Etanol: Exportação

Etanol: Exportação

“Mundo vai comercializar com maior intensidade entre si”, diz economista

Para Sergio Vale, nova tarifa global de 10% de Trump não deve ter impacto significativo na economia global


O Estado de S. Paulo - Publicado: 23 Fev 2026 - 09:48

Assim como a tarifa de 50% sobre parte dos produtos importados do Brasil pelos Estados Unidos teve um efeito limitado na economia brasileira, o mesmo deve acontecer agora em decorrência da decisão da Suprema Corte americana de derrubar as tarifas impostas pelo presidente Donald Trump. “O impacto deverá ser limitado”, diz o economista-chefe da consultoria MB Associados, Sergio Vale.

Os setores afetados pelo tarifaço de 2025 conseguiram exportar parte do que era destinado ao mercado americano para outros países, como a China, amenizando o impacto da medida de Trump, lembra Vale. Esse movimento poderá, agora, ser revertido – ou não. “Tem uma questão cambial. O real se apreciou. Ficou mais caro exportar para os EUA. Então, talvez seja o caso de manter as exportações para os chineses”, diz ele.

O economista destaca, no entanto, que setores ainda afetados por tarifas americanas, como o do aço e o do etanol, podem sofrer mais no futuro. O presidente dos EUA utilizou regras específicas da Lei de Comércio do país para taxar esses segmentos.

O etanol brasileiro, por exemplo, está sob investigação do Representante de Comércio dos EUA, que determinará se o Brasil adota práticas comerciais consideradas injustas. “Trump pode fazer uma pressão maior para as investigações serem mais rigorosas e para ampliar tarifas”, relata.

Vale diz ainda que as decisões de Trump já não afetam tanto a economia global, dado que os agentes econômicos estão se acostumando a um cenário mais instável. “Os EUA são, cada vez mais, um parceiro comercial não confiável e o mundo vai continuar comercializando com maior intensidade entre si, saindo da esfera americana”, observa.

Leia, a seguir, trechos da entrevista:

Qual é o impacto da decisão da Suprema Corte dos EUA para a economia brasileira?
O impacto do que realmente havia sido taxado no ano passado foi relativamente pequeno para a economia brasileira, considerando o agregado. Só alguns setores acabaram sofrendo, como a indústria de médio porte de máquinas e equipamentos, componentes eletrônicos, calçados e vestuário. O impacto agora, portanto, também deverá ser limitado. No ano passado, esses setores mais afetados acabaram exportando mais para a China. Isso pode ser revertido agora. Mas tem também uma questão cambial. O real se apreciou. Ficou mais caro exportar para os EUA. Então, talvez seja o caso de manter as exportações para os chineses.

Em resposta a decisão da Suprema Corte, Trump anunciou uma taxação global de 10%. Acha que ele ainda poderá tomar medidas específicas contra países e produtos específicos?
A dúvida que fica é em relação às seções 301 e 232 (da Lei de Comércio dos EUA, que, respectivamente, autorizam o governo a investigar e impor tarifas contra países com práticas comerciais consideradas injustas e em caso de ameaça à segurança nacional). Ele acionou, por exemplo, a 232 para fazer investigações contra o aço. Isso vai permanecer em vigor, mas talvez setores afetados por essas seções possam ser mais impactados no futuro. Trump pode fazer uma pressão maior para as investigações serem mais rigorosas e para ampliar tarifas (como medida compensatória à derrubada das tarifas por parte da Suprema Corte). A 301 pode ter um impacto negativo importante para o etanol brasileiro, por exemplo.

Além da desvalorização do dólar tornar mais cara a importação, essa taxação global de 10% também pode pressionar o preço dos importados no mercado americano? Isso mexerá na inflação e na taxa básica de juros dos EUA?
Sim. A inflação já piorou no ano passado por causa da guerra tarifária. Houve uma aceleração. Esses 10% para tudo e contra todos podem causar um repique inflacionário e atrasar o processo de queda de juros. O Fed (Federal Reserve, o banco central dos EUA) vai ficar mais fechado para a manutenção da taxa de juros durante algum tempo.

A tarifa de 10% para todos os países também pode ser derrubada na Suprema Corte. Isso gera mais incerteza? Um cenário mais instável deve interferir na economia global?
Acho que o mundo se acostumou com essas idas e vindas do Trump. Agora: por que essa tarifa de 10% por cinco meses? Talvez ele ache que, em cinco meses, as investigações (das seções 301 e 232) vão começar a ser divulgadas e aí ele vai saber o que poderá ser mesmo tarifado. Mas esses 10% também vão para o Supremo. A questão é se haverá uma decisão rápida. Até lá, Trump continua colocando instabilidade no mundo, só que 10% já não causam mais tanta surpresa. É uma tarifa para todo mundo. Então, não aumenta tanto o estresse. Mas fica a ideia de que os EUA são, cada vez mais, um parceiro comercial não confiável e que o mundo vai continuar comercializando com maior intensidade entre si, saindo da esfera americana.

Luciana Dyniewicz