Açúcar: Mercado

Açúcar: Mercado

Múltis reagem a regras para reduzir consumo de açúcar


Financial Times - Publicado: 05 Mai 2014 - 08:59 | Atualizado: 30 Nov -0001 - 21:00
Gotas de suor brilham na sobrancelha do engraxate grandalhão, enquanto ele trabalha em uma praça movimentada na Cidade do México. "Adoro refrigerante", diz Raúl Valverde. "Tem um sabor tão melhor do que a água. Costumava beber entre 600 ml e 1 litro por dia". Mas quando se viu com sobrepeso aos 40 anos, Valverde decidiu fazer um regime. Isso significou um fim para os refrigerantes. "Estar acima do peso é desconfortável e vai ter impacto em minha saúde, embora, felizmente eu não seja diabético - ainda não".

Para as empresas multinacionais de alimentos e bebidas, o peso de Valverde, e o de milhões de pessoas como ele, tornou-se um problema premente. O México rivaliza com os Estados Unidos como o país com a população mais obesa do mundo. É também o segundo maior consumidor per capita de bebidas com gás.

Para combater a crise de obesidade, o governo mexicano juntou-se neste ano ao punhado de países - dos quais é o maior mercado emergente - a aplicar um novo imposto sobre os refrigerantes que não têm limitação de calorias.

Economias emergentes como a mexicana são a fonte de maior crescimento de demanda para muitas das grandes empresas de alimentos e bebidas. Se outros países em desenvolvimento, nos quais a regulamentação e as restrições publicitárias normalmente são menos onerosas do que nos mercados desenvolvidos, seguirem o caminho do México, isso poderia privá-las de oportunidades de crescimento, em um momento no qual já enfrentam pressões cada vez maiores das autoridades sanitárias nos países de alta renda.

Outro grande passo para coibir o consumo de açúcar foi dado em março, pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que fixa os padrões internacionais de nutrição. Em seu novo plano preliminar de orientações, divulgado para consultas, cortou pela metade a dose diária recomendada de açúcar.

O órgão da Organização das Nações Unidas (ONU) limitou "idealmente" o açúcar para 5% das calorias diárias, o que equivale a seis colheres de chá por dia. Pelo relato de Valverde, ele bebia o equivalente a 18 a 27 colheres de chá de açúcar, só com os refrigerantes.

Autoridades sanitárias e um número crescente de médicos pelo mundo vêm concordando quanto à responsabilidade das bebidas açucaradas e do açúcar agregado a alimentos no que a OMS descreve como epidemia de obesidade.

"O açúcar tornou-se o novo tabaco", diz Simon Capewell, professor de epidemiologia clínica na Liverpool University, um dos fundadores da Action on Sugar, um grupo do Reino Unido que faz campanha pela limitação do açúcar. "Por todos os lados, as bebidas açucaradas e a comida de baixo valor nutritivo são empurradas para cima de crianças e de pais desprevenidos, por uma indústria cínica cujo foco é o lucro e não a saúde."

É uma acusação que grandes empresas, como Coca-Cola, PepsiCo, Nestlé e Unilever, negam. Seu medo, no entanto, é que, assim como ocorreu com a indústria do tabaco, elas venham a deparar-se com mais impostos e regras, para não entrar na questão do estigma associado a suas marcas.

A indústria diz que o açúcar vem sendo demonizado injustamente e argumenta que a falta de exercício e o consumo generalizado de calorias são os culpados pelo aumento nos índices de obesidade. "A questão não se resume a quem grita mais alto", diz o executivo-chefe da Unilever, Paul Polman. "O problema é muito grande e complexo e precisa ser solucionado holisticamente."

Não há nada de novo na luta entre "as grandes" do setor de alimentos e grupos de defesa do consumidor. Um dos motivos pelos quais o açúcar acabou se tornando tão presente nos alimentos processados é porque foi usado, juntamente com o xarope de milho rico em frutose, para substituir as gorduras, que foram alvo de uma investida pela saúde nos anos 80. A obesidade tampouco é um problema novo; a OMS a chama de epidemia há pelos menos dez anos.

