Indústria

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'Não esperamos subsídios, mas mudança na regra do preço da gasolina', diz Unica


ig - Publicado: 16 Out 2013 - 08:16 | Atualizado: 16 Out 2013 - 14:15
Quanto mais se produz, mais se perde. A indústria da cana-de-açúcar em 2013 está atolada em uma crise financeira da qual nem a safra recorde de 588 mil toneladas conseguiu tirá-la.

"O cenário é paradoxal", conta ao iG a presidente da União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica), Elizabeth Farina, que cita o ganho de produtividade como o lado bom da história. Custos exorbitantes, um clima desfavorável e a política de preços congelados do etanol são apontados como os maiores vilões do setor.

Doutora em economia pela Universidade de São Paulo (USP) e ex-presidente do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), Elizabeth assumiu o comando da entidade em outubro de 2012 com a missão de buscar alternativas para reerguer a indústria do açúcar e do etanol.

A Unica representa 130 empresas do centro-sul brasileiro, responsáveis por 50% do etanol e 60% do açúcar produzidos no Brasil. Até setembro de 2013, havia 386 unidades produtoras no total, segundo o Ministério da Agricultura.

Elizabeth reconhece avanços no setor – como a alta do dólar e a desoneração do PIS/Cofins para o combustível –, mas os julga insuficientes para desafogar essa indústria. Uma das bandeiras que ela carrega é uma mudança da política de preços da gasolina, que afeta diretamente a comercialização do etanol no mercado interno.

"Em vez de recebermos subsídios do governo, preferimos que a gasolina não fosse subsidiada", explica. Para a representante da Unica, a regra que obriga o etanol a custar 70% da gasolina, devido ao consumo maior do biocombustível, coloca-o em desvantagem e cria preços desproporcionais com a realidade do mercado.

Em 2012, o setor faturou US$ 36,4 bilhões e, em 2013, mesmo com o ganho de produtividade – que recuperou níveis históricos –, a receita média deve ser igual a de 2012. O problema, segundo Elizabeth, é que as empresas que já acumulavam dívidas foram obrigadas a investir na mecanização da colheita e do plantio, o que ajudou a alavancar ainda mais o setor.

iG: Quais os entraves para o desenvolvimento da indústria da cana-de-açúcar no Brasil?
Elizabeth Farina:  O cenário é paradoxal. Este ano teremos uma safra recorde e vamos retomar as médias históricas de níveis de produtividade que por alguns anos não conseguimos alcançar. Esse é o lado bom da história. A situação econômica é o outro lado, justamente o contrário. Quanto mais se produz, mais se perde. Apesar do aumento da produtividade, a receita média este ano é menor que a de dois anos atrás e igual à do ano passado, devido a pressões de custo crescentes. Este ano houve uma geada bem localizada que forçou a colheita da cana fora de hora e aumentou os custos. As chuvas de maio e junho atrasaram a safra, e em outubro a colheita ficou parada por seis dias. Equipamento industrial e funcionários parados geram aumento de custos. Além dos fatores climáticos, o preço do açúcar no mercado internacional está menor.

Nem a alta do dólar ajudou a reerguer o setor?
Ajudou na exportação do açúcar, mas não foi suficiente para compensar a queda no preço internacional da commodity e o problema de competitividade do etanol, que está em torno de 75% da safra colhida. Ela está bem mais alcooleira do que açucareira.

Você diz que o preço do etanol está inadequado no Brasil. Por quê?
O preço do etanol tem um teto atrelado a 70% do valor da gasolina, já que ele consome cerca de 30% a mais de combustível. Este ano, uma decisão governamental retomou os níveis máximos de 25% permitidos de mistura de etanol na gasolina, o que foi bem importante para sustentar a demanda pelo combustível. Mas, pela prática do mercado, o preço do etanol anidro [ que é misturado à gasolina ] está vinculado ao do etanol hidratado [ que possui 4,5% de água ]. Ele compete diretamente com a gasolina. Se o preço dela não sobe, o do etanol também não pode subir, e quando ele cai, prejudica diretamente o preço do etanol, que tem estado muito baixo nos últimos tempos, razão pela qual o setor continua em situação delicada.

