, podem ser amenizadas com a nova administração.
Ainda assim, os analistas reconhecem que a equipe precisa estabelecer um novo histórico e abordar as preocupações dos investidores em relação à alavancagem e à viabilidade do etanol de segunda geração (E2G).
Para o BTG, a promoção de Marcelo Martins a CEO da Cosan foi considerada esperada, dado seu papel determinante na definição da estratégia de longo prazo da empresa. O banco destaca que a experiência financeira dele será valiosa para a desalavancagem em curso, uma necessidade premente para a Cosan.
O banco tem recomendação de compra para a Cosan, com preço-alvo em R$ 23, o que significa um potencial de alta de 94,6% em relação ao último fechamento do papel.
Em relação à Raízen, o BTG vê a nomeação de Nelson Gomes como uma movimentação animadora, porque, segundo a equipe econômica do banco, Gomes possui um estilo de liderança forte e habilidades de execução, bons atributos para a Raízen após um ciclo de investimentos que aumentou sua alavancagem a níveis preocupantes.
O BTG ressalta que as mudanças na liderança da Raízen podem levar a uma maior agilidade na empresa, equiparando-a a gigantes do setor, como a Shell.
Murilo Melo