
Guido Ghisolfi, 58 anos, presidente da Beta Renewables e pioneiro do E2G deixa legado de inovação
O presidente da Beta Renewables e pioneiro do etanol celulósico, Guido Ghisolfi, foi encontrado morto em seu carro com um tiro na cabeça. Segundo informou a imprensa italiana nesta quarta-feira (4), o executivo teria disparado contra si mesmo. O corpo, sem vida, foi encontrado dentro do veículo, um Lexus preto, que estava próximo de sua residência, em Tortona, no norte da Itália.
O principal jornal do país, o Corriere della Sera, informou, com base em investigações policiais, de que não há dúvida de que o caso se trata de suicídio.
Em nota, o grupo Mossi Ghisolfi, dona das empresas M&G Chemicals, Chemtex, Biochemtex e Beta Renewables, lamentou o ocorrido e afirmou que o executivo sofria “de uma severa depressão”, a qual “resultou em sua morte”.
Acionista da Beta Renewables, juntamente com o fundo americano TPG e o grupo Mossi Ghisolfi, a Novozymes também prestou condolências à família. “Nós, da Novozymes, perdemos um querido e inspirador parceiro de negócios. A Itália perdeu um verdadeiro pioneiro”, disse, em comunicado, o vice-presidente da fabricante de enzimas, Thomas Videbæk.
Um entusiasta do etanol 2G, para quem o biocombustível pode ser lucrativo em qualquer lugar, Ghisolfi deixa um legado de inovação e pioneirismo justamente num momento em que a indústria de segunda geração vive um momento delicado.
Contrapondo o ceticismo em relação ao etanol celulósico, o executivo usou a si mesmo como exemplo de que o negócio pode, sim, ser lucrativo, investindo da própria riqueza e de recursos da família para rodar a primeira planta 2G do planeta em Crescentino, na Itália.
“A nossa família investiu centenas de milhões de dólares em pesquisa e decidimos construir uma usina para demonstrar a tecnologia. Nem todo mundo acreditou, mas agora, vocês podem ir até a Itália e visitar a fábrica, que está funcionando. Ao invés de prometer uma tecnologia, convido a vocês a irem até lá e vê-la”, disse o executivo na quarta edição do Ethanol Summit, realizado em 2013, em São Paulo.
Com capacidade para produzir 75 milhões de litros por ano, a usina de Crescentino usa a palha de arroz e de trigo para fabricar o biocombustível, além de um tipo de cana encontrado na região, conhecido como cana-do-reino. A unidade consome, em média, 270 mil toneladas de matéria-prima por ano.
E2G em crise
Apesar da inauguração de usinas importantes nos últimos meses, o momento do etanol celulósico é delicado. Conforme relatado pelo portal novaCana no final de janeiro, parece estar ocorrendo um ajuste de expectativas sobre os prazos de desenvolvimento do etanol celulósico pelo mundo e desânimo em relação as perspectivas de curto e médio prazo.
À frente da Beta Renewables, o executivo liderou quatro projetos que visam a produção do biocombustível em escala comercial, além de construir um império de U$ 350 milhões, fruto de mais de 60 anos de sucesso no desenvolvimento de processos e comercialização de plantas no mundo todo.
A empresa comandada por Ghisolfi é a licenciadora da tecnologia Proesa, que permite a quebra dos açúcares da biomassa para a fabricação do etanol 2G e de outros bioprodutos. No Brasil, esta mesma tecnologia foi licenciada pela GranBio, e parece ser a solução que mais ganha terreno nos projetos 2G ao redor do mundo.
No ano passado, a M&G Chemicals, do grupo Mossi Ghisolfi, anunciou a construção da maior planta de etanol 2G do mundo, a quarta a adotar a tecnologia Proesa.
Com investimentos de U$325 milhões, a nova usina será construída e operada pela Anhui M&G, uma joint venture criada pela M&G Chemicals e a chinesa Anhui Guozhen Co, que deterão 70 e 30% do novo negócio, respectivamente.
Juntamente com o pai Vittorino e o irmão Marco, Ghisolfi fez do grupo familiar uma empresa global.
O executivo estava a poucas semanas de concluir o financiamento de uma planta 2G na Carolina do Norte, nos Estados Unidos. O projeto atraiu U$ 99 milhões, na forma de garantia de empréstimo, do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, na sigla em inglês), além de US$ 4 milhões do Programa de Assistência a Cultura de Biomassa (BCAP).
Em novembro, a Brooke Renewables, uma joint venture entre as empresas Hock Lee Group, Brooke Asia Ltd e a Biochemtex Agro; a última, do grupo Mossi Ghisolfi, apresentou uma carta de intenções ao governo de Sarawak, na Malásia, para a construção de uma planta 2G. Com um investimento de U$1 bilhão, a planta usará a tecnologia Proesa, da Beta Renewables, e contará com as enzimas da Novozymes.
Em outubro, a Biochemtex e a Beta Renewables anunciaram um acordo com a Energochemica SE para a construção de uma planta de etanol celulósico com capacidade para produzir 62,3 milhões de litros. O projeto está previsto para entrar em operação no primeiro semestre de 2017.
Leonardo Siqueira – novaCana.com