Governos começam a acordar para os custos resultantes de diabete e câncer, que crescem com a obesidade

Uma combinação de fatores, no entanto, acabou colocando o açúcar dentro da agenda política da saúde, o que terá implicações para as tendências da indústria alimentícia por muitos anos.

O número de pesquisas associando o consumo de açúcar à obesidade cresceu. E governos começam a acordar para os custos cada vez mais altos resultantes de doenças como diabete e câncer, que crescem paralelamente à obesidade. "A discussão sobre o açúcar associado a preocupações com a dieta vem ganhando força", diz Stefano Natella, do Credit Suisse. "Os custos globais com assistência médica [relacionados à obesidade] estão em patamar recorde - a conta é de US$ 500 bilhões ou cerca de 10% dos gastos mundiais com assistência médica - assim como os níveis de obesidade e diabete."

O número de pessoas obesas no mundo aumentou de 300 milhões, há dez anos, para 500 milhões, o que pressiona os orçamentos, já esticados, da saúde pública.

Mas a obesidade não é mais um problema exclusivo das nações ricas. "O que mudou é que, hoje, a maioria das pessoas com sobrepeso ou obesas é encontrada no mundo em desenvolvimento e não no desenvolvido", relatou, em janeiro, o Overseas Development Institute, do Reino Unido.

Autoridades sanitárias agora aplicam o termo "mal nutrido" tanto para os obesos como para os muito magros. "Obesidade e deficiência de micronutrientes frequentemente se sobrepõem - uma pessoa pode sofrer de ambas; ambas são formas de alimentação deficiente", diz Kostas Stamoulis, economista da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO).

Os consumidores, também, adquiriram mais consciência e exercem seu poder de voz com suas carteiras. Esse é um dos motivos pelos quais as vendas de refrigerantes com açúcar estão em queda há dez anos nos EUA. Mais recentemente, as vendas de refrigerantes de cola sem calorias também começaram a cair por receios quanto aos adoçantes artificiais, como o aspartame.

As vendas de alguns tipos de comidas prontas ou embaladas, como frutas em conserva, pudins congelados, espaguetes em lata e pizzas congeladas, também se estagnaram. "Os claros padrões de crescimento nas categorias de alimentos mais frescos, mais saudáveis, à custa dos alimentos com mais processamento, trazem evidências bastante fortes de que se trata de uma mudança estrutural nas atitudes do consumidor", diz Alexia Howard, analista do Bernstein Research. As redes de relacionamentos social, acrescenta, ajudaram a disseminar os receios com os alimentos.

Em fevereiro, pela primeira vez em 20 anos, a FDA remodelou os rótulos dos alimentos, passando a exigir informações em maior destaque sobre o açúcar adicionado ao produto. A ação foi necessária para levar em conta as "informações científicas mais recentes, incluindo a ligação entre a dieta e doenças crônicas, como a obesidade e doenças cardíacas", diz a FDA.

Até agora, a indústria alimentícia conseguiu evitar algumas das regras que lhe seriam mais dispendiosas, mas há novas ameaças.

Quando Michael Bloomberg, como prefeito de Nova York, tentou proibir as bebidas açucaradas em tamanhos "gigantes", em 2012, a indústria da bebida o levou para a Justiça e ganhou. Agora, vários Estados americanos, como a Califórnia e Illinois, propuseram impostos sobre os refrigerantes.

A OMS enfrentou a fúria do lobby do açúcar em 2004, com a orientação que limitava o consumo de açúcar a 10% das calorias consumidas diariamente. O lobby defendia que fosse 25%. A OMS manteve a posição, o que levou a Associação do Açúcar, um grupo setorial americano, a avisar que poderia pedir a seus aliados no Congresso a contestar as contribuições financeiras dos EUA à organização da ONU, embora tenha negado ter feito tal ameaça.

A indústria de alimentos e bebidas defende compromissos voluntários de redução do açúcar, sal e gorduras, argumentando que isso diminui a necessidade de impor mais regras.

A Nestlé divulga que reduziu o conteúdo total de açúcar em seus produtos em 30% entre 2001 e 2011. A empresa tem um grande orçamento para pesquisas voltadas a reformular seus produtos e torná-los mais saudáveis.