As empresas menores são mais afetadas pela crise?
Afeta todo mundo da mesma forma, seja pequena, média ou grande. Ninguém está fechando as contas neste momento. Algumas têm menos fôlego financeiro para aguentar, enquanto empresas mais diversificadas têm mais. As mais focalizadas costumam ter menos condições. Mas depende do histórico de investimentos. Quem tem alavancagem financeira maior não consegue enfrentar o estresse econômico porque já vem endividado, mesmo que por uma boa causa, que é investir em capacidade produtiva e renovação. O setor investiu muito rapidamente na mecanização da colheita e do plantio, o que exigiu um esforço grande. Nos últimos quatro anos foram investidos o equivalente a nove usinas novas só em mecanização do plantio. Depois investiram em expansão de canavial e infraestrutura, algo necessário para minimizar as perdas e não sair do negócio. É paradoxal.

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As fusões e aquisições são uma solução para a crise financeira das empresas?
Houve um período de forte movimento societário nos últimos cinco anos, mas agora está devagar por causa do momento dúbio, razão pela qual não se contratam novas usinas. Esse movimento de fusões e aquisições mudou muito a cara do setor. Com a entrada de capital internacional, multinacionais compraram parcialmente ou integralmente usinas familiares brasileiras. Também houve fusões entre usinas brasileiras que se profissionalizaram. Isso transformou a configuração dos negócios e colocou na mesma atividade uma petroleira como a BP (British Petroleum), uma do setor de alimentos como a Bunge, além de Shell e Cosan, formando a Raízen. Tivemos a Petrobras investindo em usinas brasileiras. As operações foram muito diversificadas, com impactos econômicos diferentes.

Isso não implica em risco de concentração neste mercado?
Acho natural que haja consolidação do setor, que é bastante fragmentado. Há 375 usinas e 200 grupos econômicos operando. É um dos setores mais fragmentados, e essa movimentação é uma forma de aliviar o estresse econômico.

A desoneração do PIS/Cofins da produção do etanol não ajudou o setor?
Ajudou. Foi colocada como medida provisória em maio deste ano e só convertida em lei recentemente. O corte de R$ 0,12 por litro deu um fôlego e melhorou a competitividade do etanol. Mas os R$ 0,12 só recuperam parcialmente o que foi perdido com a redução a zero da Cide (Contribuições de Intervenção no Domínio Econômico) que incidia em R$ 0,28 por litro sobre a gasolina. Como o etanol só pode custar até 70% da gasolina, a desoneração recuperou essa perda de competitividade. Mas a medida, que vai só até 2016, não resolve o problema de competitividade do etanol, apenas recupera parcialmente as perdas.

O etanol precisaria de mais subsídios do governo?
Preferimos que, em vez de o etanol receber subsídios, a gasolina não fosse subsidiada. Não esperamos subsídios, mas uma política que mude as regras dos preços de combustíveis e que reflita a realidade do mercado no Brasil. Se a gasolina é parcialmente importada, é preciso haver uma regra conhecida de longo prazo que estabeleça o que determina os valores no mercado interno. Se o preço do petróleo e da gasolina se alteram no mercado internacional, como isso vai ser internalizado? Como a variação do câmbio vai influenciar no preço do combustível doméstico? É preciso trazer elementos de mercado. Os preços e custos da Petrobras flutuam. O mercado precisa conhecer os determinantes dos preços para conseguir fazer hedge (proteção) de câmbio e conseguir lidar com incertezas. Fica muito difícil tomar decisões de investimento sem ter essa regra definida.

O que pode ser feito para mudar o cenário da indústria da cana-de-açúcar?
É preciso uma diferenciação tributária que reconheça os atributos positivos do etanol pra a redução de gás carbônico. Isso tem consequências inclusive no custo da saúde dos municípios, não só na poluição. Linhas de financiamentos do BNDES [ Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social ] para estocagem, renovação de canavial, inovação, pesquisa e desenvolvimento. Hoje, 30% das usinas não têm condição financeira de pegar qualquer financiamento, mesmo barato. Isso não salva todo mundo, mas ajuda.

Como anda a evolução das novas tecnologias?
Há uma expectativa muito grande com o etanol de segunda geração, feito a partir do bagaço da cana-de-açúcar, que deve ser mais produtivo e ter custo bem menor. Há cinco projetos em andamento no Brasil, mas ainda não operam em escala comercial. O primeiro está prometido para 2014 pela GranBio. Espera-se que dê um salto tecnológico importante. Mas até ser relevante em quantidade vai demorar. Enquanto isso temos de viabilizar o etanol de primeira geração, que contribui pra reduzir emissões de gás carbônico.

Taís Laporta