A multinacional de sementes e biotecnologia Monsanto decidiu encerrar os negócios no mercado brasileiro de cana-de-açúcar, no qual operava com a marca CanaVialis. A companhia informou que irá focar as atividades no país em sementes, proteção de cultivos, biológicos e agricultura digital, segundo comunicado divulgado nesta quarta-feira (7).
A companhia anunciou ainda que vai discutir possíveis transferências de tecnologias no setor de cana para entidades públicas de pesquisa do Brasil.
“Acreditamos que a cadeia de valor da cana-de-açúcar é extremamente importante para o país e continuará contribuindo com o meio ambiente, a economia e a sociedade do Brasil e do mundo. No entanto, os mercados globais de energia e bioenergia mudaram e resolvemos explorar as oportunidades das nossas outras culturas”, diz a nota.
O plano faz parte de uma "reestruturação global" em que a multinacional também está cortando outros investimentos, que devem afetar cerca de 2,6 mil postos de trabalho. A decisão veio após a empresa revelar um prejuízo maior do que o mercado previa. O quarto trimestre do ano fiscal 2015, encerrado em 31 de agosto, registrou prejuízo líquido de US$ 495 milhões e anunciou uma revisão para baixo em sua expectativa de lucro no atual exercício.
Em uma manobra agressiva, em agosto desse ano a Monsanto tentou comprar a rival Syngenta por US$ 45 bilhões.
A Monsanto adquiriu do Grupo Votorantim, em novembro de 2008, a Aly Participações, que controlava as empresas de melhoramento genético e biotecnologia de cana-de-açúcar CanaVialis e Alellyx. As duas empresas foram incorporadas pela Monsanto numa operação avaliada na época em cerca de R$ 620 milhões.
Quando foi anunciada, a venda da CanaVialis para a Monsanto foi alvo de críticas, já que, no início, as pesquisas da empresa controlada pela Votorantim tiveram financiamentos de instituições públicas como o BNDES. Hoje, os ativos "descontinuados" têm pouco valor. "Pesquisa tem que ter continuidade e lançamento de produtos. Caso contrário, o que sobra são equipamentos", observa um especialista em entrevista para o Valor Econômico.
Em 2013, a Monsanto contratou o Morgan Stanley para encontrar um sócio investidor para a CanaVialis, mas a estratégia não prosperou.
Segundo fontes consultadas pelo Valor Econômico, o cenário decorrente frustrou as expectativas da Monsanto e tornou suas operações com cana pouco promissoras. Estima-se que a aposta tenha custado à companhia, em números conservadores, quase US$ 500 milhões desde 2008, incluindo os US$ 290 milhões pagos pela aquisição da CanaVialis.
Desde que comprou a operação de cana, a Monsanto lançou três ou quatro variedades no mercado, resultantes de pesquisas que já tinham começado a ser desenvolvidas pela Votorantim Novos Negócios.
Ainda assim, no comunicado que divulgou, a multinacional afirmou que vai prospectar entidades públicas de pesquisa para discutir possíveis transferências tecnológicas, de modo a permitir que os progressos obtidos continuem contribuindo para a cadeia da cana no Brasil.
Agora, para apenas “focar nos nossos negócios principais”, como sementes e defensivos, os investimentos previstos para este ano no mercado brasileiro são de US$ 150 milhões.
Segundo a empresa, 150 funcionários serão afetados pelo encerramento das atividades. Mas a empresa garante que nem todos serão dispensados e que estuda meios de transferir “o maior número possível” de pessoas para outros setores.
novaCana.com
com informações de agências e do Valor Econômico