Debra Sandler, chefe da Mars , da América do Norte, disse em conferência em 2013, que a indústria precisa "intensificar" a resolução das preocupações sobre obesidade: "Se não [agirmos], temo que alguém vai agir por nós [...] Não fiquem esperando que os reguladores nos digam o que fazer".

Em 2013, a Coca-Cola lançou a Coca-Cola Life, com uma embalagem de aparência mais natural, verde. O refrigerante tem estévia, um adoçante natural, com a metade do açúcar e das calorias de uma Coca-Cola normal. O lançamento foi limitado à Argentina e Chile, mas Muhtar Kent, executivo-chefe da Coca-Cola, disse que vai ser estendido a mais países neste ano, porque "mostrou-se muito promissor em recrutar consumidores perdidos ou novos para a categoria de bebidas com gás."

A Pepsi trabalha em uma bebida similar neste ano. Como Indra Nooyi, executivo-chefe da PepsiCo, disse em 2013 sobre as bebidas dietéticas com adoçantes artificiais: "Estamos vendo uma mudança fundamental nos hábitos e comportamentos do consumidor".

O maior desafio do setor é cortar o açúcar sem alterar o sabor. A Mars valeu-se da medida extrema de cortar o peso de suas barras Mars e Snickers para cumprir sua promessa de reduzir as calorias para um máximo de 250 por barra no Reino Unido, em dezembro.

"Tendo levado a reformulação do produto o mais longe que pudemos sem comprometer o ótimo sabor, [então] reduzimos o tamanho da porção", destacou a Mars, que, no entanto, não cortou o preço.

Essas medidas voluntárias não vão longe o suficiente, segundo Graham MacGregor, cardiologista do Wolfson Institute of Preventive Medicine, em Londres.

"Cada empresa pode fazer algo diferente com suas promessas sobres as calorias, então é impossível de medir e não tem efeito", disse.

O professor MacGregor encabeçou o bem-sucedido plano de redução de sal no Reino Unido ao lado da Autoridade de Padrões dos Alimentos, do Reino Unido. O sal agregado aos alimentos processados diminuiu gradualmente ao longo de dez anos em 30% e os consumidores britânicos agora consomem 15% menos do sal do que anteriormente.

Ele quer repetir o sucesso com o açúcar. A chave, diz o professor MacGregor, é reduzir os níveis gradualmente, reduzindo a probabilidade de os consumidores perceberem a mudança.

"O açúcar adicionado aos alimentos e bebidas tem pouco ou nenhum valor nutricional e contribui para o consumo de calorias", diz o professor MacGregor, defendendo que o governo do Reino Unido fixe metas de redução do uso de açúcar. Sua meta é reduzir o volume de açúcar usado em produtos alimentícios entre 20% e 30% nos próximos cinco anos.

Durante o período de redução gradual, as pessoas estariam consumindo 100 calorias a menos por dia "sem mesmo perceber a diferença no sabor".

O professor MacGregor toca um assunto já discutido. Em março, Sally Davies, máxima autoridade de saúde do Reino Unido e integrante do conselho do Departamento de Saúde, falou a parlamentares sobre a necessidade de mais instrução sobre o assunto, para que as pessoas entendam "como são os sucos de frutas repletos de calorias, as batidas de leite, as colas e os refrigerantes".

Ela defende novas regras e deixa aberta a possibilidade de um imposto sobre o açúcar. Caso contrário, alerta: "Temos uma geração de crianças que, por terem sobrepeso e por falta de atividade, pode não viver tanto quanto a minha geração. Eles serão a primeira geração que vai viver menos".

Uma coisa é certa: a questão do açúcar já influencia a forma como o setor é visto.

Em março, a agência avaliadora de risco de crédito Moody's atribuiu sua decisão de rebaixar a perspectiva da indústria global de bebida de "positiva" para "estável" ao imposto do governo mexicano sobre os refrigerantes, de 1 peso mexicano (US$ 0,08).

Na Cidade do México, Elpidio Gayoso, de 67 anos, comenta que "costumava beber um litro de refrigerante por dia", mas que parou pela diabete. "Se não tivesse sido pelo médico, eu teria cortado de qualquer forma, pelo preço."

Scheherazade Daneshkhu
Tradução de Sabino Ahumada
via Valor Econômico