O uso político da Petrobras para segurar a inflação, como congelamento de preços de combustíveis, representa um forte obstáculo para a rentabilidade da companhia e um elevado risco aos investidores.
O contundente alerta foi emitido na terça-feira pela agência de classificação de risco Moody's. O relatório também reforça a pressão pelo aumento da produção da companhia, condição para aliviar seu fluxo de caixa a partir de 2017 "na melhor das hipóteses".
Após a divulgação do relatório, as ações da companhia fecharam com queda superior a 2% na Bolsa de Valores. A análise encaminhada aos investidores abordava a deterioração do crédito para as estatais de petróleo da América Latina. No cenário, a brasileira figura como a companhia com as menores margens de lucro operacional, o maior saldo devedor, os maiores custos de produção, além de "substanciais riscos políticos".
"O governo utiliza rotineiramente a empresa para ajudar a cumprir os seus objetivos políticos como, por exemplo, a construção de refinarias em regiões não econômicas, para estimular seu desenvolvimento, e o controle da inflação, mantendo os preços da gasolina e do diesel abaixo do valor de mercado", indica o relatório assinado pelas analistas Nymia Almeida e Kijana Mack.
Para a Moody's, a desaceleração econômica do País levou o governo a "depender mais pesadamente da Petrobrás para controlar a política econômica". A estatal estaria "cerceada" também em seu Conselho de Administração, formado majoritariamente por executivos indicados pelo governo. Segundo o relatório, um pedido de reajuste dos combustíveis foi negado em junho. Fontes próximas ao conselho confirmaram o pedido, tema considerado 'recorrente' no colegiado.
"Os preços domésticos para a gasolina e diesel, que variaram entre 10% a 20% abaixo do preço internacional (dependendo da taxa de câmbio), coloca um obstáculo significativo na rentabilidade da Petrobrás". A continuidade desta política, segundo o relatório, terá forte impacto sobre a área de refino e abastecimento, que já registrou perdas de R$ 4 bilhões no primeiro trimestre.
Custos. Na comparação com empresas da Venezuela, Argentina, México e Colômbia, a estatal brasileira também sai perdendo nos indicadores econômicos, como os níveis de endividamento e alavancagem, além do pagamento de lucros.
Para a Moody's, os níveis de endividamento da Petrobrás vão continuar a subir até 2016 e que uma melhora sustentável no fluxo de caixa da companhia ainda está "a alguns anos de distância, na melhor das hipóteses". A situação não é pior pois a estatal possui bom caixa, com US$ 35 bilhões registrados em março, e assim consegue boa cobertura das dívidas.
Procurada, a estatal informou que não comenta avaliações de agências de classificação de risco.
Antonio Pita